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À espera de eleições, América Latina se equilibra em incertezas para recuperar brio econômico

Eleições no Brasil e México ditam a cadência de uma região com grandes disparidades de crescimento

Região da rua 25 de Março, no centro de São Paulo
Região da rua 25 de Março, no centro de São Paulo

Poucas vezes se viu tão claramente como hoje a discrepância entre as fases do ciclo de crescimento dos diversos países da América Latina. Por um lado, o Brasil (maior economia da região) e a Argentina (a terceira maior) lutam para superar seus desequilíbrios e recuperar o brio econômico, e o México se esforça para manter a pose num momento de máxima incerteza, em plena renegociação do Tratado de Livre Comércio da América do Norte (TLC), do qual dependem 85% de suas exportações, e tendo que enfrentar a volatilidade causada por um presidente como Donald Trump em seu maior sócio comercial. Por outro, Peru e Colômbia continuam crescendo num bom ritmo, sem grandes obstáculos econômicos no horizonte.

“A agenda da região passa por superar a armadilha da renda média”, salienta Ángel Melguizo, chefe do departamento de América Latina e Caribe da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). “Enquanto as economias da OCDE conseguiram dar o salto há 30 anos, a América Latina continua sendo uma região de renda média há seis décadas”, observa. A esse desafio, por si só maiúsculo, Melguizo acrescenta outros três: fortalecer os avanços socioeconômicos, consolidando a classe média e reduzindo o trabalho informal; avançar na integração regional e melhorar o equilíbrio com a China (e não só com os EUA e a Europa); e repensar as instituições “perante a crescente insatisfação e desconfiança”.

Arena política

Este 2018 será, além disso, um ano crucial na arena política de vários países da região. Com eleições no Brasil, México, Colômbia e Costa Rica, entre outros, o investimento sofrerá pressões para baixo até que seja conhecido o desenlace, especialmente no Brasil e México. “A incerteza política pesará no processo de investimento nestas economias”, salienta Alejandro Werner, chefe do departamento do Hemisfério Ocidental do FMI. “Isso não significa que sejam antevistos desequilíbrios macroeconômicos em função dos resultados, mas sim que o investimento irá parar até que tudo se esclareça.”

No caso do Brasil, o que mais preocupa os investidores é a possível reversão da agenda reformista em andamento, incluindo o impopular projeto de mudanças no sistema previdenciário, e a potencial reversão na recuperação da sustentabilidade das finanças públicas. No caso do México, além do TLC, a preocupação dos investidores se centra no discurso do principal favorito para conquistar a presidência, Andrés Manuel López Obrador (do partido Morena), contrário a algumas reformas estruturais adotadas nos últimos seis anos, especialmente a energética, que permitiu a entrada de investimentos estrangeiros nesse setor. Entretanto, importantes assessores do candidato esquerdista abrandaram o tom nas últimas semanas, numa tentativa de convencer os investidores de que o país continuará sendo sólido e confiável.

“As eleições na região são uma fonte de preocupação porque terão lugar em três dos quatro maiores países da América Latina [Brasil, México e Colômbia]”, conclui José Luis Machinea, ex-presidente do banco central argentino. “Mas o fato de que os preços internacionais das matérias-primas não irão alcançar os valores do período 2004-2012 faz com que haja pouca margem para levar adiante políticas como as que existiram em alguns países da região naquele tempo. O risco está controlado.”

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