Trump foca nos automóveis para pressionar a UE na guerra comercial que pode respingar no Brasil

Bruxelas desenha medidas caso não haja entendimento. Uma delas é impor quotas ou tarifas para países que podem estar desviando seu excedente de produção para a UE

Veículos da Volkswagen na Califórnia.
Veículos da Volkswagen na Califórnia.LUCY NICHOLSON (REUTERS)

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A União Europeia tem apenas um mês para tentar convencer Donald Trump de que há alternativas à guerra comercial do aço. Europeus e norte-americanos já negociam possíveis melhorias para importar e exportar em um clima de paz. Washington tem uma fixação: abrir caminho na Europa para os carros norte-americanos, pouco competitivos em relação aos do bloco europeu. Bruxelas contra-ataca com a licitação pública dos Estados Unidos, quase fechada para as empresas europeias.

A UE defende rejeitar qualquer medida unilateral e se prepara com três tipos de ferramentas para aplicar represálias no caso de esta tentativa de entendimento fracassar. E uma delas pode respingar no Brasil. O Executivo comunitário prevê instaurar quotas ou tarifas ao aço procedente de outros países, se for demonstrado que a punição imposta pelos Estados Unidos a outros territórios (por exemplo, o Brasil) desvia para a UE a produção que não é vendida na América do Norte.

Também está previsto desencavar a lista de mais de uma centena de produtos dos Estados Unidos sobre os quais poderia aplicar tarifas de até 25% para compensar os danos que sofrerão as vendas do aço europeu submetido a taxas. Por fim, Bruxelas tentará um pacto com outros parceiros afetados por essa medida protecionista para denunciá-la na Organização Mundial do Comércio.

Mas a Europa negocia com a corda no pescoço. A trégua obtida pelos países comunitários em 23 de março ao se livrarem das tarifas sobre o aço e o alumínio, anunciada pelo presidente dos EUA, vence em 1 de maio. “A UE não vai negociar sob ameaça, especialmente quando não sabemos exatamente o que esperam”, afirmou a comissária de Comércio, Cecilia Malmström, à agência Reuters. Ninguém em Bruxelas acredita que esse prazo seja realista. A Comissão Europeia, com competências comerciais exclusivas na UE, batalha para que o alívio temporário se converta em permanente. Mas Washington ameaça impor um preço muito alto.

O que os Estados Unidos querem é melhorar o acesso de seus produtos (e se não conseguirem isso, obstruir o dos europeus no mercado norte-americano) em quatro categorias: alimentos, carros e seus componentes, medicamentos e maquinário industrial. Foi o que relatou um alto funcionário do Executivo da UE aos representantes dos 28 Estados membros em Bruxelas, na semana passada. “Os carros estão no centro da atenção de Trump. Mas qualquer redução das tarifas (para os veículos fabricados nos EUA e vendidos na Europa) será percebida como uma fraqueza”, advertiu esse representante, segundo explicam fontes diplomáticas.

A negociação começou de maneira bastante caótica. No lado norte-americano quase não há especialistas –somente o secretário de Comércio, Wilbur Ross, e seu chefe de Gabinete– e as exigências vão e vêm. Existe, apesar de tudo, uma petição precisa. Os automóveis norte-americanos, agora taxados com uma tarifa de 10% para entrarem na Europa, deveriam receber um porcentual de 2,5% –idêntico ao que os Estados Unidos aplicam aos comunitários– para satisfazer Washington. É algo similar ao que Trump acaba de conseguir pressionando a Coreia do Sul. Um cenário de que a Europa desconfia.

Em jogo estão fluxos comerciais enormes. Mesmo sem um tratado que vincule ambos os blocos, os Estados Unidos são o principal destino das exportações europeias (16,9% do total) e o segundo país que mais vende para a UE (13,8%), segundo dados de 2017. Pôr a ênfase nos carros não é casual: praticamente a metade das exportações europeias para solo norte-americano estão ligadas ao transporte. Somente os automóveis representam 12,8% da cesta exportadora, enquanto para os EUA são 4%.

À lista de demandas da Administração Trump a UE opõe a sua. Porque se os Estados Unidos querem suavizar os obstáculos que o incomodam, Bruxelas insiste em outros que já desencadearam atritos no malogrado tratado comercial negociado durante a Administração de Barack Obama (TTIP, na sigla em inglês). Trata-se de dar entrada –hoje muito limitada– às empresas europeias que querem participar das licitações públicas norte-americanas. E, em geral, de frear o programa protecionista Buy American. Malmström e Ross mantiveram um primeiro encontro há uma semana e se espera outro nos próximos dias.

Não ao TTIP

Com todas essas cláusulas sobre a mesa, alguns especulam sobre a ideia de ressuscitar o TTIP (O Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento). “Não é possível e certamente faria descarrilar toda a agenda comercial da UE”, estimou o especialista da Comissão perante os Estados. Fontes oficiais dessa instituição reforçam a ideia: “Estamos dispostos a nos envolver nesse processo de modo aberto e construtivo. Mas deve ficar claro que esse diálogo não significa revitalizar o TTIP, congelado desde o final de 2016.”

Apesar das frases taxativas, em alguns países se espalha o medo diante da ideia de que no final acabe sendo declarada a guerra comercial. Entre eles se destaca a Alemanha, pulmão exportador da UE e responsável por boa parte da indústria automobilística. A frente norte-americana poderia desatar fissuras na europeia, aproveitando a lacuna nos interesses entre Estados. Para dissuadi-los, Bruxelas lhes enviou uma mensagem inequívoca: “A Europa conseguiu a isenção temporária porque permaneceu unida. Sem essa unidade, estaríamos como o Japão.” Este país não conseguiu sair da lista negra de tarifas sobre o aço e o alumínio.

Bruxelas centra seus esforços no México e no Mercosul

A última coisa que Bruxelas esperava com Trump à frente dos EUA era iniciar um diálogo comercial. Os inflamados discursos protecionistas que o líder norte-americano ventilou já antes de chegar ao poder convenceram os europeus de que a negociação do TTIP O Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento) nunca voltaria a ver a luz. Mas a ameaça de guerra comercial por parte de Washington forçou uma mininegociação de resultados incertos.

Entretanto, a Comissão Europeia não quer perder de vista os dois processos mais próximos de um acordo. Trata-se da renovação do acordo comercial com o México, com grandes possibilidades de conclusão nas próximas semanas, e o tratado com o Mercosul, mais distante no horizonte. Em sua última cúpula, os chefes de Estado e de Governo da UE destacaram o progresso nesses dois casos para conseguir “tratados ambiciosos e equilibrados”. Já faz três meses que se superou o horizonte temporário que Bruxelas se havia proposto –simbolicamente– para a culminação desses pactos e dos obstáculos, e especialmente nos parceiros do Mercosul, não desapareceram.

Os negociadores europeus e os mexicanos terão uma nova oportunidade de aproximar posições em 16 de abril, com uma reunião em Bruxelas para discutir assuntos pendentes. Por sua vez, os quatro parceiros do Mercosul (Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai) que negociam com a UE não deram ainda sinais sobre seus próximos passos. Bruxelas tem grande interesse nessa região. O Mercosul em seu conjunto constitui o primeiro sócio comercial da Europa, com 22% do fluxo.