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Estudo da desigualdade... no Tinder

Você é um cara que recebe uma curtida a cada dez curtidas que faz no Tinder? Você pertence a uma casta

Estudo da desigualdade... no Tinder

Você é um cara que recebe uma curtida a cada dez curtidas que faz no Tinder? Se a resposta é sim, parabéns. Você pertence a uma casta. Elite extrativa. Classe alta. Como quiser chamar. De qualquer forma, você está extremamente próximo do topo da pirâmide desse acasalamento asséptico, ultrarrápido e geolocalizado de que podemos desfrutar em 2017.

O mundo não é justo em quase nenhuma de suas variantes. O nível de vida e de educação dos nossos pais é o melhor indicador do nosso futuro nível de vida e educação. Aqueles que têm mais dinheiro costumam ganhar ainda mais dinheiro com o tempo e, de passagem, contratam advogados para pagar menos impostos. A desigualdade é uma das principais questões da profissão econômica deste início de século. Se não for a principal.

Hoje estamos falando de outra desigualdade. O Tinder. Mais grave do que a desigualdade de renda; de fato, de acordo com o autor do estudo do qual partimos, o Tinder é mais desigual do que 95% dos países do mundo, superado apenas por alguns paraísos da igualdade de oportunidades como África do Sul, Namíbia, Angola, Guiné Equatorial ou Haiti.

A experiência começa a partir de uma ideia simples: analisar o mundo do Tinder como se fosse uma economia e as curtidas fossem dinheiro. Quem tem mais curtidas, tem mais dinheiro... Acho que dá para entender, mas, como o Tinder não fornece dados sobre isso, a experiência foi feita por meio de consulta a uma amostra de 27 mulheres. O resultado é que os homens recebem uma curtida em 12% das ocasiões. Um estudo anterior, realizado em colaboração com o Tinder, calcula essa taxa de resposta em 14%.

Agora, nem todo mundo recebe as mesmas curtidas: no caso dos rapazes, 20% deles recebem 80% das curtidas. No caso das meninas, embora a probabilidade de receber uma curtida seja maior, a distribuição também é desigual: 22% delas receberam 78% das curtidas. A partir desses números, calcula-se a distribuição da “renda” (as curtidas) e o índice Gini, a medida mais utilizada em economia para aferir a distribuição de renda. Um índice 0 seria a igualdade perfeita e 1 a desigualdade perfeita (uma pessoa tem 100% da renda). O índice Gini do Tinder é 0,51; a Espanha tem 0,35, os EUA 0,41, mais do que qualquer Estado da UE. A partir dessa distribuição também se pode inferir a posição de cada um no mundo do Tinder.

A vantagem delas é clara; em um cruzamento aleatório é 6,2 vezes mais provável que ele clique no curtir do que ela. Este gráfico representa a vantagem relativa de cada sexo: nos eixos está a posição relativa de cada indivíduo no ranking de atraente, e a linha representa onde se estima que a probabilidade de receber uma curtida esteja equilibrada.

Assim, embora a taxa de resposta média para um rapaz seja de 12%, poucos homens gozam de tanta aceitação: um rapaz que esteja exatamente no meio da distribuição (na mediana, como se explica em estatística, aquela com igual número de rapazes com melhor e pior posição no Tinder do que ele) só recebe 0,87% de curtidas. Isso também acontece no mundo real; a média é sempre maior do que a mediana: na Espanha, o salário anual médio é de 23.000 euros por ano (bruto), mas o mediano é 15% menor, de 19.466 euros.

Infelizmente, não é um estudo muito científico: não foi publicado em nenhuma revista, seu método (perguntar anonimamente por meio, exatamente, do Tinder) e o tamanho da amostra não seriam aceitáveis. Tomemos os resultados com a devida prudência. Mesmo assim, os resultados parecem coerentes tanto com a experiência de cada um de nós quanto com a estranha obsessão dos filmes americanos pela escola, a líder de torcida e o quarterback.

Ao contrário do mundo real, no Tinder não há nenhum mecanismo de redistribuição de curtidas (ou rendas), tipo impostos ou renda mínima universal. Poderíamos até pensar no Tinder como uma metáfora do mercado, perfeito e asséptico no papel, mas com evidentes falhas de informação (como a ausência de garantias sobre o sexo real da contraparte). Ou nos concorrentes do Tinder que usam algoritmos para cruzar humanos como uma espécie de economia planejada. Ou que um mecanismo de alocação no qual todos os agentes têm o mesmo objetivo em um jogo de tudo ou nada tem uma eficácia discutível. Como já nos explicou o personagem de John Nash no filme Uma Mente Brilhante. Adam Smith estava errado.

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