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IDEIAS COLUNA i

A pele branca e o mito da paz racial na América Latina

É um mito que na América Latina a questão racial seja menos sangrenta do que na parte anglo-saxã do continente

Simpatizantes de Evo Morales em La Paz em 14 de novembro.
Simpatizantes de Evo Morales em La Paz em 14 de novembro. GETTY IMAGES

Em uma imagem, como em um texto, é quase tão importante o que aparece quanto o que não aparece. Um exemplo? Qualquer imagem da Argentina. Vamos olhar. E formular uma pergunta elementar: onde estão os negros? Porque a Argentina teve muitos escravos de procedência africana. De acordo com o censo de 1778, de 24.363 habitantes (os indígenas não eram contados), um terço era de negros e pardos. No Exército do Norte comandado pelo general José de San Martín, 60% da tropa era negra. Em meados do século XIX, entre 800.000 habitantes, pouco mais de 100.000 eram pardos e somente 20.000 eram negros. Posteriormente foram desaparecendo, sem que as causas sejam bem conhecidas, ainda que seja possível intuí-las: foram utilizados sistematicamente como carne de canhão na primeira linha de batalha, foram mantidos na pobreza e na insalubridade, foram empurrados ao branqueamento da pele através da mestiçagem.

Em relação às populações nativas, sofreram o extermínio na chamada Conquista do Deserto e sucessivas campanhas militares, como as do general Roca, e foram depois consumidas pela marginalização. Hoje, apenas 2% dos argentinos se consideram membros das etnias originárias.

A Argentina, dizíamos, é um simples exemplo de uma realidade continental. Sobre alguns elementos, como as denúncias de frei Bartolomé de las Casas contra a crueldade exercida sobre os nativos no começo do século XVI, e o fato de que muitos colonizadores espanhóis tiveram descendência com nativas, se construiu um peculiar mito segundo o qual na América Latina a questão racial seria menos sangrenta do que na América de colonização anglo-saxã. É, de fato, um mito.

A questão racial continua sendo um dos pontos fundamentais dos conflitos políticos, especialmente nos lugares em que são mais numerosos os membros de populações nativas e os descendentes de escravos. Jair Bolsonaro sabia que estava ganhando votos quando, após visitar uma comunidade quilombola em 2017, comentou jocoso que “o afrodescendente mais magro ali pesava sete arrobas” e que não serviam “para nada”. “Já não servem nem para procriar”, comentou, rindo.

A Bolívia é o único país latino-americano em que os povos nativos são maioria: 62% dos habitantes, de acordo com dados das Nações Unidas. Quem quiser captar a essência do conflito político e social que ameaça destruir o país deve levar muito em consideração esse fato. Seria bem engraçado escutar os argumentos do novo e espantosamente ilegítimo Governo (ilegitimidade que não justifica os desmandos cometidos por Evo Morales) sobre como são pagãos, selvagens e desprezíveis os índios com suas polleras (traje típico) e sua Pachamama, se não fosse pelo fato de que essas pessoas que assaltaram o poder com a Bíblia na mão encarnam o horror do supremacismo mais estúpido.

É difícil entender, a essas alturas, o prestígio de uma pele branca. O caso é que esse prestígio se mantém. O caso é que todas as oligarquias dessa parte do mundo (caudilhos e burocratas da revolução) veneram a pele branca e a origem europeia de antepassados tão famélicos e desesperados como qualquer imigrante. O caso é que as coisas não têm solução razoável se esse delírio da raça não for superado previamente.

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