CARNAVAL
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Quem precisa de beijo à força?

Não se trata de Carnaval “politicamente correto”, forçar a barra é um imperdoável gesto, além de incompetência na festa

Antonio Lacerda (EFE)

Reparo a reação a um certo carnaval do “politicamente correto”. Reformar letra de marchinha, meu caro Zezé, tudo bem, pode ser um exagero. Patrulhar fantasia de índio, idem, teríamos que proibir também a ala das baianas  faz sentido a comparação roubada de um post de um amigo nas redes sociais ou nem tanto? Vamos com calma. Sim, há um certo exagero em corrigir a zoeira, em tolher os garotos e as garotas da fuzarca, velho Ivan Lessa. Há um certo exagero em vegetarianizar a festa da carne.

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Óbvio que o incorrigível amigo carioca Paulo Roberto Pires pode continuar a se vestir, religiosamente, de árabe. O fundamentalismo pentecostal do alcaide do Rio não cortará o seu barato. Até aí, ok, beleza, podemos até requentar as polêmicas de varejo, mas nem por isso deixaremos de dividir o mesmo cheirinho da loló e o insuperável latão de cerveja quente.

Agora não me venha, camarada, com esse queixume, esse mimimi a respeito do beijo à força, alegando que é coisa de carnaval etc. Pera lá, jovem canalha. Se o sujeito carece de um beijo à força, seja nas ladeiras de Olinda ou nos becos da Vila Madalena, temos um problemão pela frente. Só a técnica do joelhaço do Analista de Bagé resolve. Se em plena folia, com todas as condições históricas dadas para o flerte e enlace, o cara ainda precisa forçar a barra, ave, não tem mesmo competência para se estabelecer na praça com dignidade.

Quem precisa de beijo à força? Julgo indefensável. E não é pelos sintomas dos novos tempos. Isso nunca foi um gesto legal perante a lei do desejo. Poxa, mesmo em Sodoma e Gomorra, é bonito que haja, além da concordância, o princípio da conquista. Mesmo a conquista de um beijo ou de um sarro carnavalesco com alguém que você jamais encontrará de novo -se bem que hoje em dia o mapeamento, apesar da desmemória de Momo, é sempre possível nas redes.

Tentei evitar, até este parágrafo, o “não é não” e outras advertências que já deveriam ter sido incorporadas no dicionário acaciano do machismo. Não é não, puerra, grave essa voz bêbada na fita cassete do inconsciente.

E como vi rapazes, geralmente bolsominions, incomodados com o alerta policial para a proibição do beijo à força, como se manifestou explicitamente a polícia de Pernambuco. Que graça, jovens, tem essa parada? Nem deveria ser caso de polícia, também não falemos de bom senso (não combina com Carnaval tal sentimento), beijo à força não passa de uma selvageria de machinhos incompetentes tentando se amostrar para outros homens mais incompetentes e ridículos ainda.

Xico Sá, escritor e jornalista, é autor de Os machões dançaram -crônicas de amor & sexo em tempo de homens vacilões (editora Record), entre outros livros.

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