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Da arquibancada para o sambódromo: a apoteose das escolas ligadas às torcidas no Carnaval de São Paulo

Enquanto organizadas enfrentam vetos e restrições nos estádios, escolas de samba oriundas do futebol ganham espaço na avenida

Carnaval 2018
Desfile da Gaviões da Fiel em 2016. LIGASP

O trio de ferro da capital paulista, formado por São Paulo, Palmeiras e Corinthians, se enfrenta todo começo de ano nos gramados da elite do futebol estadual. Na avenida, entretanto, os confrontos não são tão comuns. Mas em 2018, pela primeira vez, quatro escolas de samba oriundas de torcidas organizadas do trio estão na primeira divisão do Carnaval paulistano. Independente e Dragões da Real são tricolores, Mancha Verde é palmeirense e Gaviões da Fiel é alvinegra. Divididas a respeito da relação com as arquibancadas do esporte que as originou, todas buscam o título no sambódromo, mas nenhuma arriscou neste ano um enredo que relacionasse a popular festa brasileira com futebol.

Entre elas, a Gaviões é a mais tradicional. Com quase 50 anos de existência, a escola, que leva o escudo do Corinthians em seus desfiles, é quatro vezes campeã do grupo especial (1995, 1999, 2002 e 2003). Porém, o sucesso recente veio com a Dragões, atual vice-campeã de São Paulo. A Mancha tem como principal resultado um quarto lugar, enquanto a Independente estreia na elite em 2018 após o vice da divisão de acesso no ano passado; a Camisa Verde e Branco, outra popular escola paulistana, não tem relação com o Palmeiras ou com nenhuma torcida palmeirense, apesar do nome e da sede na Barra Funda – eles estiveram no grupo especial de 2012, ao lado de Dragões, Gaviões e Mancha.

Os índios guarus, que habitavam a cidade de Guarulhos, são o tema do desfile da Gaviões da Fiel, que ocorrerá no sábado de carnaval. Há quatro anos, os corintianos levaram a história de Ronaldo para o sambódromo do Anhembi, sem refutar a ligação com o clube de futebol onde o atacante se aposentou. “Não existe separação entre torcida e escola”, explica Rodrigo Fonseca, presidente da Gaviões. “Apenas temos uma comissão dentro da nossa administração, formada por sócios que também vão aos jogos do Corinthians, que cuida do Carnaval”. Para o presidente, o maior objetivo da escola é “representar o corintiano”.

Mas não são todas as escolas oriundas de torcida que seguem o exemplo alvinegro. Mancha Verde e Dragões da Real, por exemplo, buscam limitar a relação com o clube de futebol apenas às suas cores e nomes. Paulo Serdan, presidente da Mancha, ressalta o fato de serem uma entidade independente da famosa torcida homônima: “Temos sedes, diretorias e CNPJs diferentes”. Serdan, porém, diz que “muitos integrantes que são da torcida desfilam conosco” e que, na apresentação deste ano, que homenageia o grupo de samba Fundo de Quintal, não deve ser diferente. Afinal, o vínculo entre futebol e Carnaval dentro da escola é inevitável. Além de terem feito um desfile homenageando o centenário do Palmeiras na edição de 2015, a Mancha Verde teve como diretor Moacir Bianchi, um dos responsáveis por viabilizar a verba para o desfile alviverde do ano passado em parceria com a Crefisa, patrocinadora do Palmeiras. Moacir, assassinado em março de 2017, foi também um dos fundadores da principal torcida organizada palmeirense.

Adriano Pera, assessor de comunicação da Dragões, admite o elo com torcida e clube, mas comenta o distanciamento entre futebol e Carnaval como natural ao longo dos anos. “Quando surgiu, era uma escola de membros da torcida organizada. Hoje, existe a relação de respeito, mas sabemos separar”. Adriano afirma que, na quadra da escola, não há referência ao São Paulo Futebol Clube. “Não tem bandeira, não tem hino. Não nos interessa o time de quem está conosco. Todos vestem a camisa da escola, não do clube”. Completando 18 anos neste ano, a agremiação nunca usou o Tricolor como tema de seus enredos.

Dos estádios para o Anhembi

Especialmente no estado de São Paulo, as torcidas de futebol enfrentam vetos e restrições ao que elas alegam ser apenas a festa da arquibancada. Neste contexto, por outro lado, cada vez mais escolas ligadas às organizadas aparecem na elite do Carnaval, um fenômeno oposto ao que tem acontecido nos estádios. “Admiramos as escolas de torcidas e elas contribuem para que o Carnaval de São Paulo cresça a cada ano”, comenta Adriano Pera. Porém, o assessor deixa claro que a Dragões não se encaixa nesse grupo, tampouco vê o desfile como substituto da festa nos estádios. “Pedimos para que nossos integrantes e simpatizantes não façam uso de sinalizador e nem se comportem como torcida organizada, no público e na avenida. Somos sambistas”. Serdan, da Mancha, concorda: “Nós fazemos o Carnaval. Apoiar o Palmeiras e estar na arquibancada é papel da torcida”.

A Gaviões da Fiel é a única que se assume como uma escola de samba dentro da torcida organizada. “Além de realizar o desfile, nossa torcida também participa levando faixas, bandeiras e sinalizadores”, comenta Fonseca. Entretanto, “a escola de samba jamais substituirá a existência da torcida, que tem como missão fazer a festa na arquibancada em prol do Corinthians”. O presidente conclui dizendo que lutar pela liberdade nas arquibancadas dos jogos é uma filosofia da torcida e, “com ou sem essa liberdade, seguiremos empolgados com o Carnaval”.

Futebol e Carnaval nem sempre dão liga

Ao longo da história dos desfiles de Carnaval, algumas escolas de samba se arriscaram a usar o futebol como tema de seus enredos, mas não tiveram sucesso. Em São Paulo, a Gaviões apresentou o desfile “R9 - O Voo Real do Fenômeno” em 2014 e acabou apenas com a décima posição. Um ano depois, o enredo “Quando surge o Alviverde Imponente, 100 anos de lutas e glórias” rebaixou a Mancha ao grupo de acesso. No Rio, o mesmo aconteceu com a Unidos da Tijuca, em 1998, ano do centenário do Vasco, com o desfile “De Gama a Vasco, a epopéia da Tijuca”. Quem teve relativo êxito foi a Imperatriz Leopoldinense, em 2014, quinta colocada com “Arthur X - O Reino do Galinho de Ouro na Corte da Imperatriz”, samba que homenageou o ex-craque do Flamengo, Zico.

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