Visitar (e ajudar) povoados ancestrais do Vale Sagrado

Parceria sustentável com empresa de turismo gera recursos a comunidades dos Andes peruanos

Membros da comunidade de Viacha, no Vale Sagrado (Peru), expõem diversos tipos de batatas e artesanato
Membros da comunidade de Viacha, no Vale Sagrado (Peru), expõem diversos tipos de batatas e artesanatoPABLO LINDE

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O Vale Sagrado, localizado no departamento de Cusco, foi o coração do império inca, que chegou a englobar terras desde o que é hoje o sul da Colômbia até a Argentina e o Chile. Ali foi erguido Machu Picchu, símbolo daquela civilização, uma das maravilhas do mundo e um dos monumentos mais visitados da América Latina. Tendo-o como destino, milhares de turistas percorrem esse território montanhoso, que chega a registrar picos com mais de 4.000 metros de altura. Ou, melhor dizendo, transitam por alguns de seus pontos turísticos. Há um grande contraste entre os povos que, por estarem em área de passagem ou próximos às ruínas mais atraentes, se abriram aos visitantes e os outros que, a não muitos quilômetros de distância, ainda vivem isolados dessa agitação, com um cotidiano que não é muito diferente daquele de seus antepassados de um ou dois séculos atrás.

A comunidade dos Huacahuasi é um deles. Pelo menos era, até que chegou ali a pousada de montanha. Na verdade, ela está no meio do caminho: não se transformou em um ponto de passagem muito frequentado, mas já começa a se beneficiar com o turismo que chega ao vale. E era justamente esse o objetivo da Mountain Lodges, uma empresa que queria oferecer às comunidades opções para que compartilhassem dos benefícios do turismo – elas ficam sócias do empreendimento e seus membros trabalham nele — e ao mesmo tempo proporcionar um diferencial para aqueles que atravessam as montanhas, algo mais próximo dos costumes locais e com “conforto”, como diz Felipe Umbert, um de seus fundadores. Uma mistura complicada de realizar em pontos distantes dos lugares mais visitados e onde praticamente a única opção, até agora, eram a mochila e a barraca.

Para conseguir isso, o que se oferece é uma via alternativa às mais comuns que levam a Machu Picchu. A mais popular é fazer o caminho Inca, uma trilha de 43 quilômetros que era usada para ligar Cuzco ao santuário. Costuma-se levar de 3 a 5 dias para percorrê-lo, com paradas no meio do percurso para dormir em barracas. Há várias outras opções, como a do Vale de Lares, parando em outras ruínas menores até chegar a Ollantaytambo, onde se pega um trem para ir ao vilarejo mais próximo da cidadela: Aguas Calientes. De lá, um ônibus segue até as ruínas. É nesse ambiente, onde vivem espalhadas em pequenas comunidades pouco mais de 7.000 pessoas, que se estende uma das trilhas propostas pela Montain Lodges, à qual se somam rotas a pé pelas montanhas com paradas em alguns povoados para ver de perto sua cultura, tradições e gastronomia.

A comunidade dos Huacahuasi não se transformou em um ponto de passagem muito frequentado, mas começa a se beneficiar do turismo que chega ao vale

Aly Ponce de León, um dos guias que traçou as rotas para a empresa, conta que sua missão era definir um percurso que mostrasse aos visitantes todo o encanto do Vale Sagrado, mas evitando os caminhos mais percorridos pelos turistas. “Não podemos patentear uma rota. Quem quiser poderá fazê-la aqui. Mas essa que definimos se distancia da agitação”, explica ele. E, de fato, isso foi conseguido. É possível caminhar horas a fio sem ver ninguém entre as geleiras que ainda existem ou sob os picos avermelhados, que é a cor que eles adquiriram depois que o gelo que os encobria durante décadas derreteu. Hoje em dia, isso é muito frequente por causa dos efeitos da mudança climática. “Até 15 anos atrás isso tudo eram geleiras”, afirma Aly, apontando para as montanhas avermelhadas.

As poucas pessoas com as quais se cruza no caminho são moradores locais que vivem da agricultura e da pecuária nessas terras, ou seus filhos, que aos seis ou sete anos de idade já percorrem as trilhas em grupos, com os rostos queimados pelo sol andino e pedindo pequenas doações aos estrangeiros com o castelhano limitado que sabem utilizar. O idioma materno da maioria dos habitantes do vale é o quechua. Nessa língua, um dos caminhantes conta ao guia que, neste ano, não está fazendo frio o bastante para produzir chuño, um dos alimentos ancestrais que ainda constituem uma das principais fontes de alimentação para os nativos. Trata-se de um derivado da batata, um tubérculo que se encontra no Peru em mais de 4.000 variedades. Nessa região, é comum que um agricultor trabalhe com mais de 40 delas. Algumas, entre junho e julho, são deixadas para congelar durante as noites e tomar sol durante os dias. Conforme esse processo vai se repetindo, a batata vai se desidratando, até que, passados 20 dias, chega a hora de amassá-la para conservá-la durante meses; pode-se comê-la até mesmo alguns anos depois disso. Esse é o chuño, que as populações não estão conseguindo produzir por causa das temperaturas elevadas deste ano.

As trilhas da Mountain Lodges possibilitam que se caminhe horas a fio pelo Vale Sagrado sem cruzar com nenhum turista
As trilhas da Mountain Lodges possibilitam que se caminhe horas a fio pelo Vale Sagrado sem cruzar com nenhum turistaPABLO LINDE

Por esse percurso, em meio a picos nevados, a outros derretidos, passando pelas pessoas que habitam no seu entorno, é que se chega às pousadas de montanha. Na da comunidade Huacahuasi, trabalha Juan Castillo, 26 anos, cuidando atualmente da arrumação e limpeza dos quartos. Ele foi um dos que se posicionou várias vezes contra a instalação da empresa em suas terras. “Não confiávamos neles, achávamos que queriam nos enganar”, explica. Antes disso, ele se dedicava principalmente ao cultivo da terra e trabalhava como carregador no caminho inca, o que lhe rendia “mais ou menos o mesmo” que o trabalho na pousada, mas com a desvantagem de ter de se afastar de casa durante alguns dias e para executar uma tarefa “muito mais ´pesada”. Todos os membros da comunidade que desejarem podem integrar os turnos de trabalho do hotel, depois de passar por uma formação básica em hotelaria. O choque cultural entre os turistas que percorrem o planeta e os membros da comunidade, que em muitos casos jamais saíram dela, é inevitável. E também faz parte do encanto. Castillo responde às perguntas do jornalista erguendo os olhos com timidez, em um castelhano limitado e buscando em quechua a intimidade dos colegas que o rodeiam e com os quais ri bastante, exibindo os acabamentos em ouro de seus dentes.

Com uma postura como essa, depois de dois anos trabalhando com turistas, não é difícil imaginar como foi a recepção aos empresários. E isso sendo que eles chegaram pelas mãos da ONG local Arariwa, que trabalhara durante anos na região, para que se facilitasse o contato. Depois de muito diálogo, conseguiu-se convencê-los. Logo de cara, já foi oferecido que eles fossem sócios em 20% do negócio. “Pelos terrenos que eles ocupam, a eles caberiam 3% ou 4%, mas isso não seria uma sociedade de verdade. Nosso objetivo é que eles constituam uma parte importante dela”, afirma Umbert, um dos fundadores. Em 2016, a comunidade recebeu cerca de 100.000 dólares de dividendos. A ideia do empresário é que esse valor dobre dentro de alguns anos. “Isso equivale a várias vezes o seu PIB”, afirma.

Agora já existem várias outras comunidades vizinhas interessadas em que a próxima pousada seja erguida em suas terras. Mas não foi fácil chegar até aqui. Depois das mais de 30 assembleias com resultados negativos, finalmente o “sim” foi aprovado. Mas os empresários cometeram um erro. Queriam montar um escritório enquanto as obras eram feitas, e, diante da negativa da comunidade em ceder um espaço, procuraram um dos membros para que se ocupasse uma parte de sua casa em troca da realização de algumas benfeitorias, como um piso novo, instalação elétrica e de água... Algo que se viu como uma ofensa a um povoado onde a comunidade é tudo. Longe do Estado, as normas são as que eles mesmos estabelecem, e as decisões são tomadas de forma coletiva, em assembleias. Um membro não pode isoladamente encampar uma proposta como essa sem contar com o apoio dos outros. Os investidores ignoravam isso, o que não era o caso, porém, do habitante em questão, que acabou tendo de se submeter a um julgamento público na praça local, onde havia um chicote reservado para a execução da sentença.

“Nesse mesmo foro público, a céu aberto, sob o sol, explicamos que não tínhamos agido com má fé. Conseguimos conquistar o respeito deles afirmando que também respeitávamos aquele grupo de pessoas, com sua própria forma de governar e seus códigos de conduta. Os dois lados tinham o que aprender um com o outro. Foi uma lição preciosa: você precisa conhecer muito bem uma cultura antes de começar a agir. E isso foi um divisor de águas. Hoje existe uma harmonia maravilhosa”, conta o executivo da Mountain Lodges Peru.

Essa proposta de integração entre as comunidades locais e o turismo responsável cativou o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) – que tornou possível esta reportagem. “Gostamos muito do projeto por causa da participação direta da comunidade na sociedade das pousadas. Contribuímos com uma assistência técnica para o modelo de negócio, pois é muito difícil desenvolvê-lo em um contexto como esse”, explica José Quiñones, da Corporação Interamericana de Investimentos (que faz parte do BID).

Um elemento que pareceu particularmente interessante para o banco, que, além disso, financiou todo o projeto, com sete milhões de dólares, é a alternativa apresentada em contraposição a uma situação muito frequente em locais turísticos desse tipo: em vez de acabar deslocando as populações, que costumam acabar se retirando por causa do aumento dos preços, favorece-se uma situação em que elas permanecem e acrescentam novas qualidades ao turismo. “O valor do terreno que elas trazem é baixo, mas, mediante a sua participação societária, reconhece-se um aporte cultural mais abstrato, o turismo de convivência, com o qual se pode conhecer uma comunidade que preserva as suas tradições”, argumenta Quiñones.

Dentro desse espírito, o visitante pode, por exemplo, ver como se prepara uma pachamanca, prato tradicional presente nas festas da região. Na montanha andina, enterram-se as carnes de porco, frango e cuy (coelho da Índia) em um local onde antes se acendeu uma fogueira, para deixar que sejam cozidas junto com batatas de todos os tipos e outros ingredientes. Francisco Collo, 56 anos, membro da comunidade de Viacha, prepara o prato vestindo um traje especial, o mesmo que usa quando vai ao mercado vender os produtos de sua horta todas as segundas-feiras. Antes, esse era o seu único contato com pessoas de fora da comunidade. Agora, ele recebe os turistas que chegam em busca desses exotismos culinários a mais de 4.000 metros de altura.