Argentina apela ao FMI e credores por mais tempo para pagar a dívida

Crise asfixia Governo de Mauricio Macri depois de uma nova jornada terrível para a moeda argentina

Hernán Lacunza, ministro da Economia argentino.
Hernán Lacunza, ministro da Economia argentino.A. MARCARIÁN (REUTERS)
Enric González
Buenos Aires -

A Argentina chegou ao limite. O ministro de Fazenda, Hernán Lacunza, pediu na tarde desta quarta-feira ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e a todos seus credores privados um adiamento no pagamento das parcelas da dívida, tanto em pesos quanto em dólares, por “dificuldades de liquidez”. Foi o arremate de uma nova jornada de caos no país, com a cidade de Buenos Aires bloqueada por manifestações e fortes turbulências nos mercados financeiros. Com o dólar acima de 60 pesos, o Banco Central viu-se obrigado a adotar medidas de emergência para frear a depreciação da moeda: restringiu o financiamento em pesos às grandes empresas exportadoras, para forçá-las a vender divisas.

A notícia deve repercutir no mercado brasileiro e na cotação do real frente ao dólar. "Isso deve trazer mais pressão sobre o real que, a despeito das medidas do Banco Central brasileiro —e também por conta delas também— seguiu em alta hoje fechando a 4,169 reais", escreveu a clientes o analista André Perfeito, da corretora Necton.

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Lacunza disse que a Argentina continuava sendo solvente, mas reconheceu que não tinha dinheiro em caixa. “A maior tensão política e econômica” desde as eleições primárias, nas quais o candidato peronista Alberto Fernández venceu com folga, “afetou a estabilidade cambial”, disse o ministro. A partir desse momento, a taxa de renovação da dívida, que rondava os 78%, “caiu abruptamente para níveis abaixo de 10%, evidenciando a falta de interesse dos investidores”, disse o ministro. Hernán Lacunza anunciou o envio ao Congresso de um projeto de lei destinado a promover prorrogações voluntárias dos vencimentos em dívida local e garantiu que todas essas medidas afetariam apenas os credores institucionais e não os pequenos poupadores, que receberiam na data prevista e sem descontos.

O pedido de ajuda feito pelo Governo argentino foi resultado de uma dupla crise, política e econômica. Desde a dura derrota do Governo nas eleições primárias, sem outro valor que o meramente indicativo, se deu como quase certo que o próximo presidente seria o peronista Alberto Fernández. Isso deixou Mauricio Macri em uma situação muito desconfortável. Não existe vácuo de poder porque Macri ainda está lá, mas é muito perceptível a impotência do Governo diante de uma situação angustiante e de múltiplas facetas. À crispação daqueles que se horrorizam com o retorno do kirchnerismo e às dificuldades gerais dos cidadãos, angustiados com a inflação galopante (novamente acima de 50% ao ano) e com o desemprego acima de 10%, se juntam a falta de confiança dos investidores e a sensação generalizada de que no futuro próximo as coisas só podem piorar.

As organizações sociais forjadas durante o colapso de 2001 e 2002 tomaram Buenos Aires desde o início da manhã, com várias manifestações de massa que bloquearam os acessos à cidade e colapsaram o centro da cidade. Foi uma demonstração de força com uma exigência central: que o Governo estabeleça “medidas urgentes contra a fome”, pois um terço dos argentinos vive na pobreza. As manifestações também podem ser interpretadas como a resposta do kirchnerismo às grandes manifestações de sábado em apoio a Macri.

O caos urbano foi uma espécie de metáfora da situação geral. Nos mercados financeiros propagou-se a suspeita, confirmada nas primeiras horas da noite, de que não era possível cumprir os compromissos com o Fundo Monetário Internacional. O risco-país (o sobrepreço que teria de ser pago por um empréstimo se a Argentina tivesse acesso aos mercados) subiu até 2.118 pontos, nível semelhante ao registrado quando o país começou a emergir da catástrofe de 2001 e 2002.

Em plena incerteza, o dólar voltou a se tornar um refúgio. Embora o Banco Central tenha feito quatro leilões de dólares e adotado uma medida extraordinária e mais própria do intervencionismo peronista do que do liberalismo macrista, de estrangular o financiamento em pesos às grandes empresas exportadoras para obrigá-las a conseguir liquidez com a venda de divisas, o peso se desvalorizou outros 2,5%. Desde o começo do ano, a desvalorização já chega a 53%. Isso se traduz em inflação e torna as importações proibitivas.

O Governo e a oposição romperam a trégua da semana passada e se acusam mutuamente de promover o pânico. Ambos provavelmente têm sua parte de razão. Se o candidato peronista à presidência, Alberto Fernández, fez duras declarações na terça-feira contra o programa de austeridade acordado entre o FMI e o Governo, com efeitos desestabilizadores, o candidato macrista a vice-presidente, o peronista trânsfuga Miguel Pichetto, acusou na quarta-feira colaboradores de Fernández (sem dar nomes ou provas) de pedir que o FMI interrompesse o desembolso do empréstimo, com efeitos igualmente desestabilizadores.

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