Coluna
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Com cenário global adverso, próximo Governo brasileiro terá que tirar leite de pedra

Expectativa de elevação da taxa de juros nos EUA tornará mercados emergentes menos atraentes. Quem receber a faixa de Temer precisará ser hábil em dar más notícias - e deve se preparar para baixos índices de aprovação

Palácio do Planalto.
Palácio do Planalto. Marcos Corrêa (PR)

Um ano atrás, muitos previam a vitória de outsiders, sem experiência prévia na política, em uma série de eleições presidenciais na América Latina. Afinal, taxas de crescimento decepcionantes e a revelação de escândalos de corrupção sem precedentes em muitos países levaram a maioria dos eleitores a rejeitar toda a classe política. No entanto, até agora, as forças políticas tradicionais têm sido muito mais resilientes, como mostram os resultados das eleições no Chile, no Paraguai e na Colômbia. No Brasil, dois dos mais promissores neófitos, o apresentador de TV Luciano Huck e o ex-juiz Joaquim Barbosa, ambos vistos com chances reais de chegar à Presidência, decidiram não concorrer após longas consultas com especialistas.

Por que os principais novatos desistiram de concorrer à Presidência no Brasil, apesar da rara janela de oportunidade criada pela rejeição generalizada da elite política e uma forte demanda por mudanças? Fatores domésticos explicam parte dessa relutância. O presidencialismo de coalizão exige que os presidentes governem com muitos partidos, vários dos quais não têm compromisso o bastante para contribuir com a construção de um governo bem-sucedido —obter o apoio deles implica a distribuição de cargos ou benefícios semelhantes, o que requer o engajamento na velha política e profundo conhecimento da dinâmica do poder em Brasília. Mais importante ainda, o sistema torna quase impossível um estilo mais limpo de governar —precisamente o que os eleitores esperam de um outsider. No entanto, a perspectiva macroeconômica negativa talvez tenha sido a que mais contribuiu para a decisão de Huck e Barbosa de abrir mão da corrida presidencial.

Há quatro razões que tornam o contexto global para o Brasil o mais desafiador em décadas e que explicam por que o sucessor ou a sucessora de Temer terá altas chances de fracassar.

Em primeiro lugar, a expectativa de elevação da taxa de juros nos Estados Unidos tornará mercados emergentes menos atraentes para investidores. Isso poderá levar a uma fuga de capitais da região, dificultando o pagamento de dívidas por parte dos governos. Infelizmente, é possível que o impacto negativo na Argentina, na Turquia e na Rússia seja apenas o começo. Como o professor Matias Spektor corretamente apontou em artigo recente, é um erro acreditar que não há risco de contágio para o Brasil. Basta lembrar a “década perdida” dos anos 1980, quando a elevação dos juros do Banco Central estadunidense contribuiu para uma profunda crise econômica aqui.

Em segundo lugar, embora os preços das commodities tenham se recuperado um pouco, é improvável que eles retornem tão cedo a seu pico de 2011. Commodities a preços baixos implicam crescimento reduzido na América Latina e aumentam a pressão por adotar políticas necessárias, porém dolorosas, como a reforma da Previdência, que dificultaria a adoção de uma “agenda positiva” por parte do novo governo. É, portanto, pouquíssimo provável que o próximo governo consiga gerar crescimento suficiente para voltar ao patamar de aprovação anterior ao dos protestos de 2013. Além de uma baixa taxa de aprovação, o crescimento reduzido aumenta a intolerância pública à corrupção. Nesse cenário, turbulências políticas ocorrem com frequência, como tem sido o caso no Brasil ao longo dos últimos cinco anos.

Em terceiro lugar, o Brasil é altamente dependente de um conjunto funcional e previsível de regras e normas globais, que organizam a política internacional. O país deverá ser um dos mais afetados pela atual erosão dessas regras pelo crescente unilateralismo dos Estados Unidos. Uma guerra comercial entre China e Estados Unidos pode oferecer oportunidades específicas para alguns setores brasileiros, mas elas não conseguirão compensar o custo gerado pela incerteza geral. Além disso, assim como na Alemanha e no Japão, onde já há amplo debate público sobre a crescente necessidade de investir em defesa, o Brasil poderá em breve ver-se obrigado a investir mais no fortalecimento de suas Forças Armadas, embora enfrente poucas ameaças geopolíticas imediatas.

Finalmente, é provável que a crise na Venezuela se mantenha como sangria desatada na América do Sul nos próximos anos, subtraindo tempo precioso da agenda de política externa, o qual poderia ser destinado a tópicos tão ou mais importantes. Ficou impossível discutir as relações Brasil-EUA ou Brasil-União Europeia em Washington ou Bruxelas sem ouvir numerosas perguntas sobre a Venezuela. Quem assumir o lugar de Temer terá que priorizar a ingrata tarefa de lidar com a crise no país vizinho ou enfrentar o risco de uma atuação mais expressiva de atores externos na Venezuela — como os Estados Unidos, a Rússia ou a China.

Não surpreende, portanto, que outsiders como Huck ou Barbosa estejam pouco dispostos, depois de uma análise detalhada, a segurar esse abacaxi.

Oliver Stuenkel é professor-adjunto de relações internacionais da FGV-SP

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