Cinema

Robert Redford: “Ainda posso rir da morte”

Aos 82 anos, o lendário protagonista de clássicos como Um Golpe de Mestre e Todos os Homens do Presidente acha que chegou a hora da retirada

Robert Redford em Nova York, em setembro de 2017.
Robert Redford em Nova York, em setembro de 2017.Paul Bruinooge / Patrick McMullan / Getty Images

Aos 82 anos, o lendário protagonista de clássicos como Um Golpe de Mestre e Todos os Homens do Presidente acha que chegou a hora da retirada. Mas apenas da interpretação. Ainda lhe resta tempo para dirigir, defender o cinema independente no Instituto Sundance e, sobretudo, cultivar sua segunda grande paixão, o meio ambiente. Robert Redford recebe a reportagem em Toronto para relembrar uma vida de filme: a sua.

Mais informações

A entrada de Robert Redford no hotel Fairmont Royal York de Toronto vem acompanhada de um sentimento duplo. É fácil ver a figura frágil de 82 anos, mantendo o estilo, todo vestido de preto – calça, camiseta... até óculos escuros –, mas andando com precaução, segurando na mesa onde se senta para conversar, como quem se agarra (com delicadeza) a uma tábua de salvação. Sua surdez é pronunciada, e são muitas as vezes em que, durante a conversa, ele dá uma resposta lúcida e interessante ao que acredita ter ouvido mais do que ao que foi perguntado. E ainda mais numerosas são as vezes em que sua mente volta ao passado para contar as empreitadas deste californiano que se esforça para descrever a si mesmo como um patinho feio, embora isso seja impossível de imaginar quando você tem na sua frente o cisne de Hollywood, o galã dos galãs, inclusive em sua versão octogenária. Esse Robert Redford (Santa Monica, Califórnia, 1936) continua vivo: o Sundance Kid de Dois Homens e Um Destino, O Grande Gatsby muito antes de Leonardo DiCaprio querer seu posto e o candidato sempre interessado em política, embora seu ativismo esteja voltado mais para preservar o meio ambiente do que para ocupar a Casa Branca. Mas o valor do intérprete não se mede apenas pelos inumeráveis sucessos do passado. Ele continua sendo o motor de uma nova geração de artistas graças ao Festival Sundance e protagonizando filmes. Seu novo trabalho é The Old Man & The Gun. E esse – diz ele – pode ser o seu canto do cisne.

O senhor disse que este é seu o último filme, que não haverá outro. Cansou-se de Hollywood?

Nunca diga nunca. Mas tenho feito isso desde os 21 anos e já sou octogenário. Talvez tenha chegado a hora. Não tanto de parar, mas de seguir em outra direção.

Qual, por exemplo? A produção, a pintura, a política?

Produzir. Dirigir mais. Faz tempo que penso nisso. Cultivo essa ideia desde minha última estreia, um projeto que me reuniu novamente com Jane Fonda [Nossas Noites, 2017], um dramalhão romântico nada otimista. Foi muito agradável trabalhar no filme, mas era um filme muito triste. Nos tempos em que vivemos, prefiro algo mais positivo. Atravessamos um momento político tenebroso, e o ambiente cultural que nos rodeia é bastante deprimente. Mas eu tampouco disse que The Old Man & The Gun será o último. Como ator, sinto que The Old Man & The Gun é um grande filme para dizer adeus.

É o filme pelo qual gostaria de ser lembrado?

Gostaria de ser lembrado por todo o trabalho na TV, no cinema, no teatro. E por meu trabalho com o meio ambiente.

Não tem filmes favoritos? Quais são os títulos dos quais guarda melhor recordação?

É uma boa pergunta para alimentar meu ego, mas não penso nesses termos. Curti fazer todos eles. Se quiser escolher um, Dois Homens e Um Destino (1969) é uma grande opção porque o adorei. Interpretei um papel em que me senti à vontade, e foi um prazer trabalhar com George Roy Hill. Foi então quando fiquei amigo de Paul Newman, uma amizade que duraria a vida toda. Mas, apesar do tanto que gosto de Dois Homens e Um Destino, Um Golpe de Mestre (1973) me parece um dos melhores filmes da história do cinema. E tudo graças a Hill. Foi ele que o idealizou, pensou na música, ele foi tudo realmente. Fazia muitos anos que não via o filme, até que minha filha quis assisti-o recentemente, e de novo percebi o quanto é bom.

“O fascínio do público mais jovem pelos efeitos especiais, pelas explosões e pela ação deixou as histórias de lado, e isso para mim é muito importante”

The Old Man & The Gun utiliza cenas de A Caçada Humana (1966). Coincidência? O que recorda de seu trabalho com Marlon Brando?

Não sei se é uma coincidência, mas certamente foi uma surpresa. Tinha me esquecido. O que mais lembro de A Caçada Humana é que foi meu primeiro trabalho com Jane Fonda – 1965? – e, claro, com Marlon Brando. Mas o que ficou gravado foi a contribuição de Arthur Penn. Ele se encarregou de levar às telas o que Lillian Hellman tinha escrito. Não precisamos de muita discussão nem muito ensaio. Tudo se encaixou perfeitamente. E essa é a qualidade que busco no trabalho.

Quanto Hollywood mudou nesses anos? Essa qualidade que procura continua existindo?

Essa foi sempre a minha paixão. Me fez feliz. Especialmente quando contei as histórias que queria contar. Para mim, o mais importante é a história. É o primordial. Ao longo da carreira, desenvolvi uma estratégia que resumo em três passos. O primeiro é a história. O segundo, o personagem. E o terceiro, a emoção. O que foi acontecendo nesse tempo é que o fascínio, sobretudo do público mais jovem pelos efeitos especiais, pelas explosões e pela ação deixou a história de lado. E isso para mim é extremamente importante. Afinal, existe frase mais evocadora do que “Era uma vez...”, com a qual todas as histórias começam?

Seu primeiro filme como diretor foi Gente Como a Gente (1980). Lamenta não ter dirigido antes?

Não sou muito de lamentar. Todos nós temos coisas para lamentar. Fazem parte da vida. Mas se elas se transformam numa obsessão, são uma carga muito pesada que não nos deixam seguir em frente. Sou um ator desde os 21 anos. Ainda assim, levei tempo para aceitar que meu amor pela pintura se transformaria em meu hobby, enquanto a interpretação passava ao primeiro plano. Desde então, me concentrei em ser ator. Em ser o melhor ator que pude. Fui bem [na carreira], e não necessariamente por causa do meu físico. Quando criança eu tinha os dentes muito grandes, o cabelo ruivo demais e muito selvagem. E a cara cheia de sardas. O aspecto físico chegou muito mais tarde e me surpreendeu. Não estava preparado para isso. Agora quero me dedicar mais à direção.

Como Clint Eastwood?

Não sei se como ele. Temos pontos de vista diferentes, embora eu o respeite. Nós dois somos californianos, somos amigos e tal. Mas temos uma forma diferente de pensar e de fazer cinema. Já tenho um projeto em mente para dirigir, mas não quero dar detalhes no momento.

Sua relação com Hollywood sempre foi boa, mas distante. Por quê?

Suponho que influiu o fato de que nasci em Los Angeles, em Santa Monica; que vivi e fui criado num bairro de trabalhadores; e que Hollywood nunca me pareceu um lugar mágico. Não foi meu sonho, como o de muitos. A fama chegou de forma inesperada. Comecei como todos, sentado num banco ao lado de muitos outros, esperando para poder fazer uma audição por um papel que às vezes conseguia, mas que não maioria das vezes não. E então dei o salto até me ver sendo tratado como um objeto. O lado obscuro da fama. Primeiro você se sente tratado como um objeto, depois se comporta como um objeto e, finalmente, se não tiver cuidado, você se transforma num objeto. Hollywood é bom para os negócios, mas prefiro viver em outro lugar.

No início de sua carreira encontramos Descalços no Parque, de Neil Simon. Primeiro foi em 1963, em versão teatral, e anos mais tarde, em 1967, no cinema com Jane Fonda. Quais são as suas lembranças hoje, logo após a morte do dramaturgo?

Devo muito a Neil. Aquela era apenas a sua segunda obra. E a primeira de Mike Nichols como diretor. Éramos todos novos. Eu nunca tinha feito uma comédia. E Neil Simon estava muito nervoso porque a obra era bastante autobiográfica. Mike foi quem me defendeu, enquanto os demais lhe diziam que estava louco por confiar em mim. Mas tinha visto na TV um fragmento em que fiz o papel de psicopata, e o deixei tão intrigado que ele me chamou para fazer um teste em Nova York. Neil acabou sendo meu amigo. Devo muito a ambos. Dois grandes talentos. Neil não apenas sabia fazer rir. Sabia o quanto o riso é importante.

Se, como diz, ser ator sempre foi sua paixão, isso deixou que ter o mesmo significado agora que chega a hora do adeus?

Minha relação com a arte dramática não mudou. Nem com a arte de fazer filmes. Nem com os atores com quem trabalhei. Todos que querem cultivar sua arte e não só sua popularidade contam com todo meu respeito. Sou mais duro com quem está mais interessado na atenção que vem unida a este trabalho do que na interpretação. Músicos que mudam de carreira para ganhar uma nova fama, mais do que por seu interesse nesta arte. Esses não me chamam tanto a atenção.

Outra das paixões do Robert Redford é o meio ambiente. Embora, na verdade, fosse mais exato qualificá-la de preocupação: sempre o acompanhou e nela investiu boa parte de seu dinheiro. Alcançou todas as honras: o Oscar − nunca como ator, só um como diretor e outro honorário −, a medalha que o Kennedy Center lhe concedeu por suas contribuições artísticas (a maior distinção cultural americana), sua nomeação como cavaleiro da Legião Francesa, a Medalha Presidencial da Liberdade que Barack Obama lhe entregou (a distinção civil mais alta nos Estados Unidos) e o Leão de Ouro do Festival de Veneza por toda sua carreira. Mas garante que seu verdadeiro tesouro é a casa onde os guarda em Santa Fé, um paraíso no meio da natureza que tanto defende. O mesmo vale para o Instituto Sundance, que ele fundou em 1981. Não só por suas conquistas como mecenas do cinema independente, cultivando novos talentos e revelando-os no festival do mesmo nome, mas também pelo lugar onde está instalado, em Park City (Utah, EUA).

Também foi o meio ambiente que o levou ao ativismo. Isso e a tensão atual com uma presidência que ele despreza. Redford é um democrata que em algumas ocasiões apoiou candidatos republicanos e que sempre soube discernir entre o cinema como entretenimento e como arma política. Mas a idade, o bipartidarismo que divide seu país e sua preocupação com o meio ambiente deixaram muito mais clara sua posição política.

Quando começou a se interessar pelo meio ambiente?

Quando estava com 11 anos e tive poliomielite. Foi um caso leve e me livrei de um tratamento que na época era aterrorizante. Mas demorei várias semanas para me recuperar e, como prêmio, minha mãe me levou para fora de Los Angeles, cidade da qual eu nunca tinha saído, até o Parque Nacional de Yosemite. Quando atravessei o túnel de entrada e cheguei ao que se chama de Inspiration Point (“ponto de inspiração”), percebi que não queria só vê-lo, queria estar ali, em meio àquela paisagem majestosa. Soube que quando fosse grande iria querer ter dinheiro para comprar terras e preservá-las, aposentar-me admirando sua beleza. Não passariam muitos anos até eu me dar conta de que a natureza do nosso país, o que nos dá a força e nos separa da Europa, é que somos uma sociedade orientada para o desenvolvimento. Nós crescemos e geramos riqueza, mas o que nos restará se continuarmos neste ritmo? O futuro não tem de estar voltado apenas para o desenvolvimento, e sim para a conservação, se buscamos a sobrevivência de nossa espécie. Caso contrário, para que ter filhos? Por isso decidi dedicar meus esforços ao meio ambiente.

Continua residindo em Santa Fé?

Em Santa Fé, Novo México, e em Sundance, Utah. Gosto do oeste, das montanhas, de escalar, de caminhar, de escutar os rios ou o silêncio dos bosques, do céu aberto, da paisagem extensa, da falta de poluição. Paraísos tão remotos que posso olhar e não ver nada mais do que céu e terra. Lugares onde me sinto feliz.

O Festival de Sundance se aproxima de seus 35 anos de história. Em sua primeira edição, foram exibidos 35 filmes. Na última, mais de 13.000 obras aspiravam a fazer parte dessa mostra de cinema independente. Sente-se orgulhoso do que conseguiu?

“Continuo de luto pelos EUA, nunca vi meu país tão dividido. Só me consola saber que sempre soubemos sair das crises no último momento”

Sempre fui uma pessoa muito ativa em minha profissão. Como ator e como diretor. Também tive a sorte de que me surgissem oportunidades. O festival e o instituto são precisamente isso, a forma de oferecer essas oportunidades a outros. A primeira ideia foi oferecer um lugar onde os autores pudessem conhecer a obra de outros realizadores. Porque seu trabalho estava sendo ignorado. Algo para o que não estávamos preparados era para a energia que isto criou ao seu redor, o número de pessoas que se interessaram por este trabalho. E o dinheiro que chegou à cidade durante o festival e esteve a ponto de descaracterizar este foro, com vistas à sua comercialização. Mas continuamos sendo o lugar onde os cineastas independentes encontram uma plataforma para ser vistos. Muitos deles chegando até mesmo ao grande público. Também há quem interprete mal o conceito deste festival, como se tivesse de estar dedicado a um cinema insurgente. Meu único desejo foi potencializar boas histórias, americanas ou internacionais, que de outro modo ninguém teria visto. Dar-lhes a oportunidade que eu tive.

Nunca quis politizar o festival, mas ao longo de sua carreira desenvolveu projetos com carga política.

O Candidato (1972) é um de meus filmes preferidos. Sempre pensei que dizia muito sobre o sistema político. E foi uma filmagem prazerosa, que fizemos quase sem dinheiro. Todos os Homens do Presidente (1976) foi uma luta mais longa, de quatro anos, com tudo contra nós, mas foi um momento importante de nossa história que valeu a pena levar às telas.

Continua em contato com Bob Woodward? Leu seu último livro, Medo: Trump na Casa Branca?

Continuo em contato com ele. Nós nos conhecemos antes da filmagem [de Todos os Homens do Presidente] porque nossa intenção não era muito a de fazer um filme político, e sim um filme sobre a relação entre Bob e Carl [Bernstein]. Carl sempre chamava mais a atenção porque era mais extrovertido, mas o que me interessou em Bob foi sua paz interior, sua introversão, seu falar pausado e seu grande intelecto. Continuamos sendo amigos e sigo seu trabalho. Este livro chega em um momento muito bom e tenho vontade de lê-lo. Tenho confiança em que sirva para algo.

É otimista com o futuro que nos espera?

Não sei se podemos cair mais baixo. Continuo de luto por um país que nunca vi tão dividido. Cresci na Los Angeles do pós-guerra e como país nunca estivemos mais unidos. Foram bons anos. O ambiente atual é tóxico. Minha esperança está na história. Porque este país sempre soube sair de suas crises no último momento. E o que é certo é que as últimas eleições nos tiraram da apatia: inspiraram grandes manifestações e uma mudança de clima político.

O suficiente para que pense em participar de forma mais ativa da política?

Em nível pessoal sou um ativista, mas nunca quis que a política salpicasse minha obra. Ou o festival. Apoiamos os autores sem fazer proselitismo, seja qual for a história que quiserem contar. Sou daqueles que acreditam que se pode fazer filmes sobre momentos políticos, mas me deixa nervoso colocar a política no cinema.

E pensa em se dedicar a qual atividade quando se aposentar como ator? Tem uma lista de coisas a fazer antes do adeus?

Sou daqueles que vivem o momento. Não me encontro entre os que fazem planos nem entre os que pensam muito mais à frente.

Pensa na morte?

Provavelmente. É parte da vida. E certamente, em algum lugar da minha mente, estou aterrorizado. É inevitável, mas posso escolher entre viver com medo ou seguir com minha vida e rir da morte. Com a idade, tenho tido de abrir mão de certas coisas, mas enquanto puder fazer longas caminhadas e montar a cavalo, continuarei rindo dela. E ainda posso.