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Lula: “Eu não sou um ser humano, sou uma ideia. E não adianta tentar acabar com as ideias”

Ex-presidente se despede com ataques contra juízes, promotores e meios de comunicação.

“Vou provar que foram eles que cometeram crime”, discursou, antes de ser preso

O ex-presidente Lula a sua saída do sindicato. EFE

Já estava falando havia mais de meia hora, esculpindo cada frase como se estivesse destinada aos livros de História. Durante um longo trecho, emulou inclusive o célebre “I have a dream”, de Martin Luther King. Em cima do caminhão que servia de palco, abraçara-se a políticos de vários partidos, sindicalistas, músicos e até padres. Luiz Inácio Lula da Silva fez então uma pausa ante as centenas de pessoas congregadas em frente ao edifício do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo, e anunciou: “O sonho de consumo deles é a fotografia do Lula preso. (...) Vão ter orgasmos múltiplos. (…) Mas vou atender o mandado deles.” E antes deixou claro: “A morte de um combatente não para a revolução.”

Finalizado o discurso, Lula ainda se fez esperar. Foi levado de novo nos ombros até o edifício do sindicato onde havia se refugiado nos últimos dois dias e almoçou pela última vez com sua família. Por volta das 17h, se dispôs a sair de carro, mas dezenas de militantes bloqueavam a saída e gritavam que não o deixariam ir embora.

Lula voltou ao edifício, e a situação se prolongou durante uma hora e meia. No final, o ex-presidente saiu andando e, entre empurrões e muita tensão, entrou num carro blindado da polícia. Pouco depois das 18h40, Lula foi tecnicamente preso.

Quando sua prisão imediata foi decretada, na última quinta-feira, seu acusador implacável, o juiz Sérgio Moro, tentou mostrar um gesto de magnificência.

Vou sair desta maior, mais forte e inocente. Porque vou demonstrar que são eles os que cometeram um crime

Luiz Inácio Lula da Silva


“Em atenção à dignidade do cargo que ocupou”, Moro deu ao ex-presidente a oportunidade de se apresentar de forma voluntária até as 17h de sexta. Lula, sem dar atenção às vozes de numerosos dirigentes do Partido dos Trabalhadores (PT) que pediam que ele não se apresentasse à Justiça, e inclusive que buscasse refúgio numa embaixada estrangeira, optou por se entregar. Mas quis deixar claro que determinaria as condições e escolheria o momento. E que sua despedida da liberdade se transformaria num ato repleto de simbolismo, em meio ao fervor da militância.

Assim, após dois dias entrincheirado no sindicato, Lula saiu para assistir a uma missa em memória de sua falecida esposa, celebrada ali mesmo, em plena rua, sobre o caminhão que antes havia servido de palco para os discursos políticos, entre bandeiras vermelhas dos militantes e com a participação de um grande grupo de músicos. Terminada a cerimônia, o ex-presidente segurou o microfone e deu início às despedidas, que precederam um discurso vibrante, tão carregado de ataques contra seus acusadores quanto de frases solenes. “Eu não sou mais um ser humano, eu sou uma ideia misturada com as ideias de vocês”, proclamou. “Minhas ideias já estão no ar e ninguém poderá encerrar. Agora vocês são milhões de Lulas”.

O lugar escolhido tinha todo o simbolismo, porque foi ali onde Lula começou sua carreira como dirigente sindical no final dos anos sessenta. Era também o lugar onde ele coordenou a maior greve dos trabalhadores contra a ditadura militar, em 1980. Na ocasião, Lula pisou pela primeira vez na prisão. E, caso o paralelismo não ficasse claro, ele mesmo se encarregou de torná-lo explícito. Após evocar sua detenção na época, concluiu: “E agora estamos na mesma situação.”

O líder que protagonizou três décadas de política brasileira dedicou boa parte do discurso a atacar duramente seus acusadores: os promotores, o juiz Moro, a Polícia Federal... E também os grandes meios de comunicação. Todos esses, “eles”, argumentou Lula, são os verdadeiros criminosos. De novo, foi especialmente duro com o promotor que o acusou, Deltan Dallagnol, considerando inclusive que todos os demais haviam sido seus “comparsas”. Acusou todos eles de criar “quase que um clima de guerra nesse país”, de orquestrar uma acusação sem provas e inclusive da “sacanagem” de provocar a “antecipação” da morte de sua esposa, Marisa Letícia, também acusada nas investigações sobre sua família. “Eu não os perdoo por terem passado para a sociedade a ideia de que eu sou um ladrão”, desabafou.

Seu único crime, explicou, foi ter sido “um construtor de sonhos”. E então repetiu o refrão de Luther King para explicar esse sonho, o de um país mais justo, em que milhões de pobres pudessem se incorporar à economia, ter oportunidades e ir à universidade “para não ter só procurador e juiz rico”. Por tudo isso, argumentou, ele foi condenado. Porque, segundo a tese de Lula, “eles” não suportam a ideia de “colocar pobre na universidade, negro na universidade, pobre comer carne, pobre comprar carro, pobre viajar de avião”.

Sempre que se referiu à Lava Jato, Lula tentou diferenciar entre a operação em geral e algumas ações específicas, como a que o levou à prisão. “Não pensem que eu sou contra a Lava Jato. Se pegar bandido, tem que prender. Quero que prendam o rico. Mas o problema é que você não pode fazer julgamento subordinado a imprensa”, afirmou.

Sempre acompanhado pela ex-presidenta Dilma Rousseff, Lula desferiu: “O golpe não terminou com a Dilma, o golpe tinha que continuar até me impedir ser candidato”. O ex-presidente não fez o menor gesto que pudesse ser interpretado como um sinal sucessório no PT. Entre os vários dirigentes ao seu lado no caminhão, havia um possível candidato, Fernando Haddad, mas Lula se limitou a cumprimentá-lo como outro dos tantos presentes. E, já na parte final, quando quis apontar dois jovens dirigentes que podem dar continuidade à sua luta, ele chamou para estarem ao seu lado curiosamente os candidatos à presidência dos partidos aliados, Guilherme Boulos, do PSOL, e Manuela D´Ávila, do PCdoB.

E assim, emendando sem parar frases de efeito, o ex-presidente foi chegando ao final. Depois de anunciar que se entregaria, quis deixar claro:

“Esse pescoço aqui eu não abaixo. Eu vou chegar de cabeça erguida e vou sair de peito estufado”. Embora todo o discurso tenha parecido uma despedida, inclusive com uma alusão à morte, Lula também quis enfatizar que se entregar não significa ser derrotado: “Sairei dessa maior, mais forte e inocente, porque vou provar que é eles que cometeram crime”.

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