Seleção Brasileira

Arthur, o xodó de Messi que organiza o meio-campo da seleção de Tite

Criado pelo Grêmio, o goiano de 22 anos chama a atenção pela capacidade de armar o jogo desde adolescente e, após uma temporada no Barcelona, é elogiado pelo argentino

Arthur em sua estreia pela seleção, contra os Estados Unidos.
Arthur em sua estreia pela seleção, contra os Estados Unidos.Lucas Figueiredo (CBF)

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Arthur, você é nível Barcelona! Você é Xavi, você é Iniesta!”. Em se tratando de um meio-campo que defende a equipe catalã há uma temporada, o elogio parece atual, mas é de 2014. Na época, quando defendia a equipe sub-20 do Grêmio, Arthur já encantava seu treinador, André Jardine – autor dos incentivos e hoje técnico da seleção brasileira de base – pela qualidade do seu passe e pela importância na manutenção da posse de bola da equipe, características que lembravam o estilo de jogo do Barça eternizado pela dupla de meias espanhóis. Pelo Grêmio, o volante se tornou titular em 2017, mesmo ano em que ganhou a Libertadores e foi eleito o melhor jogador do torneio. Em junho de 2018, cumprindo a profecia de Jardine, ele desembarcou na Espanha como novo jogador do Barcelona. Desde que vestiu a camisa blaugrana, com a qual provou para os europeus ter o “DNA Barça” e rendeu elogios até de Messi – “me lembra o Xavi” –, Arthur esteve em todas as convocações para amistosos do Brasil e se tornou peça-chave, mesmo com somente 22 anos, para o meio-campo de Tite na Copa América 2019.

“Ele tem, mesmo, um pouco de Iniesta e um pouco de Xavi. Mas, se fosse para escolher um dos dois, ele tá mais para Xavi”, opina Guila Bossle, treinador da equipe sub-19 do Grêmio, concordando com Messi. Bossle foi auxiliar técnico da equipe de aspirantes gremista entre 2015 e 2016, quando trabalhou com Arthur. O atleta, mesmo com 19 anos, já fazia parte da categoria sub-23. Era a última etapa da formação do jogador antes de chegar à equipe profissional, onde ele encontrou o treinador Renato Gaúcho. “Ele é um jogador moderno. Clareia o jogo quando as coisas estão difíceis em campo”, completa Renato.

Arthur tem essa qualidade desde a pré-adolescência. Vindo de Goiânia, ele se mudou com o pai para Porto Alegre para ingressar na equipe sub-14 do Grêmio, onde chegou a enfrentar Guila Bossle, então treinador desta categoria no Juventude de Caxias do Sul. “Tudo que ele faz hoje ele já fazia com 14 anos. Sempre me dava problemas; eu mandava dois marcarem ele, mas ele fugia muito fácil. Depois, foi uma honra trabalhar a seu favor”, admite o treinador. Bossle revela que o clube sempre teve uma expectativa alta em cima da promessa, graças ao seu “entendimento de jogo avançado e comprometimento com o trabalho”. Não à toa, Arthur, com 19 anos, já treinava com a equipe profissional e fazia parte do time de aspirantes.

Como auxiliar dos aspirantes, Bossle viu Arthur aprender nos treinos com os treinadores Roger Machado, Renato Gaúcho e todo o time tricolor principal e, quando não era relacionado para partidas no profissional, descer para manter o ritmo de jogo com os mais jovens no sub-23. Foi assim durante 2015 e 2016, quando o volante jogou apenas duas vezes na equipe de Renato; 45 minutos na derrota contra o Aimoré por 2 a 1, em fevereiro de 2015, pelo campeonato gaúcho, e mais 36 minutos na derrota por 1 a 0 contra o Botafogo, na última rodada do Brasileirão de 2016. Arthur só foi vencer pela primeira vez vestindo a camisa gremista em seu quinto jogo profissional, já em fevereiro de 2017. Nos meses seguintes, explodiu. Tornou-se titular, homem de confiança no meio-campo do Grêmio e terminou a temporada como campeão e melhor jogador da Libertadores. “O Renato soube a hora certa de usar ele e seu estilo de jogo casou completamente com o time, que prezava pela posse de bola”, elogia Bossle.

Foram as características de Arthur que colocaram o Barça como destino certo do jovem jogador. Lesionado na final da Libertadores, o volante foi desfalque do Grêmio no Mundial de Clubes, quando os gaúchos perderam a final para o Real Madrid. Seis meses depois, figurou na lista brasileira de suplentes para a Copa do Mundo e foi apresentado pelo Barcelona, que pagou 31 milhões de euros, em julho. Seu valor subiu imediatamente para 400 milhões de euros mesmo antes de Arthur começar a ser comparado pelos espanhóis a meio-campistas do nível de Guardiola, Xavi, Iniesta, Busquets e Thiago Alcântara: todos moldados pelas canteras do Barça. “Gosto muito dele”, revelou Messi apenas dois meses após a chegada do brasileiro. “Me surpreendeu e é muito seguro”.

Foram 44 jogos pelo Barcelona na temporada e um título espanhol. Uma lesão em fevereiro de 2019 fez com que Arthur perdesse alguns jogos e acabasse preterido por Vidal no time titular dos confrontos mais decisivos da temporada, como contra o Liverpool, mas nada que impedisse o meia de estar presente em todos os amistosos pós-Copa do Mundo da seleção. Jogou os oito jogos, cinco como titular. “Se eu fosse escolher, com certeza ele estaria no time titular [para a Copa América]”, afirma Guila Bossle. Para o treinador, ele se encaixa perfeitamente no trio de meias centrais que Tite normalmente escala. “Não tem a intensidade de um Paulinho, por exemplo, mas evoluiu muito na Europa jogando de segundo volante. E também pode substituir Casemiro, numa função mais de marcação”, diz Bossle.

Arthur concorre com Lucas Paquetá, Allan, Casemiro e Fernandinho pela vaga de titular na seleção. Pela temporada que fez, é favorito para começar jogando as próximas partidas da seleção, incluindo o último amistoso antes da estreia na Copa América, no dia 9 de junho, contra Honduras, no estádio Beira-Rio. A casa do Internacional, maior rival dos gremistas. É lá que Bossle planeja rever o pupilo. “Depois que ele foi para o Barcelona, nunca mais nos encontramos, apesar de sempre trocarmos ideias pelo direct do Instagram”. No calendário do torneio, a seleção visita São Paulo e Salvador na primeira fase, e voltaria a Porto Alegre nas quartas de final caso se classifique com a melhor campanha do grupo – desta vez, jogando na Arena do Grêmio. Um confronto que marcaria a volta de Arthur para o gramado onde surgiu para o futebol e foi campeão estadual, nacional e continental, mas agora com a projeção internacional de uma estrela para valer do Barcelona e da seleção brasileira. E somente com 22 anos.