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Aulas para concurso de polícia ensinam técnicas de tortura e execução

Ex-capitão da PM de SP e professor de Direito, Norberto Florindo Júnior explica: "Vai socorrer?! Com esta mão você tampa o nariz e com esta, a boca"

Norberto Florindo Filho ensina práticas de tortura e execução para concurseiros .
Norberto Florindo Filho ensina práticas de tortura e execução para concurseiros .

“Bandido ferido é inadmissível chegar vivo ao pronto-socorro. Só se você for um policial de merda. Você vai socorrer o bandido, como?! Com esta mão, você vai tampar o nariz e, com esta, a boca. É assim que você socorre um bandido”. Assim explica Norberto Florindo Júnior, ex-capitão da Polícia Militar do Estado de São Paulo e advogado, em vídeo no qual ensina métodos de tortura e execução no curso da AlfaCon para pessoas que prestam concursos da PM.

“Eu prestei uns 100 socorros, eu nunca perdi um paciente [risos]. Todos que socorri chegaram mortos, todos. Nunca prevariquei”, continua o professor, que, além de execução, também dá aula de como se torturar pessoas. “Não tenho dó e torturo até umas horas. E digo mais: para falar em tortura, fala na hora. Tortura não demora, isso de DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna, que na ditadura militar era o local para torturar presos políticos). ‘Fiquei 15 dias sendo torturado’. Não existe isso! Tortura é pontual, curto, direto e reto”, prossegue o professor na vídeo-aula. O curso é voltado para pessoas que pretendem seguir a carreira na PM.

Norberto é didático e performático. Relembra seu passado no policiamento ostensivo como forma de exemplificar a prática da tortura. “Nada como uma tortura bem aplicada para saber onde está [a droga]. Se você não tortura, deixa comigo, eu faço, tenho problema nenhum. Consciência livre, leve e eu sou bom nesse troço, hein?!. Nossa!”, diz, antes de relembrar seu passado nas ruas.

“Quando eu fui trabalhar no policiamento da rua, que eu torturava os caras, nem os policias [sic] acreditava:

— Chefe, você já fazia isso antes?

— Não.

— Você leva jeito.

— Você acha? Deve ser alguma coisa de reencarnação, então, não sei.

Não tenho dó e torturo até umas horas”, continua o professor.

O professor de candidatos a concurso para ingressar na Polícia Militar ainda se vangloria em outra gravação, quando um de seus colegas de trabalho o aponta como o primeiro policial a entrar na Casa de Detenção do Carandiru, em São Paulo, no dia 2 de outubro de 1992. Naquele dia, 111 presos foram assassinados no que ficou conhecido como massacre do Carandiru. No entanto, o nome de Norberto não consta na lista de PMs paulistas processados pela chacina.

Suas aulas apresentam mais cenas de exaltação da letalidade policial. “E matar então? [risos] Falo para o pessoal: não sou o melhor professor de Direito da AlfaCon, mas sou o que tem mais homicídio nessa porra aqui”, diz, quando se pode ouvir risos ao fundo em palestra dada em Minas Gerais. “São 28 [homicídios] assinados, um embaixo do outro, mais uns 30 que não assinei [risos]. Vai se foder, já prescreveu tudo! Foda-se, não estou nem aí”, comemora, depois citando que atuou em cursos de formação de soldados, de formação de sargentos, na Academia do Barro Branco e na Corregedoria da Polícia Militar do Estado de São Paulo.

O capitão aposentado da PM paulista atuou como professor de direito na escola da Polícia Militar do Estado de São Paulo, conforme documentos obtidos pela Ponte. Norberto processou o Estado de São Paulo em 2012 solicitando seu encaminhamento para a reserva da PM por “problemas psiquiátricos” causados pelo trabalho. No entanto, a Justiça de São Paulo negou seu pedido.

Norberto respondeu a processo interno na corporação por uso de cocaína no alojamento da Diretoria de Ensino da PM. À época, ele dava aulas de Direito aos militares. Em condenação de um ano e seis meses de reclusão em regime aberto, o juiz do TJM (Tribunal de Justiça Militar) Clovis Santinon condenou a atitude de Florindo.

“É de se destacar que o apelante [Norberto] é capitão PM e, como tal, não há como negar que é o elo entre a tropa e o comando da corporação. Sua conduta é, portanto, rigorosamente observada por oficiais em início de carreira e também por praças”, critica Santinon. “Seu proceder deve servir de arquétipo para seus pares […] tinha plena consciência tanto da ilicitude de sua conduta delituosa quanto da repercussão negativa de sua conduta na tropa”, afirma.

A Ponte entrou em contato com Norberto através de seu perfil no Facebook para solicitar entrevista e posicionamento sobre os conteúdos de seus vídeos, mas não obteve resposta até o momento. Ainda questionou a AlfaCon, escola de concursos, sobre os vídeos feitos pelo seu professor, e aguarda um posicionamento oficial do portal de serviços educacionais, como se definem. A escola informou que pediria autorização ao professor para repassar o seu contato, o que não aconteceu até a publicação desta reportagem.

A reportagem também questionou a SSP (Secretaria da Segurança Pública) de São Paulo, comandada pelo general João Camilo Pires de Campos neste governo de João Doria, e a PM, liderada pelo comandante Marcelo Vieira Salles, sobre as faltas de Norberto à época em que era PM. Pasta e corporação não se posicionaram até o momento.

Em resposta à solicitação da Ponte, a OAB nacional, na qual Norberto Florindo Júnior aparece como associado pelo estado de São Paulo, explicou, por e-mail, que “não comenta casos concretos, seguindo normas do Código de Ética e Disciplina”. A OAB-SP não se posicionou até o momento.

Outro lado da AlfaCon

O AlfaCon Concursos Públicos divulgou em seu site a seguinte nota, publicada em 25 de outubro:

"Em respeito aos alunos e a todos que se manifestaram sobre vídeos que circularam essa semana com declarações de um professor durante aula, o AlfaCon vem esclarecer que:

– Respeita a liberdade de cátedra e de ensinar de todos os seus professores, direitos constitucionalmente garantidos, motivo pelo qual não censura previamente o que é dito em sala de aula;

– No entanto, o que é falado por seus professores não reflete, necessariamente, a opinião do AlfaCon;

– Os direitos acima mencionados, contudo, também possuem limites e quando eles são ultrapassados por algum de seus professores ou colaboradores, o curso não pode se manter silente;

– Diante disso, esclarece que não compactua e repudia qualquer tipo de violência, independente do grupo que seja dirigida;

– Por essa razão, após receber relato do ocorrido, o curso informa que analisou os vídeos, bem como outras aulas ministradas pelo professor, e decidiu removê-las de sua plataforma;

– Outras medidas também estão sendo estudadas;

Com isso, o curso reforça o seu compromisso em levar conteúdo de qualidade a todos os seus alunos de modo a proporcionar o necessário para sua aprovação nos mais concorridos concursos públicos do país."

Esta reportagem foi publicada originalmente no site Ponte Jornalismo em 24 de outubro de 2019.

Errata

O texto corrigido para explicar a condição de Noberto como ex-PM, e não PM da reserva, após confirmada sua demissão da tropa em 2009.

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