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ENTREVISTA

“Gentrificação não é só negativa, também é o motor para a redefinição do urbano”

Bjarke Ingels representa como poucos a figura do arquiteto famoso. Seus edifícios em formato de floco de neve e pirâmide são concebidos mais como bairro do que como imóvel

“Gentrificação não é só negativa, também é o motor para a redefinição do urbano”

Quando a arquitetura espetacular deixou de espantar e assustar e foi substituída como modelo pela vertente sustentável, o dinamarquês Bjarke Ingels (Copenhague, 1974) descobriu a fórmula para conciliar as duas tendências: “Alguns de nossos projetos inovadores são para o mundo dos poderosos, mas temos outro lado às pessoas que não estão contentes com os modelos arquitetônicos existentes. Hoje a sede tecnológica convive com a sede de natureza”. O criador das sedes do Google em San Francisco e Londres assinou o projeto de cinco edifícios em Manhattan, incluindo a torre do World Trade Center que substituiu o projeto de Norman Foster. No ano passado foi eleito uma das 100 personalidades do ano pela revista Time. Há 12, fundou o estúdio BIG, que hoje tem mais de 400 funcionários. Atribui sua ousadia à sua falta de preconceitos, enquanto toma uma cerveja em Pamplona durante um congresso organizado pela Fundação Arquitetura e Sociedade. É um expoente de destaque da figura do arquiteto famoso contemporâneo.

O floco de neve, o labirinto... Os apelidos de seus edifícios refletem a infantilização da arquitetura? Tentamos não repetir o que já existe. Em vez de colocar novos usos em velhos moldes tentamos averiguar o que irá acontecer. Em Nova York contrataram uma agência para que procurasse nomes a um de meus projetos. Chamou o edifício de Via 57, mas as pessoas se referem a ele como “a pirâmide”. Foi assim que nós o batizamos.

Por que a arquitetura deve se reinventar? Precisamos de alternativas à moradia com jardim e ao apartamento na cidade. E nascerão da mistura. Le Corbusier já fez uma tentativa dedicando um dos andares ao comércio em edifícios de apartamentos. A diversidade cria a possibilidade da diferença. É preciso aceitar o diferente.

O floco de neve. Hospital psiquiátrico, Helsingør, 2005.
O floco de neve. Hospital psiquiátrico, Helsingør, 2005.

O diferente precisa ser fotogênico? Em formato de floco de neve? Repensar a arquitetura significa estar preparado para aceitar extravagâncias. Não nos interessa a definição de beleza como proporção. Não queremos disfarçar os edifícios de normalidade. Esse formato de floco de neve é o mais eficaz à organização de um hospital. As linhas precisas de meus edifícios têm a ver com a claridade das ideias que foram desenvolvidas neles. Qualquer coisa que expresse sua natureza real é atrativa.

O que o fez ter o caráter inesperado e desinibido que seus projetos revelam? Cheguei à faculdade sem saber quase nada de arquitetura. Nem mesmo queria ser arquiteto. Mas uma vez lá tentei entender a disciplina olhando-a sem preconceitos. O bom selvagem tem sempre outro ponto de vista.

“Nem mesmo queria ser arquiteto. Cheguei à faculdade sem saber quase nada da disciplina. Mas uma vez dentro, tentei entendê-la sem preconceitos”

A maneira como seus edifícios envelhecem o preocupa? Sim. Os materiais nobres envelhecem melhor do que os materiais baratos. Mas uma solução passa por conviver com a natureza: a vegetação subindo pelas fachadas as embeleza. É verdade que nossos edifícios iniciais eram muito econômicos e poderiam ter envelhecido melhor se fossem construídos com outros materiais. Suas localizações, entretanto, se transformaram em bairros bem-sucedidos e seu valor imobiliário aumentou.

Antes de se transformar em arquiteto, você desenhou quadrinhos. Em um deles, recriou a história da arquitetura moderna e se nomeou o herdeiro direto de Mies, Le Corbusier e Koolhaas... Foi o primeiro livro. Os de arquitetura costumam sem chatos, não prendem o leitor. Algo que contrasta com as visitas à obra: quando um arquiteto te explica o que faz, costuma fazê-lo com paixão. Pensamos que havia um terreno a explorar nesse paradoxo. Queríamos explicar as histórias por trás das imagens, e um quadrinho é mais fácil de acompanhar do que um livro ilustrado.

O que você fez para conseguir se equiparar com estrelas da arquitetura mundial e projetar – com Thomas Heatherwick – os edifícios do Google? Acho que fui inovador.

Por que as grandes empresas do mundo – Google, Apple e Facebook – encarregaram arquitetos famosos de projetarem edifícios isolados em vez de construir as marcas urbanas que caracterizaram as cidades do século XX? Acho que sua forma de pensar é antiquada. Sou de Copenhague e precisei superar o centrismo que significa identificar a cidade somente com as belas ruas que rodeiam o centro histórico. A cidade, e o urbano, é muito mais. Uma porcentagem muito pequena mora no centro. Essas empresas não nasceram nas cidades, e isso abre um mundo a se explorar que me interessa. Para o Google fizemos um edifício que ao mesmo tempo é um bairro. Terá lojas e restaurantes. E os moradores poderão entrar para comprar e passear.

A 8 House, bloco de moradias em Copenhague, Dinamarca, 2007.
A 8 House, bloco de moradias em Copenhague, Dinamarca, 2007.

Passando por controles de segurança? Com diversos níveis de segurança. A diversidade é boa, mas complexa. Nosso projeto para o Google venceu com uma ideia precisa: quando as empresas empregam 30.000 pessoas não podem ter um edifício, precisam ocupar um bairro. E nos bairros é preciso existir de tudo para que sejam urbanos e façam parte da cidade.

O que acontecerá com as cidades se as empresas poderosas não apostarem nelas? Entre os anos sessenta e oitenta, muitos centros urbanos sofreram o abandono da população: queríamos uma casa com jardim. Nas últimas décadas, os centros voltaram a se encher de gente. Resultado: aluguéis impagáveis. É quase impossível morar no centro de Londres e Copenhague. Isso faz com que a ideia de cidade deva ser redefinida.

O que faz uma cidade ser o que é? As pessoas. Veja como determinados grupos de artistas se mudam para viver em bairros mais econômicos e essa concentração causa urbanidade. Quando as pessoas chegam a um lugar e se instalam nele, esse lugar melhora, se desenvolve. O processo de gentrificação é sempre descrito como negativo, mas é também o motor para a redefinição do urbano.

Você trabalhou com Rem Koolhaas durante um ano e meio. O que aprendeu com ele e o que gostaria de evitar? Ele teve uma influência radical em minha carreira. Ele enxerga o mundo como realmente é e não como achamos que é. Tenta olhar. A cidade não é só o grandioso, também é o medíocre. Essa atitude é fundamental. Eu me interesso pelo mundo em toda a sua extensão.

O que evitaria do legado de Koolhaas? Ainda é, indubitavelmente, um dos arquitetos mais relevantes do mundo. Mas acho que o que tentei fazer de outra forma tem a ver com minha felicidade pessoal. Gosto de estar alegre e compartilhar essa disposição com as pessoas que estão ao meu lado. Acho que a alegria dá energia.

O trabalho é a sua vida? Tenho uma vida além do trabalho, claro que sim. Ainda não tenho filhos. Mas... o mais provável é que tenha filhos espanhóis. Minha namorada é de Madri.

É arquiteta? Sim. Mas há muito tempo não namorava uma arquiteta. Fui ao festival de Nevada com um amigo em um avião de 12 lugares. Uma jovem muito bonita se sentou diante de mim. E começamos a conversar.

Seu pai é engenheiro. Sim, faz fibra óptica.

Corre o rumor de que é um homem poderoso dono de veículos de comunicação. Receio que seja só engenheiro. Devo estar fazendo alguma coisa certa para que inventem lendas sobre mim [ri].

Sua mãe é dentista. Sim.

Museu Marítimo da Dinamarca, Helsingør, 2013.
Museu Marítimo da Dinamarca, Helsingør, 2013.

Como você chegou à arquitetura? Acho que era meu destino. Tenho dois irmãos. A mais velha se dedicou à música. É uma boa pianista. O mais novo é bom em matemática e se transformou em um grande jogador de pôquer. Eu estudei piano, mas não era o que queria fazer da vida. Desenhar é meu superpoder. Foi assim durante minha infância: no jardim da infância, no colégio. Eu era sempre o melhor desenhando.

Quer ser o melhor arquiteto? Quero ser eu mesmo. Acho que a arquitetura precisa entender a criatividade de outra maneira, não só formalmente. Steve Jobs disse que de cada 20 engenheiros um é artista e os outros são engenheiros. Acho que isso pode ser aplicado à arquitetura, ao basquete e ao ensino. Um professor que é um artista pode mudar as pessoas.

Você se vê como um artista? Eu me vejo como alguém capaz de mudar as coisas. Alguém disposto a esse esforço. A arquitetura pode ser uma arte, mas a arte atual deve ser transformadora.

Para a Exposição Universal de Xangai você quis exibir a estátua da Pequena Sereia dinamarquesa afirmando que era mais sustentável transportá-la do que levar 1,3 bilhão de chineses a Copenhague para que a vissem. Nosso edifício tentava mostrar o divertido, saudável e sustentável que é chegar ao centro da cidade pedalando em vez de passar horas sentado dentro do carro em congestionamentos. A sustentabilidade não era A Pequena Sereia, era a ventilação natural que o edifício propunha. Tentava enfatizar o lado não somente necessário, mas também plácido da sustentabilidade. A Pequena Sereia era uma propaganda. Enviar a escultura a Xangai significaria admitir que na Europa podemos ter todas as maravilhas do mundo, mas se os chineses vêm para cá vê-las não poderão se sustentar por muito tempo.

A experiência de ir à Dinamarca é um pouco mais do que ver A Pequena Sereia. Claro. E é melhor ver a Mona Lisa em Paris do que em Pequim. Mas 1,3 bilhão de pessoas não podem ir a Paris vê-la. O turismo é um campo a se reinventar. A arte pode se movimentar. E movimentá-la também significa a transmissão de outros valores como a generosidade e a confiança.

“Nesse trabalho, existem mais coisas fora do controle do arquiteto do que sob seu comando. Se não há cliente, não se constrói um projeto”

A arquitetura pode se transformar em piada? Diga de outra maneira: até mesmo os arquitetos podem contar piadas. Deveria ser permitido, como também a outros profissionais.

Não existem profissões menos engraçadas do que outras? Um edifício, como uma operação, não pode ser uma piada. Mas o humor não é contrário à qualidade. Normalmente as pessoas divertidas são inteligentes. Somente quem é capaz de pensar com rapidez pode ser divertido. Uma ideia brilhante, não somente em arquitetura, começa sempre com algo que sabemos reconhecer. O inesperado vem depois. E para ser brilhante, o surpreendente precisa fazer sentido. É verdade que em nosso estúdio gostamos de fazer brincadeiras. Mas continuamos só com o que continua sendo interessante quando paramos de rir.

Você substituiu Norman Foster para construir em Nova York o edifício World Trade Center 2. Aquele quadrinho em que você brincava com o fato de ser o herdeiro de Le Corbusier está se transformando em realidade? Bom... [risos]. Parece simbólico que nossa ideia substitua a de Foster, mas o que aconteceu é que seu projeto ficou 10 anos parado e um novo construtor nos chamou.

O que fez com que o seu edifício fosse construído e o de Foster não? O nosso funciona melhor.

Como sabe se o de Foster não chegou a ser construído? Foram os problemas que fizeram com que não fosse construído.

Não era uma questão simbólica? A torre de Foster era bastante simbólica.

A pirâmide. Via 57, Nova York. 2016.
A pirâmide. Via 57, Nova York. 2016.

Foster será sempre mais sóbrio do que você. Suponho que sim, mas tinha detalhes pouco práticos. Acho que foi projetado para um tipo de promotor que não é atual. Acontece muito. Nós ganhamos o concurso para fazer a Biblioteca Nacional de Astana, no Cazaquistão. Anos depois decidiram que queriam um edifício de Foster e começaram a levantá-lo sobre nossos alicerces.

A arquitetura é um mundo de predadores? No mundo da arquitetura existem muito mais coisas fora do controle dos arquitetos do que sob seu comando. Não importa o quão maravilhoso o edifício é; se não existem clientes, não se constrói.

“Gentrificação não é só negativa, também é o motor para a redefinição do urbano”

Sua arquitetura transmite uma imagem otimista e o que conta é o contrário. Viu o filme A Vida É Bela? A vida está cheia de problemas e de possibilidades. Sua atitude decide se vê o copo cheio ou vazio. Existiu um momento, após o Guggenheim de Bilbao, que Gehry e Zaha Hadid conseguiram mais trabalhos do que nunca. Depois veio a crise financeira e o retorno ao essencial. É uma reação comum. Mas hoje a arquitetura é um território eclético. Cabem muitas opções. E não é o estilo o que marca as propostas, são as intenções. Nós fazemos trabalhos quase contrapostos: projetos inovadores ao mundo dos poderosos, mas temos outro lado às pessoas que não estão contentes com os modelos arquitetônicos existentes. A sede tecnológica convive com a sede de natureza, e a arquitetura deve refletir isso sem precisar elogiar suas fontes.

O que mais você faz além de ser arquiteto? Investi em uma empresa que produz grafeno, um material fascinante, um carbono mononuclear que é mais transparente do que o vidro, 200 vezes melhor condutor do que o cobre e 100 vezes mais resistente do que o aço. Quando o grafeno for comercializado, veremos muitas coisas mudarem e avançarem. Será fascinante.

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