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“Classe C não usa Facebook para mobilização política, mas a rede motiva o jovem pobre a ler e escrever”

Antropólogo Juliano Spyer retrata em livro como um povoado da Bahia usa e incorpora as redes sociais

Obra faz parte de série de universidade britânica que mergulha no cotidiano digital de nove países

Como a classe C usa as redes sociais
Moradoras de um povoado na Bahia usam celular.

O antropólogo Juliano Spyer mergulhou no cotidiano de um povoado no norte da Bahia por 15 meses. Instalou-se, criou laços, adicionou e foi adicionado em centenas de contatos no Facebook e em seus grupos de WhatsApp. Passou a compartilhar os dramas sociais, enredos amorosos e memes da paisagem real e virtual, tanto pública quanto privada, da comunidade de cerca de 15.000 habitantes cujo nome ele preferiu preservar.

O resultado da incursão, seu doutorado na University College London (UCL), no Reino Unido, se transformou no recém-lançado Social Media in Emergent Brazil, um dos estudos qualitativos mais completos disponíveis (o download é livre e uma versão em português deve sair em 2018) de como as classes populares no Brasil usam e incorporam a Internet e as redes sociais. A obra faz parte de uma série da universidade britânica que compara o panorama em nove países. Na entrevista abaixo, Spyer aponta um abismo que separa o tipo de uso político das redes nas classes mais abastadas e nos estratos mais pobres do país e fala do impacto dos evangélicos nessas comunidades. O grupo impressionou tanto o autor que ele já prepara novo livro sobre o tema que, por ora, leva o título Crentes, uma revolução popular brasileira.

Pergunta. Seu livro conta que não é comum na comunidade que você estudou postar opiniões políticas, mas mostra, por exemplo, o caso de uma evangélica que publicou as fotos de seu casamento no Facebook para marcar a vitória ante o pastor local que se negou a casá-la porque ela já morava com o namorado. As redes são armas políticas para as classes populares, mas não como a gente pensa?

Resposta. Exato. A rede pode ser e é usada no jogo local de poderes, como ferramenta para mostrar conquistas ou atacar rivais, mas não para discutir visões sobre a política como fazem os setores mais escolarizados. A classe C não usa o Facebook para mobilização política. Para os meus vizinhos no povoado a política é palpável. Eles querem saber se o posto de saúde vai ficar aberto 24 horas, se a rua será asfaltada, se a escola que fechou porque o Governo suspendeu o pagamento dos funcionários terceirizados da limpeza vai reabrir. Mães estão sendo incorporadas ao mundo do trabalho formal, o que confere grandes vantagens para a família em termos de benefícios e estabilidade, mas traz novas dores de cabeça. Essas mães não estarão na vizinhança para ficar do olho nos filhos e por isso elas querem saber quando o Governo oferecerá atividades que deem alternativa para que a filha ou o filho não fiquem pela rua desacompanhados – por exemplo, atividades físicas ou aulas de línguas. Eles não precisam da Internet para saber desses problemas porque são dificuldades diárias da vida no brasileiro das camadas populares. E eles também não precisam das mídias sociais para se articularem, porque essa articulação já existe nas redes tradicionais de ajuda mútua, que se baseiam na proximidade física entre as pessoas.

P. Nem durante a campanha esse tipo de post político aparece?

Eles também não precisam das mídias sociais para se articularem, porque essa articulação já existe nas redes tradicionais de ajuda mútua

R. Os moradores não discutem política por entenderem que os políticos os veem como cidadãos de segunda categoria. O candidato aparece nas campanhas prometendo mundos e, depois que é eleito, desaparece. Veja um caso relativamente comum de um tema político que motivou protesto no povoado: um grupo de moradores se organizou para fretar ônibus e fazer manifestação na frente da prefeitura contra a presença de caminhões de carga transitando irregularmente no povoado. A passagem desses caminhões quebra o asfalto, levanta poeira e provoca problemas respiratórios. Desde que eu saí de lá, há três anos, a situação piorou porque os caminhões agora passam de madrugada, poluindo o ar e também, por causa do barulho intenso, atrapalhando o sono das pessoas que acordam de madrugada para trabalhar.

P. Você estava em campo em junho de 2013 e na campanha de 2014. Como os grandes protestos foram acompanhados de lá?

Culto evangélico no povoado da Bahia durante a pesquisa.
Culto evangélico no povoado da Bahia durante a pesquisa.

R. Eu acompanhei os grandes protestos de junho de 2013 simultaneamente de dois pontos de vista. Enquanto os meus amigos intelectuais de classe média de São Paulo dedicavam muitas horas discutindo política e repassando informação sobre as mobilizações, no povoado esse tema chegou apenas via TV, e ela praticamente não gerou conversas cara a cara nas ruas nem pela Internet. Meus vizinhos do povoado assistiram às notícias dos protestos que aconteciam a 100 quilômetros dali, em Salvador, da mesma forma como assistiram os protestos da Primavera Árabe ou do Occupy Wall Street nos Estados Unidos. Como eu expliquei anteriormente, política governamental é um tema que frequentemente os lembra de sua condição de cidadãos de segunda categoria, porque, segundo eles explicam, políticos aparecem nas campanhas depois somem. Há pessoas que se manifestam online e offline, nesses períodos de campanha, a favor de um ou outro candidato, mas pelo que eu vi esse tipo de apoio muitas vezes tem a ver com vínculos dessas pessoas com grupos políticos específicos. Quem apoia e faz campanha pelo candidato – vereador, deputado estadual, prefeito – geralmente espera recompensa, principalmente sendo contratado para um cargo no serviço público. O que circulou muito em 2014, principalmente via WhatsApp, foi conteúdo ridicularizando políticos e concordando com essa ideia pessimista sobre o político ser essencialmente um interesseiro. Essa raiva contra a classe política lembra o clima aqui do Reino Unido, que levou à vitória do Brexit, e nos Estados Unidos, que elegeu Trump, e que se manifesta hoje, nas camadas populares brasileiras, pelo apoio a Bolsonaro. Em outras ocasiões essa revolta apareceu no voto pelo Tiririca (“pior que tá não fica”), mas a crise econômica desses últimos anos e o consequente o empobrecimento desses setores parece que azedaram o humor desse grupo, que quer ver os outros grupos da sociedade saírem de sua zona de conforto.

P. Você presenciou proselitismo político ligado à religião?

Um dos vídeos da pesquisa compila o que circula no WhatsApp falando mal da rede, "uma praga" para os pais.

R. Eu presenciei principalmente o apoio a uma agenda mais conservadora, e associada aos temas sobre sexualidade, e críticas principalmente ao PT, mas essas eram opiniões expressas por indivíduos, e não visões oficiais de determinadas igrejas.

P. O impacto das comunidades evangélicas no povoado que você estudou e a tensão com outros grupos fica clara no seu livro. Sempre se fala que há um grande desconhecimento dos grupos evangélicos, que costumam aparecer como monolíticos. Você concorda?

A conduta das camadas escolarizadas a respeito dos evangélicos é parecida com o que vejo na Europa e nos EUA em relação aos muçulmanos: fala-se deles como se todos fossem iguais quando isso não é verdade

R. Concordo com a ideia de que há um grande desconhecimento por parte das camadas médias e as elites brasileiras sobre os evangélicos. Esse termo é compartilhado por vários grupos cristãos muito diferentes. Nos Estados Unidos, que é um país predominantemente protestante, as pessoas sabem, por exemplo, que protestantes históricos (como batistas ou metodistas) são muito diferentes de pentecostais em termos socioeconômicos. Uma parte do problema aqui parece ser o preconceito de classe que se expressa pelo idioma da religião. Conforme a antropóloga Clara Mafra explicou, o protestantismo atraiu as camadas populares desde o início no século XIX porque na igreja protestante as pessoas se tratam como iguais, enquanto na Igreja Católica o pobre tradicionalmente cedia lugar no banco para as famílias importantes e tinha que assistir a missa de pé. O problema, então, não é a crítica que se faz a posturas conservadoras dos chamados “evangélicos”, mas entender que essa crítica perde a força ao revelar um desentendimento do tema, porque há grande variedade de pontos de vista nesse grupo. Essa postura das camadas escolarizadas sobre os evangélicos é parecida com o que vejo na Europa e nos Estados Unidos em relação aos muçulmanos: fala-se frequentemente deles como se todos fossem iguais quando isso não é verdade.

P. O que mais chamou atenção no uso das redes sociais pelos usuários evangélicos?

No QG da campanha de Trump havia funcionários do Google, do YouTube, do Twitter e do Facebook trabalhando. Não vejo porque seria diferente no caso brasileiro

R. Como eles invertem uma certa desconfiança que as camadas populares demonstram em relação à utilidade da educação. Em famílias que não são evangélicas, os pais temem que a escola fará o filho ficar preguiçoso e desrespeitoso, porque ele não aprende a trabalhar duro desde cedo e também porque esse filho acaba passando muito tempo entre seus pares. Os pais evangélicos se convertem à religião e também à ideia de que a educação é um componente importante para a transformação da vida de sua família. Algumas igrejas do povoado ofereciam cursos de alfabetização para adultos que se sentem envergonhados nos cultos por não poderem ler a Bíblia. Mas a principal consequência dessa transformação é como esses pais passam se orgulhar de dizer que seus filhos estão estudando. E por causa desse apreço pela educação, a Internet passa a se tornar, para eles, uma ferramenta que complementa a educação formal.

P. Os adolescentes no seu livro aparecem angustiados com o "trabalho" de estar nas redes sociais. Não é preocupante essa captura?

R. Falo do adolescente vendo sua presença na rede social como um trabalho porque – como acontece também em grupos adolescentes das camadas médias e altas – há uma associação entre popularidade off-line e número de amigos ou seguidores online. Mas não acho que o problema que você aponta afeta especialmente adolescentes. Na verdade, talvez os adolescentes sejam os menos afetados porque– no caso dos do povoado – muitos têm essa ambição de ampliar suas fronteiras buscando contato com pessoas fora de seus círculos diretos. É comum a crítica de que o uso da Internet é ruim porque o jovem passa a escrever usando gírias e sem se importar em obedecer às regras gramaticais, mas o que vi é que eles aprendem a escrever com menos erros por pânico de passar vergonha na frente de seus pares nas redes. O uso da Internet é a primeira motivação real para eles aprenderem a ler e a escrever. Um dos motivos explícitos do encantamento que eles têm pelas redes sociais é que os pais deles têm muito menos educação formal e conhecimento tecnológico e, consequentemente, não conseguem acompanhar o que acontece ali, então os jovens tem mais liberdade de comunicação. É ali, por exemplo, que os evangélicos universitários se sentem seguros para manter vínculos com pessoas de outras religiões e visões de mundo, inclusive com seguidores das religiões de matriz africana. Eles fazem isso para combater a visão estereotipada que existe sobre evangélicos, e mostrar a seus colegas como eles não são alienados ou bitolados no que a Bíblia diz. O jovem, portanto, está mais aberto para circular por grupos diferentes enquanto os adultos estão mais circunscritos a determinados círculos sociais.

O antropólogo Juliano Spyer exibe seu livro.
O antropólogo Juliano Spyer exibe seu livro.

P. Quando aconteceu o caso do estupro coletivo no Rio divulgado nas redes muitos diziam que o material do vídeo era do tipo que circula muito mais do que sabemos. Seria uma falha na espécie de política de privacidade dos usuários que você detalha no livro: conteúdos envolvendo pessoas próximas são compartilhados com muito mais cuidado, usando até bluetooh. Na sua etnografia, você recebeu vídeos de locais que, no limite, eram crimes?

R. Esse é um aspecto da pesquisa de campo que discuto em um dos capítulos, mas que não pude aprofundar porque o que o conteúdo desses vídeos dificilmente pode ser mostrado fora desses contextos das trocas diretas, porque eles são moralmente muito chocantes e também pelos problemas legais que a exibição disso traria. Esse tipo de vídeo que você menciona é de um tipo comum, e há outras categorias além de temas relacionados a sexualidade como, por exemplo, de violência explícita. Conforme outros estudos sobre o Brasil também mencionam, esse aspecto da nossa cultura popular ecoa valores do mundo popular da Europa medieval estudados por Bakhtin, um teórico russo. Há muito conteúdo desse tipo que circula informalmente, mas ele reflete a rotina da vida envolta em muita informalidade, em que a violência em geral e a violência doméstica são parte do dia a dia. Não acho que a Internet amplie o tolerável.

P. Por quê?

R. O Brasil tem uma robusta produção acadêmica sobre as classes populares, mas esse conhecimento ainda está restrito a esses círculos de produção de conhecimento. Fora deles, as camadas escolarizadas continuam muito distantes do mundo popular. Como escreveu a antropóloga Claudia Fonseca, a nossa sociedade é tão segregada que o contato que temos com grupos populares geralmente se resume às conversas com a empregada e a situações de assalto. Esses vídeos chocam em parte porque eles não fazem parte da nossa realidade. Mas não defendo que isso justifique ou explique práticas como a do vídeo que você mencionou.

P. Você fez etnografia presencial clássica e por meio das plataformas e contrastou comportamentos para chegar a um retrato refinado. Não deveria ser um assunto de debate público que um monopólio privado, o próprio Facebook, tem parte dessas informações e muitas outras sobre esse mundo de gente?

R. Como você diz, o Facebook, que também é dono do WhatsApp, não apenas detém informações sobre pessoas como usa essa informação de maneira às vezes complicada. Vou usar um exemplo pessoal: por eu morar aqui no Reino Unido e ser leitor da revista The Economist, o algoritmo do Facebook “entendeu” que eu teria uma perspectiva conservadora da política. O Facebook hoje se permite “curtir” um conteúdo em nome do usuário, como a BBC já mostrou. Por causa disso, uma amiga me mandou uma mensagem no contexto dos debates sobre o Brexit perguntando se era verdade mesmo que eu tinha “curtido” o perfil da atual primeira ministra. Mas eu não fiz isso nem tinha sido notificado da curtida em meu nome que aparecia na linha do tempo dos meus contatos. A partir dessa experiência, fico pensando como isso será usado para influenciar as eleições no Brasil. Se essa maneira de manipular opiniões acontece em países ricos, onde a opinião pública tem mais força, no Brasil esse tipo de uso da plataforma deverá ser ainda mais explorado. Uma marqueteira da campanha Trump recentemente revelou à BBC que, no QG da campanha havia funcionários do Google, do YouTube, do Twitter e do Facebook trabalhando para aumentar a eficiência do uso dessas ferramentas. Não vejo por que seria diferente no caso brasileiro, tendo como consequência um possível acirramento da polarização e dando vantagem a quem tem maior orçamento.

P. O livro conclui dizendo que as redes ajudam o conservadorismo - e não só no Brasil. Você pode explicar? Por que isso acontece?

R. A narrativa “clássica” sobre a Internet é que ela expande os potenciais do indivíduo, e isso também acontece no povoado em que eu morei. Dei os exemplos dos evangélicos usando as mídias sociais como complemento à escola e dos jovens que via comunicação online têm maior autonomia. Ao mesmo tempo, a Internet também fortalece o conservadorismo que se manifesta pelo controle moral das pessoas, que via redes sociais ganharam novos espaços para se vigiarem e poderem atacar as reputações umas das outras. As camadas populares dependem muito de redes de ajuda mútua para viver e sobreviver à presença limitada de serviços governamentais. Mas essas redes de ajuda mútua existem junto com a prática das pessoas monitorarem e controlarem a vida umas das outras. Nesse sentido, a Internet fortalece práticas que resultam de valores tradicionais.

Série mostra semelhanças entre Brasil, Índia e China

Por que nós postamos? A pergunta norteou a série de livros Why we post do Departamento de Antropologia da University College London (UCL), no Reino Unido. Coordenada pelo antropólogo Daniel Miller, o esforço tem o ambicioso objetivo de mapear como as redes sociais estão mudando - e são mudadas - nos mais diferentes contextos em nove países, incluindo Brasil, China, Índia e Turquia.

"É interessante ver como há semelhanças entre grupos culturalmente tão distantes como brasileiros, indianos e chineses, e há distancia entre brasileiros pobres e ricos quando o tema são o uso das redes sociais", diz Juliano Spyer, responsável pelo livro brasileiro do conjunto." Ele diz que, enquanto as camadas médias e as elites de alguns dos países entendem que as mídias sociais distraem seus filhos das obrigações escolares, nos setores populares de Brasil, na Índia ou na China, "ver o filho na lan house , de certo modo, representa um domínio de novas tecnologias que, para os pais, tem mais possibilidades de se converter em trabalho e dinheiro do que ir à escola." 

Todos os livros da série são gratuitos, incluindo o que faz a comparação entre os países.

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