Futebol

Ezequiel dos Santos, o último filho do ‘terreno baldio’ argentino

O jogador mora em uma favela, trabalha como pedreiro e é o herói do clube Sacachispas

Ezequiel dos Santos faz embaixadas na quadra da favela.
Ezequiel dos Santos faz embaixadas na quadra da favela.Guido Piotrkowski

Existe no sul da cidade de Buenos Aires um clube de futebol que chama a atenção apenas por seu nome: Sacachispas. É uma pequena instituição acostumada a sobreviver nas categorias menores do futebol profissional da Argentina e que este ano subiu pela primeira vez para a Primera B, a terceira divisão. A conquista foi graças ao otimismo de seus jogadores, que se vestiram de super-heróis e conseguiram reverter a frustrada história com bom futebol. Um desses paladinos é Ezequiel dos Santos, a quem todos chamaram de “louco” após uma definitiva decisão por pênaltis onde teve o desplante de tentar uma cavadinha para marcar o gol e eliminar da Copa Argentina o Arsenal, equipe da primeira divisão fundada por Julio Grondona, ex-presidente da Associação do Futebol Argentino (AFA). Coragem não falta a esse meio-campista de 22 anos que vive na favela e faz bicos como pedreiro para poder sustentar a família.

“Dias depois da consagração alguém me perguntou se o moleque não teve medo de dar uma cavadinha no campo. Por favor! Ele mora na Ciudad Oculta, as balas perdidas passam raspando na cabeça dele todos os dias, oferecem cocaína para ele a cada minuto... E esse garoto está fora disso tudo, é saudável. Vive num lugar barra pesada e vai ter medo de dar uma cavadinha no pênalti?”. Isso foi o que respondeu o técnico do Sacachispas, Norberto D’Angelo, ao jornal esportivo Olé dias depois que Ezequiel e seus companheiros fizeram a grande zebra da temporada. A vitória representou um suculento cheque de 560.000 pesos (pouco mais que 101.000 reais), muito oportuno em um momento de atrasos nos pagamentos salariais.

Ezequiel caminha pela Ciudad Oculta e não parece que nada de mal possa lhe acontecer. Conhece de cabeça os corredores da favela, estreitos e escuros como os de uma medina árabe. Em um dos muros se lê uma frase pichada: “Proibido fumar cachimbo”. A referência é clara, o inimigo de sempre: o consumo de crack, que acaba com a vida de jovens diariamente. A Villa 15, ou Ciudad Oculta, é responsável pela condenação de um traficante por causa da denúncia de mães organizadas. Há pouco tempo, foi abatido Nazareno, um jovem conhecido do jogador, pelas balas de um policial que o perseguia durante uma batida. Era outro moleque a mais entre aqueles que consumem drogas e roubam. Outro que nos domingos vão jogar bola ou tomar uma cerveja no grande ponto de encontro do bairro, o enorme campo de futebol que se estende na sobra do edifício Elefante Blanco, e que foi construído com o aporte milionário da fundação de Lionel Messi.

Os super-heróis do Sacachispas FC.
Os super-heróis do Sacachispas FC.

Ezequiel mal entra em campo – um terreno baldio que agora se tornou um luxuoso gramado sintético – e a garotada já o reconhece. Gritam para ele: “Ei, Saca” e uma bola aparece rolando no mesmo instante, como se buscasse a sola de sua chuteira. “Vocês não sabem como estava isso aqui depois do jogo contra o Arsenal, as pessoas me cumprimentavam e todos me chamavam de Abreu”, recorda. Aquele pênalti que o atacante uruguaio Sebastián Abreu marcou contra o goleiro Kingson para eliminar Gana da Copa da África do Sul em 2010 é a referência direta para os argentinos em cada definição desde os 12 passos. “Mantive a cabeça fria. Sempre fiz isso no bairro e é algo que me identifica. As pessoas já me conhecem assim e meus companheiros também. No dia anterior, no treino, também dei cavadinhas”, diz o jogador. Há três meses Ezequiel não aparece nas partidas disputadas em outros terrenos do bairro. Já é um jogador profissional e muitas vezes, “aqueles que te marcam não conhecem as manhas e acabam te machucando, apenas por serem brutos”.

Tudo o que está acontecendo de bom em sua vida ele atribui a Lelia Martínez, sua mãe. Ela faleceu há pouco mais de um ano por causa de um câncer de mama. “Mais do que nunca, o futebol me ajudou naquele momento”, afirma. Mas reconhece que pensou em largar tudo. O sucesso também fez com que outro clube, o Deportivo Italiano, pusesse os olhos nele. Escutou a oferta diretamente porque não conta com um agente, mas não pensou nisso e a recusou. Eram 10.000 pesos a mais (1.800 reais) do que o que ganha atualmente, mas significava voltar a jogar na série C.

É no Sacachispas que Ezequiel quer ficar e, algum dia, terminar sua carreira. “Meu sonho é jogar no River Plate, essa é minha meta”, confessa. Não era preciso ele admitir: a pequena casa que ele compartilha com seu pai Daniel – funcionário de um dos frigoríficos próximos à favela – e um de seus irmãos, Orlando – que sofre de um atraso no desenvolvimento – está cheia de copos, bandeirinhas e objetos com a faixa vermelha. “É que, fora o meu irmão, eu não tenho que cuidar de mais ninguém, não tenho apertos. Às vezes os jogadores formam uma família quando ainda são muito jovens, na minha idade já têm um ou dois filhos. Então não decidem por eles mesmos quando aparece uma chance fora”, opina, e confia na esperança de uma promessa feita pelo presidente do clube de conseguir uma casa em Parque Patricios, fora da favela: “Espero que aconteça logo, porque meu irmão precisa. Quero que tenha um pátio para ele poder brincar”.

O Sacachispas foi fundado, entre outros, pelo jornalista uruguaio Ricardo Lorenzo Borocotó, em 17 de outubro de 1948, três anos depois do mítico dia da Lealdade Peronista. Foi o próprio Juan Domingo Perón quem gerenciou o empréstimo do terreno onde hoje fica o pequeno estádio com capacidade para 5.000 pessoas e que montou uma tribuna de imprensa improvisada em um contêiner. Está localizado no início de uma longa e estreita passagem que tem uma estrada como único teto.

A camisa do Sacachispas é estranha, de cor lilás. Evoca umas glicínias que cresciam no centro do campo, uma delicadeza em meio a um retângulo árido e cheio de buracos por causa das pisadas das centenas de jogadores. O que, sim, floresceu foi o senso de humor. Uma ideia de outro jogador, Eduardo dos Santos, contagiou o time todo, que aceitou se fantasiar para entrar em campo. Gorros de Papai Noel para dezembro e roupas de coelho na Páscoa. Formações em pirâmides, seu próprio grito de guerra e, por último caretas e poses de super-heróis fizeram parte de um repertório que conquistou todas as telas da Argentina e atraiu a atenção das crianças. “Querem ser felizes dentro de campo”, resume em uma frase o técnico D’Angelo.