Um milhão de pessoas voltam a usar transporte público em SP e insegurança toma conta de passageiros

Número de usuários na região metropolitana chega a 3 milhões com início da retomada, um terço do total pré-crise sanitária. Medo de infecção pelo novo coronavírus é constante

Passageiros na estação Barra Funda, em São Paulo, na noite de quinta-feira, 4 de junho.
Passageiros na estação Barra Funda, em São Paulo, na noite de quinta-feira, 4 de junho.Camila Svenson
São Paulo -

Desde o início da proliferação do coronavírus no Brasil, Gabriela Mourato só parou de trabalhar quando contraiu a doença em abril. A jovem, que é funcionária terceirizada de um banco em São Paulo, atividade considerada essencial durante a pandemia, ficou três dias internada em um hospital após sentir falta de ar e depois manteve uma quarentena em casa até melhorar. Moradora de Embú das Artes, a 30 km da capital, ela precisa se deslocar de ônibus, metrô e trem para chegar ao trabalho. “Nas últimas semanas, os transportes todos estão mais cheios, eu continuo com muito medo, mesmo já tendo contraído o coronavírus. Não sei se estou imune, tem gente que usa máscara, outros não, sinto que continuo me arriscando. Na empresa, nunca deram uma alternativa de locomoção, até porque sou terceirizada”, conta ao sair da estação de metrô de Pinheiros, na zona Oeste da capital paulista, e se dirigir ao terminal de ônibus, que estava relativamente vazio às 8h30 da última quarta-feira (3). Matheus Brito, de 24 anos, morador do bairro Jardim Ângela, na zona sul da cidade, também se sente inseguro ao se locomover de trem e ônibus para trabalhar. “No início da pandemia, sempre via funcionários higienizando os ônibus e metrô, mais distanciamento, mas agora já está cheio de gente, tem até trânsito. Parecido aos tempos normais".

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Sao Paulo - BR - 03jun20 - Gabriela Jansen, 26, é analista de marketing de uma empresa de cosméticos francesa. Durante a quarentena ela trabalhou com a filha, Manuela, 6, e a mãe Birgit, 54, fisioterapeuta, em casa o tempo todo. As duas se revezavam nos cuidados com a menina de modo a poderem trabalhar. Com a retomada das atividades econômicas, as aulas não devem voltar, o que gera um problema sobre onde e com quem deixar a menina durante as jornadas de trabalho das duas.
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Apesar da demanda pelos transportes públicos da região metropolitana de São Paulo ter caído para um terço do volume diário normal após o governador João Doria decretar as medidas de isolamento no dia 24 de março, a percepção de Gabriela e Matheus, de que cada vez mais pessoas voltam às estações e pontos de ônibus, é verdadeira. Segundo o secretário estadual de Transportes Metropolitanos, Alexandre Baldy, a quantidade de usuários de metrô, trem ( Companhia Paulista de Trens Metropolitanos) e das linhas de ônibus intermunicipais vêm aumentando dia a dia. Do fim de março até o dia 3 de junho, a demanda saltou de 2 milhões de usuários para 3 milhões. Antes da pandemia era de 10 milhões. O número só tende a crescer com a reabertura gradual das atividades que será implementada esse mês. "Na última quarta-feira chegamos a 3.053.000, o maior número desde o início da quarentena. É um aumento de 50%, uma alta substancial. E a maioria dos usuários está concentrada no horário de pico, o que é um desafio para não gerar aglomeração”, explica o secretário. Para evitar novas contaminações da doença, a higienização dos veículos e estações foi intensificada. No caso dos trens a higienização é feita em cada ponto da linha e, no metrô, ao final de cada ciclo. Segundo Baldy, a frota que foi reduzida desde o início da quarentena, opera atualmente entre 65% até 100% da capacidade dependendo dos horários e demandas.

Matheus Brito, de 24 anos, morador do bairro Jardim Ângela, na zona sul da cidade, também se sente inseguro ao se locomover  de trem e ônibus para trabalhar.
Matheus Brito, de 24 anos, morador do bairro Jardim Ângela, na zona sul da cidade, também se sente inseguro ao se locomover de trem e ônibus para trabalhar. Camila Svenson

Geraldo Ferreira, que trabalha como armador de ferragem em uma obra há seis meses, reclama, no entanto, que essa redução fez com que a linha do ônibus que precisa tomar para voltar para a casa em Osasco, na região metropolitana, ficasse sempre cheia desde então. "Na obra medimos a temperatura, colocamos máscara, temos álcool em gel, me sinto seguro. O problema é quando preciso voltar. Todo dia pego o ônibus cheio, menos no sábado. É o momento mais arriscado. Mas melhor se arriscar do que não ter emprego”, completa.

A Secretaria de Transportes Metropolitanos alega, entretanto, que a operação é monitorada em tempo real, sobretudo em horários de pico. E, quando constatada a necessidade de mais trens nas linhas ou ônibus na operação, eles são imediatamente incluídos para não ocorrer aglomerações e evitar a propagação do vírus. São Paulo é hoje o Estado recordista de casos da doença no país, com mais de 129.000 notificações e 8.560 mortes por coronavírus até quinta-feira, 4 de junho.

Gabriela Mourato precisar usar três transportes públicos diferentes para chegar ao banco em que trabalha.
Gabriela Mourato precisar usar três transportes públicos diferentes para chegar ao banco em que trabalha. Camila Svenson

Escalonamento de horários

Com a iminente abertura de escritórios, shopping centers, alguns estabelecimentos comerciais, concessionárias de veículos e imobiliárias nos próximos dias na capital ― que serão aprovados após protocolos ―, o secretário Alexandre Baudy, afirma que será necessário voltar 100% a operação de transporte. Ele defende, no entanto, que haja um escalonamento de horários de abertura e fechamento para cada atividade comercial, afim de diminuir o número de usuários nas hora de pico (de 5h30 às 7h30 e de 17h30 às 19h30). “As pessoas precisam ir e voltar do trabalho em horários alternados para que a gente consiga diluir o horário de pico. Ao invés de concentrar os usuários num intervalo de 2 horas podemos estender para 6 horas. Essa é a única fórmula que está dando certo em outros países que já atravessam o momento de reabertura, como a China. Um shopping pode, por exemplo, abrir de 13h às 20h, fazendo com que seus funcionários evitem os horários mais cheios do transporte público”, diz o secretário."O transporte de massa é em si um aglomerador de pessoas", completa.

A decisão do horário de funcionamento dos estabelecimentos comercias compete a cada município. “Por isso, formalizei a todas as prefeituras que atendemos ( que são 134) que é fundamental esse procedimento para não ter aglomeração 2 horas por dia. Estamos participando dos debates de reabertura para estarmos preparados”, explica.

Nesta quinta-feira, o prefeito de São Paulo, Bruno Covas, informou que concessionárias e revendedoras de veículos, além de escritórios de prestação de serviços poderão voltar a funcionar a partir desta sexta-feira (5), desde que os horários de abertura e fechamento não coincidam com os horários de pico da cidade. Os setores serão autorizados a atender o público por quatro horas diárias. Covas também explicou que a frota de ônibus será reforçada com dois mil veículos, “para evitar aglomerações” no transporte público, à medida em que mais setores reabrirem suas atividades ao público. Desde o início de maio, uma média de 1,1 milhão de pessoas têm utilizado os ônibus municipais, inclusive nos primeiros dias de junho, 33% do volume normal diário antes da pandemia, segundo a SPTrans. Já a frota operacional se mantém em 65,5% da capacidade (8.394 veículos). Antes da quarentena, o sistema de ônibus na capital recebia cerca de 3,3 milhões de pessoas em dias úteis.

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