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“Não encoste em mim, estou morrendo”

A história de Andrew Pasek, morto eletrocutado após o furacão Harvey, mostra que o perigo vai além das chuvas

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Andrew Pasek, morto aos 25 anos durante o furacão Harvey em Houston. AP

Quando o furacão Harvey matou Andrew Pasek, já não chovia. Era terça-feira, dia 29 de agosto. O vento e a chuva haviam passado, mas para alguns bairros do oeste de Houston, no Texas (EUA), o pior estava por vir. As autoridades começaram a soltar água das represas Addicks e Barker na madrugada de segunda-feira para evitar que se rompessem. As famílias da área precisaram sair. A irmã de Andrew, Alyssa, havia saído de casa após subir todos os móveis de valor ao segundo andar, como prevenção pela inundação artificial. Levaram dois cachorros e tudo o que puderam carregar em dois carros à casa de amigos. “Mas não tinham como levar a gata”, explica Jodell Pasek. “Deixaram o animal no segundo andar com água e comida”. No dia seguinte, “como era escoteiro e amante dos animais, Andrew chamou seu amigo Sean para que o acompanhasse no resgate da gata”, contou na segunda-feira Jodell Pasek, sua mãe, demonstrando muita força.

“Foram a pé, sem equipamento. Acredito que quando chegaram perceberam que era muito profundo. Caminharam então pelos jardins das casas, onde havia menos água. Chegaram à metade do caminho e havia um poste de luz de jardim, com a luz acesa. Segundo nos contou Sean, Andrew caminhava na frente e sentiu a corrente. Anos atrás ele quebrou o tornozelo e tinha uma placa e pinos. A eletricidade passou pelo tornozelo. Começou a pular. Perdeu o equilíbrio e caiu ao lado do poste. Quando Sean foi ajudá-lo, Andrew lhe disse: ‘Não encoste em mim, estou morrendo”. É assim que Jodell Pasek narra a morte de seu filho de 25 anos.

Sean gritava do outro lado da rua para que alguém chamasse os serviços de emergência dos EUA. Finalmente uma senhora ligou ao 911. Dois barcos de resgate que estavam próximos pararam, mas não podiam encostar no corpo. Andrew Pasek ficou uma hora e meia na água até que puderam cortar a luz da casa e retirá-lo de lá.

Jodell Pasek contou agora a história de seu filho para que quem a escute entenda que em uma inundação, e o Harvey já é oficialmente a maior inundação registrada nos EUA, o perigo não acaba quando para de chover. “Enquanto as empresas de eletricidade não suspendem o serviço, as pessoas simplesmente não vão embora, simplesmente não o fazem. Nesse dia existiam pessoas do lado de fora que sabiam que as casas seriam inundadas e crianças brincavam nas ruas”, afirma Pasek. “Se eu puder salvar uma vida... só quero que as pessoas saibam do perigo que existe”.

A voz de Jodell Pasek só vacila ao telefone quando conta que já havia perdido um filho antes. “Foi em 1993, meu filho mais velho, de meu primeiro casamento, morreu em um acidente de trânsito. Eu tinha à época filhos de dois e de quatro anos, Andrew e Alyssa. E pensei que a dor não podia me paralisar, que precisava seguir em frente por meus filhos. Isso é o que me faz seguir em frente e lidar com a dor. Eu já fiz isso antes”. A gata da família, que Andrew tentava resgatar, sobreviveu ao Harvey. Passou a inundação escondida atrás de um armário no segundo andar da casa de Alyssa Pasek. Já está com a família.

O número de vítimas relacionadas diretamente à inundação do século nos EUA chegou na segunda-feira, 4 de setembro, a 60 pessoas, de acordo com uma nova contagem do escritório forense norte-americano. Na segunda, foi recuperado da água o corpo de Alonso Guillén, de 31 anos. Guillén subiu em um barco com dois amigos para tentar resgatar as pessoas em uma estrada inundada. O barco bateu em uma ponte e virou. Um deles sobreviveu. O cadáver do terceiro, Tomás Carreón, foi encontrado na sexta-feira flutuando em um riacho. A família de Guillén contou ao jornal Houston Chronicle que ele nasceu em Piedras Negras, México, e tinha proteção temporária contra a deportação, o programa DACA.

A polícia recupera o furgão da família Saldívar, em Houston. Nele morreram afogados dois avós e seus quatro netos.
A polícia recupera o furgão da família Saldívar, em Houston. Nele morreram afogados dois avós e seus quatro netos. AFP

Os Estados Unidos escutaram estarrecidos na semana passada a história da família Saldívar. Dois avós, um filho e quatro netos, tentando escapar das primeiras horas do furacão em um furgão. A corrente arrastou o veículo a uma valeta. O filho, Sammy Saldívar, conseguiu sair do veículo, mas não pôde salvar seus pais e seus quatro sobrinhos, entre 6 e 16 anos, que gritavam dentro. Viu como se afogaram diante de seus olhos.

O Harvey matou de muitas formas. Pessoas se afogaram em suas casas. Um bebê foi arrancado dos braços de sua mãe pela corrente quando tentavam se salvar. Colette Sulcer, de 41 anos, morreu tentando salvar sua filha, de três. As equipes de resgate encontraram a menina flutuando na corrente na terça-feira, abraçada ao cadáver da mãe. Na quarta-feira, quando o Harvey tocou a terra pela segunda vez, um casal morreu pela queda de uma árvore em cima de seu carro em plena estada, arrancada pelo vento. Uma senhora de idade morreu em sua casa quando a máquina de oxigênio parou por um corte de eletricidade. Dois homens caíram na água e morreram quando estavam em um barco que virou por uma descarga elétrica ao encostar em um poste de luz.

Uma semana depois de acabar, o Harvey ameaça continuar matando. Em Beaumont, uma cidade de mais de 100.000 habitantes ao leste de Houston, há dias não existe água corrente. O cheiro nas ruas inundadas é nauseabundo, da mesma forma que nas regiões que continuam com água na cidade, como o bairro em que morreu Andrew Pasek. A mistura de água da chuva estagnada com o esgoto dos bueiros disparou os níveis de bactérias. A Agência de Proteção Ambiental informou no domingo que 800 usinas de depuração de água não estão funcionando pelos estragos causados pelo furacão e alertaram sobre os riscos à saúde. Os moradores que entraram nessas águas para verificar como estavam suas casas têm chagas na pele após certo tempo.

E também existe a fauna. O escritório do xerife do condado de Fort Bend, onde estão as regiões inundadas artificialmente para alívio das represas, pediu às pessoas que fiquem preparadas para encontrar qualquer coisa em suas casas, de serpentes a crocodilos e colônias de formigas de fogo. Já ocorreram vários encontros com crocodilos durante os resgates. Uma semana depois da chuva, o número de 60 mortos continua sendo provisório.

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