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Kevin Spacey: a queda de um astro de Hollywood

Ator enfrenta acusações de abuso sexual e afirma que vai buscar "avaliação e tratamento"

Kevin Spacey em 23 de fevereiro, em Washington.
Kevin Spacey em 23 de fevereiro, em Washington. AFP

Poucos selaram tanto as portas de sua vida pessoal como Kevin Spacey. O talento do duas vezes ganhador do Oscar (coadjuvante por Usual Suspects e protagonista por American Beauty) é indiscutível. Spacey, de 58 anos, pode ser um grande conversador, capaz de arrancar gargalhadas com imitações perfeitas dos clássicos que tanto adora, como Jack Lemmon e Jimmy Stewart, mas também frio e cortante quando o assunto é sua vida pessoal.

Um silêncio que agora se volta contra ele desde que o também ator Anthony Rapp declarou publicamente que, há 31 anos, teve de fugir de um Spacey bêbado que o agarrou e se jogou em cima dele na cama. É o mais recente astro em queda de Hollywood na incessante cascata de denúncias (algumas à polícia, outras à imprensa; há casos recentes e de décadas atrás) na esteira do escândalo em torno do produtor Harvey Weinstein, acusado de abusar sexualmente de dezenas de mulheres.

Nem todos os casos têm a mesma gravidade, mas as informações e a atmosfera, entre a exigência de justiça e certo ar de perseguição, tendem a igualá-los. Spacey se desculpou pelo Twitter. Diz não se lembrar do incidente, embora a memória lhe tenha permitido ganhar dois Tony. Também declarou publicamente sua homossexualidade durante o incidente. Foi criticado por estar mudando o tema para esconder a acusação de pedofilia. Seu representante chegou a divulgar um comunicado dizendo que o ator vai procurar "avaliação e tratamento", sem especificar o que quer tratar.

Candidato ao Emmy em 11 ocasiões, a figura de Spacey é tão escorregadia como o Keyser Soze de Usual Suspects que o lançou à fama. “Segundo minha mãe, eu queria ser ator desde os sete anos”, recordava Spacey este ano em Los Angeles. Era um menino tímido que se esforçava para fazer a mãe rir. “Ela não teve uma vida fácil. Era quem sustentava a casa”, acrescentou. Não menciona o pai. Nem usa seu sobrenome. É um fantasma do passado. Autoritário e membro do Partido Nazista Norte-americano, abusou sexualmente da família — segundo Thomas Fowler, irmão de Spacey , mas não do ator. Para Spacey, seu único “pai” foi Jack Lemmon, o ator que o descobriu aos 13 anos em uma obra infantil.

Para o colega de escola Val Kilmer, educado na prestigiada Julliard School de Nova York, foi difícil alcançar a fama. Em 1986, ano do suposto incidente de assédio, era mais um na Broadway. Estava no elenco de Long Day’s Journey into Night, e Rapp, no de Precious Son. Foi Bryan Singer, diretor de Usual Suspects, que lhe abriu as portas do sucesso. No círculo cinematográfico se conhecia o gosto de Spacey e Singer. Eles eram mencionados com frequência por viver rodeados de belos acompanhantes. Em 2014, Singer enfrentou uma queixa de abuso sexual de menores, posteriormente retirada pelo demandante.

Comportamento impróprio

Rosie O’Donnell comparou o ator a Weinstein. “Como Harvey, todo mundo sabia de você e espero que mais homens se pronunciem”, declarou antes de conhecer as acusações de outros dois jovens, um garçom e um ator, que falam do comportamento impróprio de Spacey. Também há os que leem demais nas personagens que lhe deram fama. Do Lester Burnham de American Beauty, apaixonado pela amiga de sua filha, ao Francis Underwood de House of Cards, sedento de poder. Ou os que fizeram piada com seu segredo, como o comediante Seth McFarlane que, em 2005, mostrou um menino fugindo de Spacey na série animada Family Guy.

Os rumores sempre circularam, mas nunca afetaram a carreira de Spacey. Pelo contrário, sua fortuna é avaliada em quase 100 milhões de dólares (300 milhões de reais). Agora as coisas estão mudando. Pouco depois de estourar o escândalo, a Netflix anunciou que a sexta será a última temporada de House of Cards. Era algo que já se esperava desde que o criador, Beau Willemont, deixou a série. Na segunda-feira, a Netflix suspendeu as filmagens por causa de “preocupações” da equipe de uma série em que Spacey também é produtor. House of Cards pôs a Netflix no mapa da nova televisão conseguindo 53 candidaturas ao Emmy. A empresa já está tendo de lidar com o problema Harvey Weinstein. Em Londres, o teatro Old Vic, onde Spacey trabalhou como diretor artístico, instalou uma linha de telefone confidencial para quem se sentir vítima de algum comportamento impróprio na companhia.

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