O ‘sprint final’ de Janot para gastar suas últimas flechas

O procurador geral da República se despede denunciando em apenas 10 dias os três últimos presidentes

Rodrigo Janot, nesta quinta-feira.
Rodrigo Janot, nesta quinta-feira.ADRIANO MACHADO (REUTERS)

Pouco antes da última sessão plenária no Supremo Tribunal Federal durante o mandato de Rodrigo Janot como procurador-geral, nesta quinta-feira, o ministro Gilmar Mendes disparou a seguinte frase sobre o colega: “Que saiba morrer quem viver não soube”. A frase soou como uma súplica para quem, na verdade, vinha correndo contra o tempo para justamente continuar fazendo as coisas e vivendo à sua maneira. Um sprint final que começou há exatos 10 dias, quando Janot apareceu na televisão para anunciar que os executivos da JBS, entre eles o empresário Joesley Batista, haviam omitido fatos “gravíssimos” em suas delações premiadas, algo que poderia anulá-las. Vislumbrava-se então uma reta final cheia de obstáculos e buracos, mas nesta quinta-feira Janot conseguiu cruzar a linha de chegada atirando suas últimas flechas, como planejara: denunciando o presidente Michel Temer e outros políticos do PMDB por obstrução de justiça e organização criminosa.

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Entre o constrangedor anúncio, no último dia 4 de setembro, e a apresentação das últimas denúncias nesta quinta-feira, dia 14, uma avalanche de fatos se sucederam. Já no dia 5, Janot denunciou políticos do chamado quadrilhão do PT, entre eles os ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, além de cinco ex-ministros, por formação de organização criminosa. Pelo mesmo motivo também denunciou, naquele mesmo dia, 12 políticos do PP. A acusação mais esperada, contudo, era contra um Temer fortalecido e empenhado em deslegitimar a atuação do Procurador e as provas até então colhidas. Ao mesmo tempo, o Congresso instalava uma CPI para analisar os acordos de colaboração premiada com a JBS.

Janot solicitou então a prisão dos delatores Joesley Batista e Ricardo Saud, além de um antigo colaborador seu,o ex-procurador Marcelo Miller, suspeito de ter auxiliado os executivos a costurar o acordo com a PGR. A semana começou com os executivos da JBS presos — o ministro do STF Edson Fachin rejeitou o pedido contra Miller — e um pedido de Janot para que o Supremo arquivasse uma denúncia contra políticos do PMDB. Faltava ainda enfrentar uma última votação no STF: o pedido da defesa de Temer para que Janot fosse afastado das investigações contra o mandatário. Os noves ministros presentes entenderam nesta quarta que ele deveria continuar seu trabalho, deixando o caminho livre para que apresentasse sua última denúncia nesta quinta. Além dos políticos do PMDB, Batista e Saud foram denunciados pelos mesmos motivos e o acordo de colaboração premiada dos diretivos da JBS, rescindido.

Durante a batalha entre a PGR e o Planalto para ver quem tinha razão, Janot se viu beneficiado pelo desgaste político sofrido por Temer nos últimos dias. Ainda no dia 5, a Polícia Federal encontrou 51 milhões de reais de Geddel Viera Lima, apontado como responsável pela movimentação de quantias milionárias a serem distribuídas entre os membros do PMDB, Temer incluído. Naquele mesmo dia, a delação de Lúcio Funaro, apontado como operador do PMDB, era homologada pelo Supremo: em depoimento, ele detalha propinas milionárias da JBS e da Odebrecht para o presidente. Nesta semana, a PF concluiu que Temer era o principal articulador do chamado quadrilhão do PMDB da Câmara e o acusou de ter recebido 31,5 milhões de reais de forma ilícita. Paralelamente, o STF autorizava que o presidente fosse investigado pelos crimes de lavagem de dinheiro, corrupção ativa e corrupção passiva em um caso relacionado com negócios no porto de Santos.

No cargo até o próximo domingo, Janot se prepara agora para passar o bastão para sua sucessora, Raquel Dodge. Entre agosto de 2015 e setembro de 2017, o procurador apresentou 34 denúncias, uma média de 1,4 por mês, segundo informou Afonso Benites. Só nos últimos 10 dias, foram quatro importantes denúncias, a rescisão de um acordo de colaboração, o pedido de prisão dos executivos da JBS e uma votação no Supremo. Uma despedida bastante corrida.

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