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Macron e Merkel criticam o nacionalismo de Trump e seus aliados

O presidente francês e a chanceler alemã defendem o multilateralismo no centenário do fim da Grande Guerra

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O presidente francês, Emmanuel Macron, durante o centenário do fim da Primeira Guerra Mundial em Paris o 11 de novembro de 2018. AP

O mundo comemorou o centenário do fim da Primeira Guerra Mundial e as tensões que dividem este mundo foram reveladas em Paris. O anfitrião, Emmanuel Macron, e a chanceler alemã, Angela Merkel, representantes das duas potências inimigas entre 1914 e 1918, alertaram no domingo sobre o perigo de novas catástrofes. "O patriotismo é o exato oposto do nacionalismo. O nacionalismo é sua traição", disse Macron. Uma mensagem para os mais de 70 Chefes de Estado e de Governo presentes. E, acima de tudo, ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que afirma sem complexos o nacionalismo e os EUA em primeiro lugar.

Aos pés do Arco do Triunfo, sob uma chuva persistente, duas visões antagônicas eram encenadas: a dos defensores da chamada ordem liberal, com Macron e Merkel à frente, e aqueles que a questionam, como Trump. Entre os participantes estavam o presidente russo, Vladimir Putin; o turco, Recep Tayyip Erdogan; o primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau, e o rei da Espanha, Filipe VI.

O contexto político contava. Sete meses antes de uma eleição europeia que Macron antevê como um confronto entre progressistas e nacionalistas. Uma Europa fraturada em blocos ideológicos e na qual sua principal aliada, Merkel, iniciou a retirada. E o aliado norte-americano desinteressado nas mesmas instituições das quais foi promotor e fiador. O presidente francês quis colocar seus colegas diante de um dilema. Ou esta arquitetura, nascida após a Segunda Guerra Mundial e incorporada na ONU e na UE, entre outras instituições, é preservada e modernizada, ou o mundo está fadado a outros desastres.

"Ao se dizer 'nossos interesses primeiro e que importam os dos outros?' apaga-se o que uma nação tem de mais precioso, o que a torna viva, o que a leva a ser grande, o mais importante: seus valores morais", acrescentou Macron ao distinguir nacionalismo de patriotismo. "Vamos somar nossas esperanças ao invés de opor nossos medos."

O presidente russo, Vladimir Putin, cumprimenta seu colega dos EUA, Donald Trump, no centenário do fim da Primeira Guerra Mundial. ampliar foto
O presidente russo, Vladimir Putin, cumprimenta seu colega dos EUA, Donald Trump, no centenário do fim da Primeira Guerra Mundial. AP

O transcorrer do dia foi revelador. Na cerimônia da manhã, os chefes de Estado e de Governo chegaram juntos a pé ao Arco do Triunfo caminhando pela Champs-Élysées: um momento que deveria projetar a imagem de unidade no centenário do fim das matanças. Trump e Putin chegaram por conta própria. A primeira-ministra britânica, Theresa May, participou das cerimônias de armistício em Londres, não em Paris.

A foto dava margem a várias leituras. "Depende apenas de nós que esta imagem seja interpretada no futuro como o símbolo de uma paz duradoura entre as nações, e não como a imagem do último momento de unidade antes que o mundo caia em uma nova desordem”, comentou Macron.

Na parte da tarde, os líderes –menos Trump– se deslocaram até o pavilhão de La Villette, no norte de Paris, para participar do Fórum da Paz, evento idealizado por Macron para promover o multilateralismo. O presidente do governo espanhol (primeiro-ministro), Pedro Sánchez, participou do fórum. Macron convidou Merkel para proferir o discurso de abertura. Com esse gesto, queria enfatizar que a amizade franco-alemã é o fundamento da paz atual. "Se o isolamento não foi a solução cem anos atrás, como pode ser hoje em um mundo interconectado?", disse a chanceler, que alertou para o perigo de um "nacionalismo míope."

Desencontros

O ambiente já estava rarefeito. No sábado, um encontro entre Macron e Trump no Palácio do Eliseu foi marcado por desentendimentos sobre os planos franceses de impulsionar a defesa europeia autônoma da Otan. A decisão de Trump, no mesmo dia, de suspender uma visita a um cemitério militar norte-americano, alegando que estava chovendo, foi interpretada como um sinal de apatia.

Neste domingo, os sinos tocaram por toda a França, como 100 anos atrás, quando às 11 horas do dia 11 do 11º mês de 1918 entrou em vigor o armistício assinado na madrugada do mesmo dia em um vagão de trem estacionado na floresta de Compiègne. O armistício pôs fim a quatro anos de guerra que, como lembrou Macron, causou 10 milhões de mortes e seis milhões de feridos, e deixou três milhões de viúvas, seis milhões de órfãos e milhões de vítimas civis. O cessar-fogo desembocou alguns meses depois no Tratado de Versalhes. As condições leoninas impostas à Alemanha derrotada alimentaram o revanchismo que contribuiu para a Segunda Guerra Mundial.

Macron preparou uma cerimônia sem desfile militar, para não mortificar os alemães, com a leitura de cartas e testemunhos da Grande Guerra e música interpretada pelo violoncelista Yo-Yo Ma. Era uma comemoração da história. Uma maneira de colocar Paris, a França e ele mesmo, por algumas horas, no centro da política mundial. E uma reafirmação da via Macron e Merkel –multilateralismo, livre comércio e UE– em oposição à via Trump. Abertura contra recuo. Multilateralismo contra isolacionismo. Patriotismo –para usar sua sutil distinção– contra o nacionalismo.

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