Cortes na Saúde e falta de vacinas complicam combate à febre amarela em São Paulo

Especialistas defendem vacinação de toda a população brasileira, mas estoques não dão conta

Idoso é vacinado contra febre amarela em São Paulo.
Idoso é vacinado contra febre amarela em São Paulo.NELSON ALMEIDA (AFP)

Assim que o diagnóstico do macaco morto foi confirmado como febre amarela, a secretaria municipal de Saúde anunciou uma campanha de vacinação para os moradores do entorno dos parques da região norte, e afirmou que nenhum caso de transmissão para humanos foi registrado na capital. Milhares de pessoas correram aos postos de imunização, provocando longas filas. O panorama atraiu atenção também por causa da situação no Brasil: entre dezembro de 2016 e agosto deste ano, 777 casos do tipo silvestre da doença foram confirmados no país e 261 pessoas morreram em decorrência da doença, cujos sintomas incluem febre, calafrios, dores nas costas e corpo, náuseas, vômitos e fraqueza. Cerca de 20% das pessoas contaminadas costumam desenvolver a forma grave, com sintomas como hemorragia, e correm risco de morte. O Ministério da Saúde declarou em setembro, no entanto, que não há mais um surto da variedade em curso no país.

São Paulo tem aproximadamente 1,5 milhão de doses da vacina contra a febre amarela em estoque. O ministro da Saúde, Ricardo Barros, anunciou na semana passada o envio de mais 1,5 milhão de doses. O número é insuficiente para imunizar toda a população do Estado, que é de cerca de 45,1 milhões de habitantes. Mas é suficiente para atender à população de 447.461 habitantes dos três bairros da zona norte da capital que foram incluídos no plano emergencial da prefeitura (Casa Verde, Tremembé e Vila Nova Cachoeirinha). A ideia das autoridades é fazer uma espécie de zona tampão nestes bairros, evitando a contaminação de humanos e minimizando as chances de que os casos e espalhem pela cidade.

Mais informações

Nogueira, da Sociedade Brasileira de Virologia, afirma que o adequado seria imunizar toda a população brasileira, mas que não há estoque de vacina para isso. “Em 2015 países africanos passaram por um surto grave, e a comunidade internacional enviou suas doses para lá, inclusive o Brasil”, diz. Com relação à situação de São Paulo, Nogueira diz que “não há motivo para pânico, mas não está tudo sob controle”. Ele acredita que “a partir da situação do primeiro semestre, onde tivemos o vírus circulando na região de mata atlântica na região de Minas Gerais, Rio de Janeiro, Espírito Santo e Campinas, as autoridades não tinham argumento algum para não imunizar toda a população que não a falta de vacina”.

Itatiba, que fica na região de Campinas, interior de São Paulo, é uma das cidades que se mobilizam desde o início do ano para enfrentar a febre amarela. O sinal de alerta veio em janeiro, com o surto da doença no norte de Minas Gerais. O município paulista, que tem cerca de 115.000 habitantes, iniciou então uma força-tarefa de prevenção. Em apenas um mês de campanha, o número de pessoas vacinadas contra a febre amarela dobrou na cidade em comparação com o mesmo período de 2016. Porém, a campanha se intensificou no fim de março, baseada no mapeamento chamado de “corredor epidemiológico”, que é o caminho percorrido pelo vírus até chegar a uma localidade. Naquela ocasião, Campinas, que fica a 30 quilômetros do município, registrou três mortes de macacos por febre amarela em um distrito rural. Um protocolo preventivo a partir da detecção da ameaça por proximidade, algo que não aconteceu na capital São Paulo, por exemplo, que só lançou campanha de vacinação após registrar uma morte de macaco pela doença em outubro.

Durante todo o mês de abril, a secretaria de saúde de Itatiba adotou a estratégia de bloqueio da febre amarela na zona rural, onde há maior risco de contrair a forma silvestre da doença. A rotina de combate consiste em passar de casa em casa para vacinar os moradores e ampliar o monitoramento dos macacos infectados, que é feito de maneira conjunta, há oito anos, por 48 municípios da região de Campinas e Jundiaí. “A forma mais eficaz de se combater a febre amarela é evitar que o vírus chegue às áreas urbanas, isolando-o com um trabalho preventivo nas comunidades rurais. Dessa forma, criamos um cinturão de controle e estamos alcançando êxito no enfrentamento à doença”, afirma Fábio Luiz Alves, médico sanitarista da Unicamp e secretário de saúde de Itatiba. A meta em Itatiba é vacinar 109.000 pessoas até o fim do ano, mais de 90% da população. Apesar do esforço de prevenção, um homem de 76 anos, morador da zona rural, morreu de febre amarela na cidade no último dia 17.

A falta de estoque da vacina não é o único problema para vacinar toda a população paulistana. “A Bio-Manguinhos, que é da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), produz quase 80% do total mundial da vacina. Mas a Fundação foi dilapidada financeiramente nos últimos anos, como tudo o que tem relação com pesquisa, saúde publica e ensino no país”, afirma o virologista Nogueira, referindo-se ao contingenciamento orçamentário proposto pelo Governo. O orçamento destinado ao Instituto este ano foi 300 milhões de reais menor do que o de 2014. A Fundação tem pesquisas voltadas para o estudo de diversas doenças tropicais, como o vírus da zika, dengue, chikungunya, febre amarela, entre outras. “A verba nunca foi suficiente, mas conseguiu ficar pior”, afirmou ao jornal O Estado de São Paulo Oswaldo Gonçalves Cruz, bisneto do fundador do Fiocruz.

Diferenças entre febre amarela silvestre e urbana

A Coordenadoria de Controle de Doenças (CCD) da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo destaca que a forma silvestre da doença que foi registrada em Jundiaí, Campinas e São Paulo não pode ser controlada, pois ela circula por zonas de mata. “Por enquanto, é só o macaco. Existe possibilidade no futuro dos humanos que forem para a mata serem contaminados, por isso trabalhamos a imunização de pessoas que vão para a mata e que moram na região, e isso pode ser feito com tranquilidade”, afirma Marcos Boulos, coordenador do CCD. O tipo silvestre da doença, que matou o macaco no Horto, é transmitido por dois tipos de mosquitos, o Sabethes e o Haemagogus. Ambos têm pouca autonomia de voo, o que impediria que se afastassem da mata e se deslocassem para as regiões mais urbanizadas da capital. No Estado, apenas em 2017, foram registrados 22 casos que levaram a dez mortes, todos vítimas do tipo silvestre da doença.

Boulos ressalta que é improvável que aconteçam casos da forma urbana da doença, transmitida pelo Aedes aegypti, que não é registrada desde 1942. “O ano passado, com o surto de Minas Gerais, notamos que o Aedes aegypti perdeu a capacidade de transmitir a doença”, conta. No Estado de São Paulo, 488 cidades possuem orientação permanente ou temporária de vacinação para prevenir a doença. Boulos destaca que a região da capital e de Campinas são as mais deficientes em promover a imunização dos pacientes. Ele prevê que no próximo ano a vacina entrará no Calendário Nacional de Vacinação.

Mais informações

Arquivado Em

Recomendaciones EL PAÍS
Logo elpais

Você não pode ler mais textos gratuitos este mês.

Assine para continuar lendo

Aproveite o acesso ilimitado com a sua assinatura

ASSINAR

Já sou assinante

Se quiser acompanhar todas as notícias sem limite, assine o EL PAÍS por 30 dias por 1 US$
Assine agora
Siga-nos em: