CAMILA VALLEJO | EX-LÍDER DO MOVIMENTO ESTUDANTIL CHILENO

“Temos o dever histórico de não permitir um novo Governo de Piñera”

A candidata ao Congresso chileno analisa o cenário político e diz sentir-se satisfeita com sua aposta na institucionalidade

A deputada e ex-líder estudantil chilena Camila Vallejo.
A deputada e ex-líder estudantil chilena Camila Vallejo.SEBASTIÁN UTRERAS

Passou de principal figura do movimento estudantil em 2011 a deputada em 2014. Camila Vallejo (Santiago do Chile, 1988) volta a se candidatar ao Congresso pelo distrito 12, da zona sul da capital. Depois de ter estado na oposição desde o retorno à democracia, seu partido, o Comunista, se somou aos governistas com a criação da Nova Maioria, a coalizão de Michelle Bachelet em seu segundo Governo (2014-2018). Em meio à campanha e a quatro dias das eleições parlamentares e presidenciais do domingo, nas quais a direita leva vantagem, a geógrafa analisa o cenário político e diz sentir-se satisfeita com sua aposta pela institucionalidade. “Valeu a pena entrar para lutar a partir do Congresso e brigar pela reforma educacional desde dentro”, afirma.

Vallejo teve, porém, de arcar com determinados custos. Os deputados Gabriel Boric e Giorgio Jackson, ex-líderes estudantis e dirigentes da nova coalizão de esquerda Frente Ampla, lideram as listas dos políticos mais bem avaliados. Já a deputada tem altos índices de rejeição.

“Não é o mesmo uma parlamentar que foi dirigente estudantil, da Nova Maioria e mulher que um parlamentar que foi dirigente estudantil, mas que é independente e homem”, explica em uma cafeteria do centro de Santiago. “Há muitas críticas feitas contra mim que têm mais relação com eu ser mulher, comunista e estar na Nova Maioria do que com o que faço.”

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Pergunta. Neste segundo Governo de Bachelet, foram feitas as reformas educacionais com as quais a senhora sonhava quando era dirigente estudantil?

Resposta. Comparando nossas petições de 2011 com o que avançamos, conseguimos mais de 90% de nossas demandas. Obviamente, há quem sempre quisesse avançar mais rápido ou que tivessem sido mais bem pensadas, mas sem dúvida alguma avançamos. A gratuidade na educação superior é o melhor exemplo: 257.000 pessoas estudam de graça. Em 2018 o benefício teria que chegar a 350.000.

P. Bachelet cumpriu as metas em matéria de educação?

R. Está cumprindo porque ainda precisa terminar seu mandato e temos três projetos de lei que estão em tramitação. Mas Bachelet começou a desmantelar a educação de mercado de Pinochet.

P. Depois de quatro anos a coalizão acabou fraturada, com dois candidatos presidenciais. A Nova Maioria fracassou?

R. Não, em absoluto. Foi uma convergência de forças políticas que entenderam a necessidade e responsabilidade de iniciar um novo ciclo de mudanças profundas no Chile. Quando você começa a questionar e romper com certos privilégios de classe nos quais não se mexia, as forças políticas se tensionam.

P. Não considera um desastre a ruptura do centro e da esquerda, dois setores que estavam unidos desde a oposição à ditadura?

R. Era uma das possibilidades. Não vejo como uma tragédia a mudança de correlação de forças, que uns saiam e outros entrem, que haja distanciamentos. Observo isso como uma dinâmica própria da política e não me assusta. Não vejo como algo perigoso. Era evidente que em um período de Governo onde nos pautamos por mudanças mais profundas, por buscar combater certos privilégios, o setor mais conservador da coalizão –que não está somente na Democracia Cristã– não iria estar á vontade.

P. Qual é sua opinião sobre o Governo de Bachelet que se encerra?

R. Foi um Governo com prós e contras. Não poderia dizer que 100% das coisas feitas são de meu total agrado. Mas valorizo profundamente coisas que conseguimos fazer em matéria educacional, trabalhista, tributária, dos direitos da mulher. Justamente porque foram dados passos importantes é que houve grandes complexidades. Ninguém pode esperar que ao se iniciar um processo de mudanças profundas as águas fiquem quietas.

P. A ideia de que no Chile a população vive um intenso mal-estar começa a ser posta em dúvida. Bachelet e sua coalizão erraram no diagnóstico?

R. Quando se conversa com qualquer pessoa na rua –seja de direita, esquerda, centro ou que não se defina politicamente–, todas têm um diagnóstico similar: que no Chile há desigualdade, injustiça social, concentração de poder, privilégios para muitos, que não foram garantidos direitos fundamentais para outros, que não se valoriza o esforço de muitas famílias trabalhadoras. O diagnóstico, portanto, continua se mantendo.

P. Mas o Governo tem o respaldo de 23%.

R. Provavelmente muitas das mudanças feitas ainda estão em processo de implementação e não chegaram a todos. Enquanto as mudanças não chegam às casas, não se valoriza a gestão de um Governo.

P. Se Bachelet e sua coalizão fizeram o diagnóstico correto, como se entende que a direita tenha altas probabilidades de conquistar La Moneda?

R. Estou certa de que vamos ganhar as eleições [com Alejandro Guillier]. Confio na visão elevada que as forças progressistas e de esquerda terão para se unirem no segundo turno.

P. Acredita de verdade que isso é possível?

R. Acho possível. Se não vier por iniciativa própria dos dirigentes das outras candidaturas presidenciais, grande parte dos militantes ou de pessoas independentes que apoiam os outros postulantes vai se dispor a votar em Guillier. Acho que uma parcela importante entende a responsabilidade histórica de não permitir que Sebastián Piñera governe novamente.

P. Acha que Piñera é um risco para o país, como disseram há algumas semanas no círculo de Guillier?

R. Um eventual Governo de Piñera significaria um retrocesso nos avanços que hoje em dia beneficiam uma grande parte de nossa população e reforçaria o grande problema que o Chile tem, que é a concentração do poder econômico e a libertinagem da classe empresarial.

P. Mas Piñera não é a direita fascista, como disse um dirigente democrata-cristão.

R. Está bem. Diante de uma candidatura presidencial como a de José Antonio Kast, que é obstinadamente fascista, Piñera aparece como mais moderado. Mas é preciso observar os partidos e dirigentes que o respaldam. A presidente da UDI [União Democrata Independente], por exemplo, insiste em proteger os presos de Punta Peuco [condenados por violações aos direitos humanos].

P. A direita está forte nestas presidenciais. Qual é a autocrítica da esquerda? O que não fizeram bem para fortalecer o respaldo social de seu Governo?

R. Acho que houve um grande problema político e comunicacional. Não houve uma estratégia comunicacional definida e decidida, sobretudo nos primeiros anos, para defender o que estávamos fazendo em todas as áreas. Por outro lado, a esquerda precisa fazer uma autocrítica transversal por nossa falta de capacidade para gerar espaços de convergência e de trabalho conjunto, apesar de nossas diferenças naturais.

“Coincidimos em muito com a Frente Ampla”

Pergunta. Qual sua opinião sobre a Frente Ampla, a nova coalizão de esquerda que aspira a substituir os governistas?

Resposta. O que está acontecendo me parece muito positivo e interessante. Nós no Partido Comunista tentamos durante muito tempo e nos custou muito gerar uma terceira força política de esquerda. Atualmente estão conseguindo fazer convergir um setor político e social que não tinha uma clara representação. Com a Frente Ampla temos muitas coincidências programáticas e visões estratégicas do futuro.

P. Os comunistas e a Frente Ampla estão unidos em um olhar crítico em relação à transição, liderada pelo grande arco de centro-esquerda que foi a concertação.

R. Foi uma transição muito longa e de reiteradas renúncias. Em várias oportunidades se renunciou a restabelecer e recuperar o que o povo tinha conseguido conquistar de maneira democrática.

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