Os Fujimori, um drama familiar que domina o Peru

Ex-mulher de Alberto Fujimori desatou o conflito ao denunciar a corrupção; 25 anos depois, dois filhos travam disputa sangrenta pela liderança política

Alberto Fujimori e sua filha Keiko comemorando uma vitória em 1995.
Alberto Fujimori e sua filha Keiko comemorando uma vitória em 1995.RENZO UCCELLI (AFP)

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Os Fujimori nem sequer fingem. Os peruanos estão tão acostumados a suas guerras de família que inclusive parecem se divertir com essa mistura entre Shakespeare e Falcon Crest que domina a história recente do Peru. Nesta semana, Kenji Fujimori, o filho mais novo, vencedor da última guerra com sua irmã, Keiko, publicou um tuíte em que pedia vingança. Como não pode pedir a cabeça de sua irmã, porque afinal são da mesma família, exige a de seus aliados. E o fez com uma caricatura em que ele aparece vestido de Kill Bill com uma espada e a roupa amarela ensanguentada. “Os senhores Figari e Ana Hertz de Vega têm conspirado por anos, sistematicamente, contra a liberdade de Alberto Fujimori. Hoje, ambos na sombra continuam atentando contra a governabilidade do país. Eles são o problema. Reconciliação = Reestruturação”, escreveu.

Kenji assim tornou público, ao culpar os assessores de sua irmã e pedindo por sangue, algo que confirmam fontes do primeiro escalão peruano: que Keiko vinha trabalhando para evitar que o patriarca recebesse um indulto, porque teme que ao sair da prisão o ex-presidente reassuma o comando da família, que durante os últimos anos tem sido ocupado por ela, duas vezes candidata à Presidência. Todos nessa família, incluindo a mãe, Susana Higuchi, já pretenderam em algum momento ser candidatos presidenciais. Todos acreditam na força do sobrenome que domina a política peruana desde 1990. E entre eles a guerra é total, ainda que depois de duríssimas batalhas acabem em estranhas reconciliações, essa da qual Kenji falava em seu tuíte, que parecem pactos de família para recuperar o poder.

Todos, inclusive a mãe, Susana Higuchi, já pretenderam em algum momento ser candidatos presidenciais

De fato a última grande briga familiar começou na semana das últimas eleições presidenciais, em abril de 2016, e também foi pelo Twitter. Keiko estava a ponto de perder a disputa para Pedro Pablo Kuczynski (PPK) –já havia perdido em 2011 para Ollanta Humama– e Kenji reivindicou sua chance no drama shakespeariano: “A decisão é minha. Somente no caso de Keiko não ganhar a Presidência, eu me candidatarei em 2021”. Ela lançou toda sua fúria contra ele, e a tensão chegou tão longe que no dia das eleições Kenji desapareceu para não ter que votar em sua irmã. Essa guerra foi utilizada por Kuczynski para se salvar, fechando um acordo com Alberto e Kenji para trair Keiko e romper o grupo parlamentar com 10 deputados que impediram a aprovação da destituição do presidente. Em troca, PPK concedeu o indulto ao patriarca, e pai e filho comemoraram juntos, enquanto Keiko, derrotada, foi render homenagens a seu pai no hospital e mostrou sua suposta felicidade no Twitter pela libertação de seu progenitor, como se nada tivesse acontecido.

O drama familiar vem de longe. E teve momentos muito mais dramáticos. Susana Higuchi denunciou que os serviços secretos controlados por seu marido chegaram a torturá-la. Ela sempre afirmou que tudo foi culpa da ânsia por poder de Alberto, que destruiu a família. “Se ele não tivesse sido presidente, teríamos sido um casamento e uma família modelos”, disse certa vez. Em março de 1992 essa engenheira e empresária denunciou a corrupção no entorno de Fujimori, que havia criado com seus irmãos duas ONGs para receber doações japonesas de roupa e dinheiro, mas desviaram os recursos para suas próprias contas bancárias. O Peru enfrentava anos de crise econômica agravada pela violência do Sendero Luminoso, e o Japão se solidarizou com o filho de imigrantes japoneses que presidia o país desde 1990. “Recebem doações do Japão, de roupa, a esposa de Santiago Fujimori (irmão do então presidente). Pegam o melhor para eles e repartem os farrapos utilizando o meu nome; isso me indigna”, disse Higuchi à imprensa em Lima em 1992.

Ali começou o inferno. “Não me deixam sair de casa por ordem do meu esposo, o portão está com uma corrente”, disse a um jornalista de televisão. A denúncia desencadeou uma investigação do Congresso contra Fujimori por desvio de mais de seis milhões de dólares, mas o presidente a impediu: em 5 abril, fechou o Parlamento e o Poder Judiciário mediante um golpe.

A primeira-dama relatou em 2002 que foi torturada por ordem de Fujimori depois do golpe, quando foi retirada com violência do apartamento designado para ela pelo Serviço de Inteligência do Exército (SIE). “Me tiraram com os olhos vendados, colocaram um capuz, e me levaram não sei para onde. Me torturaram com golpes até que cai inconsciente. Me injetaram algo para que eu ficasse totalmente apagada. Me deram choques”, disse. Uma agente de inteligência do Exército, Leonor La Rosa, confirmou que viu a primeira-dama pelada quando teve que levar comida a uma cela do SIE.

Higuchi quis ser candidata presidencial, mas Fujimori mudou a lei para impedi-la. “Não se pode ceder à chantagem nem à intimidação, venha de onde vier. Decidi, por isso, separar minha esposa da função de primeira-dama”, afirmou.

O drama familiar estava em seu apogeu. Os filhos optaram pelo pai e o poder. A mais velha, Keiko, assumiu as funções de primeira-dama aos 19 anos. Com maquiagem carregada, acompanhava seu pai na recepção a presidentes, e viajava com ele para inaugurar obras. Parecia que mãe e filha nunca se reconciliaram, mas na campanha de 2016 voltaram a aparecer juntas. Agora, de novo, a guerra familiar parece ter estourado. Mas a possibilidade de recuperar o poder durante a queda de Kuczynski, agora mais do que nunca nas mãos dos Fujimori, voltará a operar um milagre na família-chave da conturbada história recente do Peru.