Eleições na Argentina

Com Macri e Cristina acuados, campanha eleitoral argentina se peroniza

Analistas políticos destacam que pragmatismo se impõe à ideologia nas alianças encabeçadas por Macri e Fernández

Alberto Fernández e Cristina Fernández de Kirchner.
Alberto Fernández e Cristina Fernández de Kirchner. (AFP)

Nem Mauricio Macri nem Cristina Fernández de Kirchner, os dois opostos que hoje captam toda a atenção política na Argentina, teriam apoio suficiente para vencer sozinhos. Sua fraqueza –no primeiro caso, pela crise econômica e no segundo, pelos casos judiciais de corrupção– resultou em alianças impensáveis meses atrás. Primeiro, Cristina Kirchner surpreendeu ao anunciar que estava concorrendo como vice-presidente de Alberto Fernández, que, antes da reconciliação, tinha passado de ex-chefe de Gabinete de seu Governo a um de seus maiores críticos. Nesta quarta-feira, Macri deu uma cartada ousada quando escolheu como segundo o peronista Miguel Ángel Pichetto, a espada do kirchnerismo no Senado antes de se afastar rumo a um peronismo moderado. "O pragmatismo se impôs a posições ideológicas mais rígidas", analisa Eduardo Fidanza, diretor da consultoria Poliarquía. O peronismo monopoliza novamente a agenda política argentina.

Fidanza e outros analistas consultados por EL PAÍS concordam em que, na disputa pelo centro político, os dois grandes blocos asfixiam a terceira via e põem em evidência a força do peronismo. A fratura que marcou a política argentina na última década aproxima seus polos. "Os dois espaços, tendo em vista o fato de não conseguirem se consolidar, correm um pouco para o centro", resume Mariel Fornoni, diretora da consultoria Management & Fit. "Assim como Cristina diz ‘não somos tão anormais’, Macri com Pichetto diz ‘não somos tão ingênuos’ e fazemos o que tem de ser feito para ganhar ", comenta Jorge Giacobbe, diretor da Giacobbe e Associados.

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Depois de meses de polarizar a discussão política entre peronismo e não peronismo, Macri concordou em fazer uma concessão e pactuar com Pichetto, que, embora tenha defendido as posições do kirchnerismo durante 13 anos, representa a ala mais conservadora do peronismo. O veterano senador garante a governabilidade em um potencial segundo mandato. "Macri sozinho, fechado em si mesmo, sem maioria nas câmeras [do Congresso] não poderia, se vencer, discutir reformas importantes, como a fiscal e a tributária", diz Fornoni.

"Do jeito como as chapas foram definidas, o que segue em pé é a vigência do peronismo. De quatro nomes, três são peronistas e faltam outros protagonistas que também são, como Juan Schiaretti, [Roberto] Lavagna e [Juan Manuel] Urtubey", enfatiza Fidanza sobre a onipresença desse movimento na política argentina. Além do mais, a falta de alternativas reduz a possibilidade de que Macri perca o eleitor mais antiperonista, segundo Fornoni. "Para tentar se justificar dirão que, para não votar em Cristina, votam em Macri, que preferem um peronista que parece um republicano do que um kirchnerista”.

Lavagna e Urtubey disputarão juntos as eleições, como candidatos a presidente e vice-presidente. Sua chapa parece minoritária, mas será fundamental no caso de um empate virtual entre Macri e o kirchnerismo no primeiro turno. Mais determinante, no entanto, será a economia. "Uma parte importante do eleitorado vai votar por razões econômicas, o que representa um grande desafio para o Governo porque há grande descontentamento. Por isso vão ser tomadas medidas para incentivar o consumo e ver se assim recuperam intenções de voto.”

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