Coluna
Artigos de opinião escritos ao estilo de seu autor. Estes textos se devem basear em fatos verificados e devem ser respeitosos para com as pessoas, embora suas ações se possam criticar. Todos os artigos de opinião escritos por indivíduos exteriores à equipe do EL PAÍS devem apresentar, junto com o nome do autor (independentemente do seu maior ou menor reconhecimento), um rodapé indicando o seu cargo, título académico, filiação política (caso exista) e ocupação principal, ou a ocupação relacionada com o tópico em questão

Por que não disse nada antes

Queria evitar que outros fizessem o que vocês fazem: duvidar da única evidência que uma mulher tem, nessas circunstâncias, que é sua própria palavra

© GETTYIMAGES
Mais informações
“Mulheres não denunciam, porque chegar a julgamento é quase pior que o estupro”
Abusos na ginástica: o inferno silencioso das estrelas dos Jogos do Rio
A violência contra as mulheres no mundo em quatro mapas

Em outubro, uma argentina que voltava a Buenos Aires com a Air France percebeu que o passageiro francês que viajava a seu lado estava se masturbando. Chamou uma aeromoça, pediu para mudar de poltrona. Responderam que não havia outro lugar disponível, acomodaram-na no assento da tripulação, perto dos banheiros, e se desentenderam. Já no destino, a mulher fez uma queixa formal contra o passageiro e a tripulação, cujos membros passaram horas dando depoimentos em uma delegacia. Tudo veio à tona em novembro, não pela queixa da passageira, mas porque o presidente da Air France “comunicou à chancelaria argentina a sua indignação pela detenção arbitrária” de seus funcionários. O passageiro desmentiu seu ato de onanismo e disse ter tido problemas com a passageira “desde o princípio”, por ela ter se negado a trocar de assento com ele para que viajasse junto a um amigo. À mulher, ninguém perguntou nada.

Há alguns anos, eu voava do Panamá para casa ao lado de um homem de grande porte que tinha cedido sua poltrona no corredor para que um casal de idosos pudesse viajar juntos, recebendo em troca o incômodo assento no centro da fileira. Jantei e adormeci. Acordei com a mão do sujeito sob minhas nádegas. Senti uma violência cega, e o insultei. Seu rosto foi uma resposta e tanto: olhou-me como se eu estivesse louca, sabendo que eu sabia que era essa a cara que ele faria se eu fizesse escândalo. Me levantei. Procurei outro assento. Não havia. E não pedi ajuda à tripulação. Sei o que teriam visto: “Mulher, de meia-idade, viajando sozinha: histérica” contra “homem simpático que ajudou os velhinhos”. Passei a noite em claro, ao lado dele. A resposta ao motivo do meu silêncio é a pergunta que muitos de vocês estão se fazendo agora: por que eu não disse nada. Essa pergunta que faz de mim uma pessoa de conduta suspeita – não ele. Não disse nada para evitar que outros fizessem o que vocês estão fazendo: duvidar da única evidência que uma mulher tem, nessas circunstâncias, que é sua própria palavra.

Mais informações

Arquivado Em

Recomendaciones EL PAÍS
Recomendaciones EL PAÍS