Incêndio Museu Nacional

Como Luzia, a mulher mais antiga do Brasil, renasceu das cinzas

Fóssil mais antigo das Américas foi resgatado dos escombros do Museu Nacional. Arqueóloga explica que 80% dos fragmentos já foram identificados, enquanto o restante está passando por limpeza e estabilização

Os restos de Luzia, o fóssil mais antigo das Américas, apresentados nesta sexta.
Os restos de Luzia, o fóssil mais antigo das Américas, apresentados nesta sexta.CARL DE SOUZA (AFP)

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Os restos foram encontrados recentemente —não foi precisado quando exatamente— e 80% deles já foram identificados. "Nós retiramos 100% do material, mas sempre existe alguma transformação. Hoje conseguimos dizer 80% desse material foi possível identificar de imediato", explica Rodrigues-Carvalho por telefone. O restante ainda está passando por um processo de limpeza e estabilização. Devido ao intenso calor, a cola que mantinha o crânio unido derreteu, deixando-o despedaçado e danificado. "Sempre tem algum tipo de perda, mas acredito que chegaremos a recuperar quase 100%", acrescenta.

Os pedaços foram apresentados nesta sexta durante uma coletiva de imprensa no Rio. Ainda segundo Rodrigues-Carvalho, o crânio se encontrava em uma caixa de metal dentro de um armário "em uma posição que era já planejada para qualquer situação de sinistro". Foi o que acabou salvado Luzia, uma das peças mais importantes de um acervo de 20 milhões de itens. "Mas o material ósseo tem um limite de resistência e Luzia é mais frágil que o normal, mas todas as medidas acabaram garantindo uma possibilidade de restauração. A proteção não foi 100% eficaz, mas de certa forma ajudou", afirma a antropóloga.

Os restos de Luzia ficarão guardados em um local seguro até que um laboratório seja disponibilizado, uma condição imprescindível para que os pesquisadores do Museu Nacional possam finalmente começar a restaurá-los. "Os fragmentos tiveram uma transformação, é impossível não ter. Mas estamos muito otimistas, porque a expectativa era de nem conseguiríamos recuperá-la", explica Rodrigues-Carvalho. "Temos muito trabalho pela frente, mas que será recompensador".

Buscas ainda nem começaram

Rodrigues-Carvalho explicou ainda que as buscas pelo que restou do incêndio ainda mal começaram. Quarenta e seis dias depois do incêndio, o trabalho de reforço da estrutura danificada ainda vem sendo feito pela Concrejato Serviços Técnicos de Engenharia S/A, empresa contratada de emergência Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), responsável pelo Museu Nacional. Ainda não se sabe o que causou a tragédia. O mais urgente, explica a antropóloga, é colocar uma cobertura em cima do palácio imperial para proteger os escombros da chuva. Isso ainda não foi feito por causa de etapas técnicas, mas ela garante que o trabalho está dentro do prazo. O Ministério da Educação liberou 10 milhões de reais emergenciais para essa fase, da qual também participam os especialistas do museu.

"Nós entramos que com a equipe de técnicos e sempre que conseguimos recuperar algo isso é feito. Mas o processo de resgate ainda nem começou", explica a arqueóloga. E foi assim que encontraram Luzia. "Mas não estamos preocupados agora em fazer grandes descobertas. Precisamos primeiro garantir toda a segunda, para quando for preciso a gente se aproximar".

Seja como for, outros "vários" itens foram encontrados, mas ainda precisam passar por análises detalhadas para que se possa classificá-los. Nesta quinta-feira, o jornal O Globo noticiou o resgate dos fragmentos de um dinossauro que, segundo especulam os pesquisadores, pode ser o Maxakalisaurus topai, um gigante herbívoro que media 13 metros e vivia na América do Sul há 80 milhões de anos. Ela era destaque da sala de dinossauros. Rodrigues-Carvalho salienta, contudo, que ainda não é possível dizer o que se trata. 

Pesquisadores ouvidos pelo EL PAÍS dão como certo a destruição completa de alguns setores, como a parte de memória e arquivo, composta principalmente por documentos de papel da era imperial; as múmias egípcias e outros artefatos do Egito Antigo; o setor de entomologia, que contava com exemplares únicos de insetos extintos; as inúmeras peças de culturas indígenas que não existem mais ou não produzem mais esses itens; ou ainda a parte de linguística, em especial o acervo único de línguas indígenas.

Fora do palácio imperial, uma pequena parte de um acervo de 20 milhões de itens, acumulados ao longo de 200 anos pelo principal centro de pesquisas da América Latina, permanece intacto: 550.000 amostras de plantas, um setor de animais vertebrados com 460.000 lotes, uma biblioteca central com 500.000 títulos —e 1.560 obras raras—, e um anexo subterrâneo que abriga 100.000 lotes de animais invertebrados. Trata-se de 1,6 milhão de itens que o Museu Nacional já contam para a sua reconstrução. Também há esperança no departamento de geologia e paleontologia, onde armários de aço, caixas e cofres especiais podem ter conservado parte do acervo. Em um desses recipientes se encontrava o crânio de Luzia, encontrado pela primeira vez na década de 1970 em Minas Gerais. "Se nós tivéssemos resgatado só uma peça nos escombros já teria sido bom. Mas agora que encontramos Luzia, tamos ainda mais esperanças de encontrar outros itens que são ainda mais resistentes", afirma Rodrigues-Carvalho.