Tendência radical de alguns ‘coletes amarelos’ mancha protesto na França

Gestos antissemitas, agressões à polícia e teorias da conspiração prejudicam a imagem do movimento

Policial tenta dispersar manifestantes na avenida Champs Elysées, em Paris
Policial tenta dispersar manifestantes na avenida Champs Elysées, em ParisClement Lanot (AP)

É impossível englobar numa ideologia coerente um movimento tão amplo e diverso quanto o dos 'coletes amarelos'. Mas nos últimos dias, à medida que eles perdiam poder de mobilização nas ruas, ficaram visíveis seus aspectos mais inquietantes.

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A última manifestação em Paris, neste sábado, 22, contou com cerca de 2.000 pessoas. E ficou manchada por gestos considerados antissemitas e por uma tentativa de agressão à polícia. Nem a violência nem os discursos radicais são novos. A diferença é que agora adquirem mais ressonância.

É como se nos escombros da revolta – e quando as concessões do Governo francês, a proximidade do Natal e o cansaço dos ativistas acalmam um pouco os ânimos – só um núcleo duro continuasse de pé. Os que clamam pela insurreição. Os que divulgaram teorias conspiratórias sobre o atentado jihadista em Estrasburgo de 11 de dezembro. E os que decapitam um boneco de Emmanuel Macron, como aconteceu na noite de sexta-feira em Angoulême, no oeste do país. As autoridades do departamento de Charente denunciaram os incidentes ao Ministério Público por serem um “ataque grave tanto à pessoa como à função do presidente da República”.

O risco para os 'coletes amarelos' é entrar numa fase de autodestruição que acabe tirando o apoio da opinião pública. A estratégia do Governo francês é se mostrar intransigente e reprimir os mais radicais, enquanto exibe vontade de diálogo e humildade em relação aos demais integrantes.

Desde 17 de novembro, os 'coletes amarelos' – que têm por emblema a veste fluorescente que todos os condutores devem levar no carro para casos de emergência – se manifestaram durante seis sábados consecutivos. O movimento começou se opondo ao novo imposto sobre os combustíveis. Mas logo se transformou num protesto que exigia o aumento do poder aquisitivo para as classes médias-baixas da França das províncias.

“Aplicaremos as respostas mais severas, incluindo as judiciais”, prometeu Macron do Chade, onde visitava as tropas francesas destacadas nesse país. “Agora devem reinar a calma e a concórdia.”

O amplo apoio dos franceses aos 'coletes amarelos' e as cenas de destruição e caos no 1 de dezembro em Paris obrigaram Macron a corrigir sua política e fazer concessões. O mandatário anulou o novo imposto aos combustíveis e concedeu um aumento de 100 euros ao salário mínimo. Também anunciou a abertura de um diálogo nacional, que começará em janeiro, para escutar as queixas e os pedidos dos cidadãos. Entre as principais reivindicações do movimento, estão ausentes temas tradicionais da extrema-direita, como a imigração. O programa é sobretudo econômico: busca reduzir os impostos para a classe média e melhorar os salários e os serviços sociais.

Os partidos que mostraram mais afinidade com os 'coletes amarelos' são a França Insubmissa (esquerda populista) e a Reagrupação Nacional (herdeiro da Frente Nacional, de extrema-direita). Essa mistura ideológica gera tensões. François Ruffin, deputado da França Insubmissa muito envolvido com os 'coletes amarelos', recebeu críticas de seus companheiros de partido por elogiar o professor Étienne Chouard, promotor dos referendos de iniciativa popular – outro pedido fundamental dos 'coletes amarelos' – e associado, em algumas etapas de sua carreira, a intelectuais da extrema-direita. “Eu não teria tomado Étienne Chouard como modelo. Mas, sem dúvida, sou sensível demais às tendências vermelho-marrons [do francês rouge-brun, que designa pessoas propensas a defender uma mistura de valores da extrema-direita (marrom) e da extrema-esquerda (vermelho)]”, escreveu no Twitter a deputada Clémentine Autain.

No sábado, poucos manifestantes protestaram em Paris. Dispersaram-se por vários pontos da cidade. Dois vídeos difundidos nas redes sociais chamaram a atenção. O primeiro mostrava um grupo ao pé da Basílica de Sacré Coeur, na colina de Montmartre, cantando a melodia da Canção dos Partisans, hino da resistência ao nazismo, mas com a letra de uma música do humorista antissemita Dieudonné M'bala M'bala. A letra menciona a chamada quenelle, um gesto ofensivo que tem sido interpretado como uma variação da saudação nazista.

O segundo vídeo mostrava a tentativa de agressão contra vários agentes motorizados da polícia na Champs Elysées. Um dos policiais chegou a apontar a arma a para dispersá-los.

A polícia investiga outro incidente antissemita no metrô de Paris presenciado pelo jornalista Thibaut Chevillard, do jornal 20 Minutos. Nesse mesmo dia, foi preso um dos fundadores do movimento, o caminhoneiro Éric Drouet. Ele portava um objeto parecido com um cassetete. Figura conhecida dos 'coletes amarelos', Drouet incentivou os manifestantes a entrarem no Palácio do Eliseu, a sede presidencial, semanas atrás.

Neste fim de semana, subiu para 10 o número de mortos em acidentes relacionados com os protestos.

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