Game of thrones

George R. R. Martin: “Fizemos progressos desde a Idade Média. Pelo menos já não se esquarteja em público”

Criador de ‘Game of Thrones’ publica ‘Fogo & Sangue', uma narrativa “histórica” que antecede a série de romances

George R. R. Martin na cerimônia do Emmy, em setembro.
George R. R. Martin na cerimônia do Emmy, em setembro.Rich Polk (Getty)

“George is coming.” Quase se espera ouvir uma fanfarra depois desse anúncio e da aparição de George R. R. Martin (Bayonne, New Jersey, EUA, 1948) acompanhado por lanceiros de Dorne, a Guarda Real, um destacamento de Imaculados, alguns dothraki e um punhado de broncos irmãos da Guarda da Noite (os dragões não caberiam no elevador). Mas o autor da série literária Canção de Gelo e Fogo — 90 milhões de exemplares vendidos em 47 idiomas —, nas quais se baseia a série televisiva Game of Thrones (o título do primeiro volume, lançado no Brasil como A Guerra dos Tronos), chega sozinho e toma assento não no Trono de Ferro cercado de espadas, direito que ninguém poderia lhe negar, e sim numa cadeira comum.

Os janelões da sala dão vista para a rua Broadway e para uma Nova York onde sopra um vento gelado que anuncia a proximidade do inverno. Martin, que parece um pouco agoniado por toda a confusão ao redor de sua tão bem sucedida criação — com a série de TV superando os romances no qual se baseou, fãs exigindo o lançamento dos volumes que faltam, rumores sobre novos projetos e a pressão de seguir no topo — reuniu um punhado de jornalistas em sua editora por ocasião do lançamento mundial de seu novo livro, Fogo & Sangue (Suma de Letras), uma prequela de 800 páginas de Canção de Gelo e Fogo que transcorre 300 anos antes e narra a história do reinado da casa de Targaryen (17 reis), a dinastia criadora e amestradora de dragões que foi deposta no início do famoso ciclo de romances e da série televisiva, e à qual pertence um de seus personagens centrais, Daenerys Targaryen.

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Martin, vestido de preto qual um Jon Snow encarnado, com sua célebre boina e um aspecto entre Peter Ustinov e Orson Welles, pediu que não lhe perguntassem sobre a nova temporada da série da HBO, a oitava e última (de seis episódios, prevista para abril), sobre o próximo livro do célebre ciclo, o sexto e penúltimo, The Winds of Winter, na qual ainda trabalha (já faz seis anos que lançou o anterior, o quinto, A Dança dos Dragões), e a respeito de sua saúde, que é boa, diz, embora lhe irritem e lhe causem calafrios os rumores do fandom mais radical e desconsiderado, farto de esperar, que o apressa a concluir a série original (o último romance previsto, o sétimo, se chamará A Dream of Spring, e ninguém sabe quando sairá) antes da sua morte. “Tenho leitores maravilhosos, mas há também esses outros menos pacientes que compõem um território complexo”, medita, preocupado.

Fogo & Sangue é uma criação muito diferente de Canção de Gelo e Fogo”, explica. “Espero que fique claro que não é um romance, e sim um gênero distinto, história imaginária.” Martin desliga assim estilisticamente sua popular série do novo livro — que, para complicar, serão dois: o agora publicado vai até a regência de Aegon III, cognominado Veneno de Dragão, passando por sete reis e a extinção dos dragões; o segundo, vai até o final da dinastia, outros 10 monarcas, e ainda falta ser escrito. “Utilizo o recurso de dizer que o livro é obra do Arquimeistre Gyldayn de Antigua, e que eu apenas o transcrevi. É um tipo de livro que se parece com as crônicas dos reis históricos, como a monumental do escritor e jornalista Thomas B. Costain sobre os Plantegenet (1949), por exemplo, com a exceção de que tudo aqui, claro, não é acadêmico, e sim inventado, e com dragões. Mas é um gênero que permite muita brincadeira, porque o suposto autor escreve anos depois e reúne diversas versões dos fatos, algumas contraditórias. A história real está cheia de coisas assim. Como morreu Eduardo II? Quem matou os principezinhos na Torre? Temos versões, mas enquanto não dispusermos de uma máquina do tempo nunca conheceremos a verdade.” Martin aproveitou para confirmar que a HBO está desenvolvendo várias ideias de histórias prévias e/ou derivadas de Game of Thrones. Apontou também que sua prioridade agora é acabar o sexto episódio de Canção de Gelo e Fogo.

Tenho leitores maravilhosos, mas há também esses outros menos pacientes que compõem um território complexo

Martin é apontado como “o Tolkien americano” e, logicamente, este Fogo & Sangue é comparado a O Silmarillion, a prequela de O Senhor dos Anéis (ainda à frente, com 150 milhões de cópias vendidas). Martin, que admira Tolkien e o considera uma de suas principais influências (mas desconversa quando lhe pergunto pelos Dragonriders of Pern de Anne McCafrey, tão parecidos com os seus, ou sobre a relação com Dune), aqui demarca algumas distâncias. “Tolkien deixou O Silmarillion inacabado, e seu filho o completou. Não tem detalhes. Busquei que não acontecesse o mesmo. Fogo & Sangue está cheio de histórias, de paixão e de vida, inclusive há humor.” Martin recorda que Tolkien e ele pertencem a mundos muito diferentes, e suas criações refletem isso. “Ele era monárquico, e eu certamente não sou. Não compartilho na sua crença nos governantes monolíticos, como se vê em minha obra. Limita-se a dizer que Aragorn foi um rei justo. E eu tendo a pensar que sim, que Sauron está vencido, mas que restam todos esses orcs soltos, e me pergunto se Aragorn não terá realizado alguma campanha genocida contra eles, matando inclusive os bebês orcs. Não acredito na teoria dos grandes homens. Na minha opinião, os heróis também cometem erros, assim como os malvados às vezes têm comportamentos nobres. As pessoas reais são assim. É preciso tentar dar o melhor de nós sabendo que não somos perfeitos. Isso é uma verdade tão grande quanto todos os seres humanos morrem, algo que também é evidente em meus livros, onde ninguém está a salvo.”

Dragão Balerion.
Dragão Balerion.Doug Wheatley

O que compartilham de fato, e Martin assim reconheceu em seguida ao ler pela primeira vez O Senhor dos Anéis, é uma atração melancólica pelos reinos que se desvanecem. A ideia triste da decadência — com um ponto pessoal: sua família tinha decaído — está presente, como a da redenção, em toda a obra de Martin, desde seu maravilhoso primeiro grande romance, A Morte da Luz, um dos livros mais bonitos e desesperançados que já foram escritos (e que pôde concluir, aliás, graças a um empréstimo financeiro feito por Roger Zelazny), passando pelos vampiros e a comovedora amizade de Sonho Febril e por Uma Canção para Lya, até o mundo de Westeros.

Falar de sua nova obra convida Martin a refletir sobre o desenvolvimento da história. “Parece que a humanidade não aprende com seus erros, hoje continuamos tendo um mundo cheio de conflitos, guerras, racismo, sexismo. Embora acredite que progredimos desde a Idade Média. Pelo menos já não se esquarteja publicamente.” Sobre possíveis metáforas acerca do nosso mundo em sua obra e uma visão política, Martin, muito crítico de Trump, diz que uma de suas principais influências formativas foi a leitura de ficção científica de clássicos como Poul Anderson e Robert Heinlein, que mostravam a humanidade unida para sair do planeta e conquistar as estrelas, ou se defender junta de ataques alienígenas. “Cresci com essa ideia de que não somos norte-americanos ou mexicanos ou chineses, e sim todos terráqueos. Não acredito que levantar muros seja uma boa ideia”, diz, particularizando que o seu — para o qual, como é sabido, inspirou-se no velho Muro de Adriano — é apenas literário. “Nos EUA, além disso, todos somos descendentes de imigrantes.” Admite que em Canção de Gelo e Fogo há ecos das ameaças da mudança climática. “Continuamos ignorando este e outros riscos de nossa civilização, vivemos no imediatismo. Assim como se ignorou a ameaça que os nazistas representavam, e deu no que deu. Temos que prestar atenção à mudança climática e outra vez aos nazistas também!”

Fogo & Sangue, que explica a gênese de muitos elementos da obra da que é prequela (a fundação de Porto Real, a criação da Guarda Real e do posto de Mão do Rei, a construção da Fortaleza Vermelha e do Trono de Ferro, a sucessão das casas), mistura material já publicado pelo autor em forma de relatos paralelos aos romances com criação nova, e oferece um monte de emoções com o característico selo da casa Martin. A história dos Targaryen (a destacar nesta primeira entrega a do impiedoso Maegor I, o Cruel, assassino de seus parentes) supera com acréscimos a de famílias como os Ptolomeus e os Bórgias, e nela abundam os incestos (o de Cersei e Jaime Lannister que viria depois é uma brincadeira em comparação), as conspirações, as guerras, os parricídios, as torturas, as mutilações e os crimes mais espantosos.

Começa com a conquista dos Sete Reinos de Westeros (o mundo de Martin) por parte de Aegon I, o Conquistador, primeiro rei da dinastia, que para manter a pureza de seu sangue desposa suas duas irmãs, uma velha tradição valiriana. Curiosamente, Martin também tem duas irmãs. Os três Targaryen reinam e cavalgam, além de entre eles (há muito sexo no livro), os seus dragões (o rei monta a grande e famosa besta chamada Balerion, o Terror Negro), com o fôlego ígneo dos quais destroem os exércitos e as cidades de seus inimigos.

Martin diz que, quanto aos seus personagens, não faz distinção alguma de gênero. “Não penso se são homens ou mulheres, e sim neles como indivíduos. Uma das grandes coisas das minhas obras é que eles têm um elenco muito amplo. Tenho até 17 grandes personagens na série que são mulheres, e todas são muito diferentes entre si. Meus personagens são gente real, capazes de odiar, de amar, de cometer erros, de fazer ações louváveis e atos terríveis. Em Fogo & Sangue é igual, há Targaryens nobres e vilões, e alguns são as duas coisas ao mesmo tempo. Acredito que todos temos essa dualidade.”

Fogo & Sangue, que inclui 75 ilustrações em preto e branco do desenhista Doug Wheatley, narra cenas sensacionais como a demolição de um dragão com uma catapulta e sua queda sobre uma torre, a luta entre dois dragões montados por dois irmãos pretendentes ao trono, funerais de reis cujos cadáveres são incinerados com o fogo das míticas criaturas, uma sangrenta (!) cerimônia de casamento em que a noiva é estuprada e o noivo é castrado, e outra em que as noivas são três, e todas viúvas, e um rei que morre no Trono de Ferro empalado misteriosamente pelas espadas que o compõem (o narrador Gildayn nos oferece várias versões desse fato).

Aparecem um monte de dragões (uma feliz proliferação, como a dos jedis na prequela de Star Wars): Balerion, Quicksilver, Dreamfyre (“uma fêmea esbelta, de cor azul clara com listras prateadas”), Silverwing, Vermithor (“bronze e canela”), Vhagar… Os dragões têm um pouco de “arma total, definitiva”, reconhece Martin, que os aproxima de metáforas das armas nucleares. “São forças destrutivas muito poderosas. Seu emprego é uma opção tremenda. Governar é outra coisa.”

Pelos diferentes desenvolvimentos de sua obra e pela extensão que atingiu, o escritor diz que “é um desafio lembrar tudo”, mas que tem o conjunto na cabeça. Agradece a ajuda de uma equipe de seguidores que ajudam a não cometer erros em detalhes ou a corrigi-los. Com relação à série televisiva, afirma que vê-la não o influencia, embora “os atores estejam magníficos”. “Imaginei os personagens muito antes e continuo a vê-los como os criei.”

Afirma que Fogo & Sangue é, de certa maneira, mais fácil de escrever que a série Canção de Gelo e Fogo, com a qual sente também ter exigências muito elevadas. “Fogo & Sangue é mais reta, mais simples, vai seguindo uma cronologia, não há uma simultaneidade de ações em diferentes lugares.” Salienta que escrever “é trabalho, é duro, e quando acabo me produz uma grande satisfação”. Na situação atual, sente-se pressionado. “Acabo de publicar um livro de 800 páginas, e tem gente que o que faz é me perguntar quando sairá o próximo.” Mas não se queixa do sucesso. “Seria hipócrita dizer que eu gostaria de voltar a um relativo anonimato e a recuperar a privacidade de antes. Se eu gosto de ser rico e famoso? Não vou mentir, sou muito feliz pelo jeito como as coisas se deram. Os aspectos positivos superam em muito os negativos.” Após mais de uma hora de conversa, Martin, esse homem complexo que descreve com deleite as batalhas mais tremendas, mas alegou objeção de consciência para não ir ao Vietnã, e que não tem filhos, mas pariu milhares de personagens, se deixa fotografar pacientemente, autografa livros e vai embora murmurando um “thanks for coming”, que fica pairando no ar com todas as incertezas do inverno.