Moro se esquiva e não responde se PF investiga jornalista do ‘The Intercept’ após vazamentos

Ministro da Justiça foi ouvido por deputados para explicar as conversas entre integrantes da Lava Jato publicadas pelo site. Segundo 'O Antagonista', polícia solicitou relatório de transações de Glenn Greenwald

Clique para acompanhar ao vivo a transmissão da audiência pública na CCJ da Câmara com o ministro Sergio Moro.TV Câmara ao vivoundefined
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Se há duas semanas em audiência no Senado Federal o ministro da Justiça, Sergio Moro, acabou blindado e trouxe à tona o seu lado mais político, na Câmara nesta terça-feira ele foi submetido a um teste de resistência física e psicológica, com longos debates e bate-bocas, sem a proteção do Governo que representa. Respondendo aos questionamentos dos deputados por mais de sete horas a respeito das mensagens trocadas com procuradores quando era juiz da Operação Lava Jato, o principal fato envolvendo o ministro, contudo, ficou sem resposta. Opositores do Governo Jair Bolsonaro questionaram diversas vezes se a Polícia Federal teria pedido para o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF) monitorar as movimentações de Glenn Greenwald, jornalista e fundador do site The Intercept Brasil, o veículo que vem publicando os diálogos de Moro vazados por uma fonte anônima. O ex-juiz da Lava Jato  —que admite ter trocado mensagens com os procuradores, mas contesta o conteúdo dizendo que ele é passível de adulteração— saiu pela tangente e não disse nem que sim nem que não. “A Polícia Federal tem absoluta autonomia. Eu não interfiro nessas investigações específicas. Essa indagação que foi feita aqui tem de ser realizada... Não é o caso, para mim. Eu não participo dessas investigações específicas”.

Pela legislação brasileira, a PF é vinculada ao Ministério da Justiça e Segurança Pública. Ou seja, é Moro que nomeia o mais alto comando dos policiais federais. Desde que o The Intercept passou a noticiar as trocas de mensagens, a PF abriu um inquérito para apurar se houve um ataque hacker aos celulares deles —enquanto seus críticos dizem que ele deveria se afastar do cargo, já que tem interesse direto no caso. A notícia de que Glenn Greenwald está entre os alvos do inquérito foi publicada pelo site O Antagonista. Questionados pelo EL PAÍS, nem a Polícia Federal nem o Ministério da Economia, a quem o COAF é subordinado, responderam se a investigação ocorre, de fato.

Segundo O Antagonista, a polícia quer saber se há algum indício de que Greenwald teria encomendado a invasão dos celulares dos procuradores. Pelo Twitter, Greenwald reclamou da conduta de Moro, e disse que não deixará de trabalhar. “Você, @SF_Moro, vai e ‘investiga’ tudo o que quiser. Grupos de liberdade de imprensa em todo o mundo terão muito a dizer sobre isso. Enquanto você usa táticas tirânicas, eu continuarei reportando junto com muitos outros jornalistas de muitos outros jornais e revistas”. Em nota, a Fundação Pela Liberdade de Imprensa, pediu que o Governo brasileiro suspendesse imediatamente "suas táticas de intimidação" contra o jornalista. “Investigar criminalmente o jornalista Glenn Greenwald por reportar sobre corrupção dentro do Governo Bolsonaro é uma violação chocante de seus direitos como repórter”, diz trecho do documento.

Escolinha do professor Raimundo

A sessão foi encerrada depois de um bate-boca generalizado iniciado depois que, em seu discurso, o deputado Glauber Braga (PSOL-RJ) chamou Moro de “juiz ladrão”. “O senhor vai estar nos livros da história, como um juiz que se corrompeu, como um juiz ladrão”. Deputados dos dois lados trocaram empurrões e xingamentos. O ministro foi retirado do plenário pelos governistas. Enquanto saía, os opositores o chamavam de “fujão” e “ladrão”. Em alguns momentos a confusão era tamanha que o deputado Felipe Francischini (PSL-PR), que presidiu parte da sessão, disse que o plenário parecia a “escolinha do professor Raimundo”, em alusão ao programa de TV em que o humorista Chico Anysio (1931-2012) interpretava um professor.

No mais, a audiência com o ministro parecia uma repetição da que ocorreu no Senado. As respostas dele foram bem parecidas. Insistia em alguns pilares, em todo momento. Eis alguns de seus mantras: 1) “O que existe é uma invasão criminosa de hackers”; 2) “Não está demonstrada autenticidade dessas mensagens”; 3) “Não reconheço a autenticidade. Pode ter algumas mensagens que eu possa ter mandado”; 4) “Sempre agi com base na lei.” e; 5) “Minha preocupação é que o objetivo principal seja evitar o prosseguimento das investigações”.

Como na Câmara, a oposição é mais numerosa do que no Senado e a base governista é menos articulada, houve mais confusão e provocações. Ao menos 131 deputados se inscreveram para questionar o ministro, que reagiu quando foi provocado. Em um dos momentos, respondeu à deputada Gleisi Hoffmann (PT-PR) que ele não estava sendo investigado por corrupção.

Em outra ocasião, disse que além do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), outros condenados pela Lava Jato deveriam também ter seus defensores. “Se ouve muito da anulação do processo do ex-presidente [Lula], tem que se perguntar então quem defende Sérgio Cabral, Eduardo Cunha, Renato Duque, todos estes inocentes que teriam sido condenados, segundo este site de notícias”, afirmou. E completou: “Precisamos de defensores destas pessoas. Que elas sejam colocadas imediatamente em liberdade já que foram condenadas pelos malvados procuradores da Lava Jato, pelos desonestos policiais e pelo juiz parcial”.

Ao contrário do Senado, Moro demonstrou irritação em diversas ocasiões. Enquanto alguns opositores o questionavam, raramente olhava para seus inquiridores. Conversava com deputados que se aproximavam e mirava o cronômetro que calcula o tempo do orador. Ao longo da sessão, ele tentou tratar com normalidade o fato de juiz conversar com as partes do processo. Não respondeu, porém, se concedeu aos advogados de investigados o mesmo tratamento dado aos procuradores da Lava Jato, conforme revelado pelo The Intercept.

Do lado dos governistas, apenas discursos de apoio, mas sem uma blindagem comum nesses casos. Alguns o chamavam de mito, de herói e houve um, o deputado Boca Aberta (PROS-PR), que lhe entregou um troféu semelhante ao dado na Champions League, o torneio de clubes de futebol europeu. Sem uma base organizada no Legislativo, os parcos aliados de Bolsonaro não conseguiram reduzir o número de inscritos para discursar. Se não fosse a confusão originada pelo opositor Braga que resultou no fim da sessão, a inquirição se seguiria ao longo da madrugada porque dos 131 oradores, menos da metade havia se manifestado.

Assim contamos em tempo real a audiência com Sergio Moro na Câmara:

Afonso Benites

Mudança, de novo. Moro não está mais na Câmara. E a deputada Marcivânia, que presidia a sessão, encerrou a audiência em definitivo.

Afonso Benites
Afonso Benites

A confusão não acabou. Agora, deputados pedem para a sessão ser reiniciada. "Eu pensava que o ministro tinha ido embora, ele não foi", disse a deputada professora Marcivânia, que presidia a sessão no momento do bate-boca.

Afonso Benites
Afonso Benites

O bate-boca foi a senha para o fim da sessão. O ministro Moro foi retirado do plenário pelos governistas. Opositores começam a chamá-lo de "fujão" e "ladrão".

Afonso Benites
Afonso Benites

Deputados pedem o fim da sessão.

Afonso Benites
Afonso Benites

A bagunça impera no plenário depois que Glauber Braga (PSOL-RJ) chama Moro de ladrão. “A história não absolverá o senhor. Da história o senhor não pode se esconder. O senhor vai estar nos livros da história, como um juiz que se corrompeu como um juiz ladrão”. Ocorre um bate-boca generalizado.

Afonso Benites
Afonso Benites

Em discurso inflamado, o histriônico deputado Boca Aberta (PROS-PR) entrega um troféu similar ao da Champions League ao ministro Moro como "exemplo de conduta". Chama petistas de corruptos e diz que o marido de Gleisi Hoffmann está envolvido até o "fiofó" com corrupção. 

"A tal da Gleisi Hoffmann, atolada até o pescoço da Lava Jato sendo investigada, o marido, atolado até o fiofó, roubando o dinheiro do povo. Ter de vir aqui, escutar ela pregar como a rainha de São Petesburgo da moralidade, dos bons costumes, da ética, da lisura. A senhora não tem moral para vir falar do Sergio Moro", disparou Boca Aberta.

A petista e o marido dela, o ex-ministro do Planejamento Paulo Bernardo, foram absolvidos em junho do ano passado das acusações de corrupção e lavagem de dinheiro. O Supremo Tribunal Federal entendeu que não havia provas para sustentar a acusação de que eles receberam 1 milhão de reais desviados da Petrobras, conforme sustentava o Ministério Público Federal.

No momento em que foi citada por Boca Aberta, a deputada não estava no plenário. Quem saiu em defesa dela, foi o líder do PT, Paulo Pimenta, que chamou o colega de "covarde".

Afonso Benites
Afonso Benites

Após quase 15 minutos de intervalo, é retomada a sessão.

Afonso Benites
Afonso Benites

O ministro trata os vazamentos como “uma questão político-patidária”, como todo o “sensacionalismo”. “Quando se reflete melhor com o que está sendo divulgado, é um balão vazio”.

Afonso Benites
Afonso Benites

Questionado pela deputada Gleisi Hofmann (PT-PR) se teria contas no exterior, Sergio Moro nega. “Conta no exterior é maluquice. Nunca recebi dinheiro no exterior. Sempre agi com correção. Não existe nada. Não sou eu quem sou investigado por corrupção”.

Afonso Benites
Afonso Benites

O ministro Moro afirma que o The Intercept queria se tornar um mártir da imprensa e que se tornassem alvo de um mandado de busca e apreensão. “O que apareceu em três semanas? Um balão vazio cheio de nada. Minha impressão era que houvesse um mandado de busca e apreensão para que se tornasse um mártir da imprensa”

Afonso Benites
Afonso Benites

"Chegamos a um ponto da reunião que as perguntas começam a se repetir e a falta de respeito começa a preponderar”, diz Felipe Francischini, presidente da CCJ

Afonso Benites
Afonso Benites

Sergio Moro começa a demonstrar irritação ao responder as mesmas perguntas. Diz, por exemplo, que há um teatro na tentativa dos opositores de dizer que é possível acessar as mensagens no Telegram. Segundo ele, os dados somem da nuvem em seis meses após o aplicativo ser apagado e, no caso dele, o programa foi deletado de seu celular em 2017.

Afonso Benites
Afonso Benites

Diz Sergio Moro: “Não há nenhuma dúvida de que foi um ataque hacker. É uma fantasia afirmar que não existe esse ataque”.

Afonso Benites
Afonso Benites

Depois de quase quatro horas de audiência, 29 deputados questionaram o ministro. Faltam 102 inscritos.

Afonso Benites
Afonso Benites

Enquanto opositores o questionam, Moro raramente olha para seus inquiridores. Olha para o lado, conversa com deputados que se aproximam e mira o cronômetro que calcula o tempo do orador. Líder da oposição, Jandira Feghali (PCdoB), reclama da falta de atenção do ministro.

Afonso Benites
Afonso Benites

O ministro reclama dos ataques que têm sofrido. “Existe aí muito revanchismo. Eu tenho certeza de que se durante a condução da operação Lava Jato eu tivesse deixado a corrupção florescer, virado os olhos para o outro lado, eu não sofreria os ataques como sofro atualmente. Tenho certeza de que isso não aconteceria”

Afonso Benites
Afonso Benites

Sergio Moro diz que só aceitou o convite para o ministério da Justiça após o resultado do segundo turno. Chamou quem trata do assunto de reciclagem de notícia velha. Segundo ele, após o resultado do primeiro turno, ele foi sondado por Paulo Guedes se assumiria um cargo em um eventual governo Bolsonaro. Mas que só foi convidado, de fato, após a vitória eleitoral. “Depois das eleições eu aceitei. Falei isso reiteradamente”

Afonso Benites
Afonso Benites

Questionado diversas vezes se a Polícia Federal teria pedido para o COAF monitorar as movimentações do jornalista Glenn Greenwald, como alguns órgãos de imprensa noticiaram hoje, Moro resolveu responder. “As perguntas não têm de ser feitas a mim. Não participo das investigações específicas”

Afonso Benites
Afonso Benites

A sessão vira uma troca de acusações e gritaria. Já foram cinco concessões de direitos de defesa. E nada de questionamentos a Moro.

Afonso Benites
Afonso Benites

Outra provocação de Barros. Ele cita uma lista de cinco apelidos de políticos petistas citados na lista da Odebrecht. São eles:

- Montanha - Paulo Pimenta

- Solução - Maria do Rosário

- Pescador - Zeca do PT

- Guarulhos - Carloz Zarattini

- Amante - Gleisi Hoffmann

Afonso Benites

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