Esquecidos pelo Itamaraty e sem recursos: os brasileiros que foram meditar e ficaram presos na quarentena da Índia

Ministério das Relações Exteriores organizou voo de repatriação no país asiático, mas alguns não foram incluídos. Segundo o órgão, 4.600 brasileiros ainda precisam voltar ao país durante a pandemia

Gabriel Catarino durante a estadia na Índia, antes da quarentena.
Gabriel Catarino durante a estadia na Índia, antes da quarentena.ARQUIVO PESSOAL

Gabriel Catarino, 26, e Douglas Cirqueira, 25, planejaram uma viagem de turismo à Índia neste ano. Os dois chegaram na cidade de Balaghat, na região central do país asiático, em 8 de março para um curso de meditação em silêncio. “Naquele momento estava tudo normal, com as notícias do coronavírus focadas na China”, relata Gabriel. A Índia havia confirmado apenas cinco casos da doença. Os dois amigos passaram duas semanas isolados e ausentes de qualquer rede social no curso. Quando voltaram, o mundo já não era mais o mesmo. A Índia registrava mais de 400 casos da doença e havia implementado uma quarentena restrita. “Eu nem sabia o que era lockdown. Foi rígido e assustador”, diz o brasileiro.

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O país de um bilhão de habitantes declarou quarentena em 24 de março, quando tinha 434 casos oficiais e nove mortes pela covid-19. “Para salvar a Índia e cada indiano, haverá total proibição de se aventurar fora de suas casas. Esqueça o que é sair por 21 dias. Fique em casa”, disse o primeiro-ministro Narendra Modi. A medida cumpriu os 21 dias e, desde então, vem sendo estendida de 15 em 15 pela sua efetividade. Há duas semanas o Governo registra mais de 3.000 casos por dia e soma 101.000 casos, números bem menores que os cerca de 14.000 diários e mais de 250.000 confirmados no Brasil, mesmo sendo a população indiana cinco vezes maior.

Com uma das quarentenas mais restritas do mundo, onde a desobediência leva à prisão, Gabriel e Douglas estão presos em Balaghat há mais de dois meses. Quando saíram do curso, se alojaram de favor no centro de meditação a convite dos donos. Lá, têm à disposição um quarto com duas camas, café da manhã e almoço, mas não podem sair de casa e nem adquirir máscaras protetoras. “Não estamos proibidos de nada, mas não queremos desagradar quem nos estendeu a mão, e os donos pedem para que nós fiquemos em casa. Seguimos o protocolo deles, com alimentação e rotina completamente limitadas”, explica Gabriel. “Mas sou grato porque eles me salvaram”, garante, “porque nenhum hotel estava recebendo turistas mais. Tivemos sorte".

Quando fala em “sorte”, Catarino compara sua situação à de outra centena de brasileiros que ficaram presos na Índia com o lockdown, segundo aponta o grupo do WhatsApp onde se reuniram. Pessoas com trabalhos temporários, moradores há mais tempo que querem retornar e turistas que foram despejados de hotéis e precisaram procurar abrigo com locais. Espalhados por Nova Delhi, Calcutá e Mumbai, a maioria voltou ao Brasil em um voo fretado pelo Itamaraty no dia 14 de abril, que repatriou 329 brasileiros do Nepal e da Índia sob o custo de 889.000 dólares, segundo o próprio Ministério das Relações Exteriores. “Não sabemos por qual motivo não fomos selecionados. Só ficamos sabendo do voo por meio de outros brasileiros”, afirmou ele.

Em resposta à reportagem, o Itamaraty afirmou que o critério tem sido repatriar "nacionais residentes no Brasil e os migrantes em situação de severo desvalimento financeiro ou com condições graves de saúde que demandem seu retorno”. A reclamação dos que ficaram, segundo Gabriel, é de que os recursos estão cada vez mais escassos para quem perdeu a passagem de volta e está precisando esticar a estadia. O brasileiro também conta que, após o primeiro voo, foi oferecido pela Embaixada brasileira na Índia um “encaixe diplomático” no voo de repatriação de outro país, mas cobrando a passagem de volta, que sairia no valor “inflacionado” de 2.000 dólares. O voo de 14 de abril não custou nada aos passageiros. “Não temos condição de pagar”, adianta ele. “Nossa luta é por um segundo voo de repatriação, custeado pelo Governo”.

No momento, a chance não é das maiores. Sobre a situação da Índia, o Itamaraty deixa claro que não está previsto um novo fretamento para a região, “embora a situação seja constantemente reavaliada à luz dos acontecimentos”. O MRE diz, no entanto, que está prestando o apoio possível aos brasileiros presos na quarentena indiana, com o apoio da Embaixada do Brasil em Nova Delhi e o Consulado em Mumbai. “Há que ressaltar que as dimensões continentais daquele país e as severas restrições de movimentação interna prejudicam consideravelmente a capacidade de ação das representações brasileiras”, informa o Ministério.

Douglas Cirqueira e Gabriel Catarino no centro de meditação de Balaghat.
Douglas Cirqueira e Gabriel Catarino no centro de meditação de Balaghat.Arquivo pessoal

Uma olhada pelas redes sociais do Itamaraty deixa claro que a situação de Gabriel não é a única. Em comentários da página no Instagram e respostas a tweets onde o órgão informa medidas de repatriação, são vários brasileiros reclamando da falta de auxílio no Peru, México, Espanha, Itália, Irlanda, Tailândia, Síria e outros. De acordo com os números do Itamaraty, já foram repatriados 21.818 brasileiros desde o início da pandemia, e ainda faltariam aproximadamente 4.600 pessoas ao redor do mundo. O Ministério não especifica o número por país e nem informa qual o país com mais brasileiros esperando. A conta oficial responde às reclamações com atenção, mas traz uma recomendação padrão: manter contato com as representações brasileiras e acompanhar as publicações em seus sites e mídias sociais.

As respostas automáticas são as mesmas que Catarino recebe quando tenta contato através da Internet. Com os vistos dele e de Douglas cancelados e os pedidos de extensão negados por conta da quarentena, não resta alternativa que não seja um acordo diplomático entre países. Até o prefeito de Osasco, cidade de Gabriel, interveio pedindo ações humanitárias, mas sem resultado até aqui. A quarentena da Índia foi estendida nesta semana até o dia 31 de maio. “A Embaixada fala há dois meses que busca uma alternativa e ninguém menciona sequer um auxílio financeiro. Nossa situação é precária e sem previsão para acabar”.

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