Maduro ignora apelos internacionais e oposição faz greve geral

Presidente venezuelano não está disposto a renunciar à eleição da Constituinte

Confronto entre oposicionistas do Governo e a tropa de choque em Caracas.
Confronto entre oposicionistas do Governo e a tropa de choque em Caracas.RONALDO SCHEMIDT (AFP)

O presidente venezuelano ignorou os apelos da comunidade internacional e a mensagem das forças opositoras na mobilização maciça do último domingo. Nicolás Maduro não está disposto a renunciar à eleição da Assembleia Nacional Constituinte convocada para o dia 30 apesar do pedido de milhões de cidadãos, chavistas desencantados com o desvirtuamento do regime e as ameaças de sanções dos Estados Unidos. O sucessor de Hugo Chávez se entrincheira no poder e desafia todas as vozes críticas.

Mais informações

“Esta iniciativa não pertence mais a mim, está nas mãos do povo”. Foi a resposta do presidente venezuelano aos cada vez mais insistentes pedidos de Governos estrangeiros e personalidades de organismos multilaterais para que suspenda a convocatória da Assembleia Nacional Constituinte. Maduro falou durante o ato de instauração do Conselho Nacional de Defesa no Palácio Presidencial de Miraflores na terça-feira em Caracas.

Esse conselho é uma instância ad hoc prevista na legislação, que se convoca em momentos de risco à segurança nacional. Essa é a terceira vez que Maduro o reúne. A última foi em outubro do ano passado, quando os deputados opositores que controlam a Assembleia Nacional decidiram declarar “abandono do cargo” por parte do mandatário nacional.

A menos de duas semanas da eleição da criticada Assembleia Constituinte, Maduro procura garantir o cumprimento da convocatória, nem que seja a fórceps. O período coincide com a chamada Hora Zero da oposição, que convocou uma greve geral de 24 horas para hoje. Entretanto, pela ação espontânea de grupos que se autodenominam da “resistência”, já desde terça-feira permanecem bloqueadas extensas áreas no leste de Caracas e em outras cidades do país. Em vários bairros de Caracas, as forças de segurança do governo entraram em choque com os manifestantes.

O presidente venezuelano citou como motivo para reunir o Conselho de Segurança as recentes declarações dos porta-vozes da Casa Branca e do Departamento de Estado dos Estados Unidos sobre a Venezuela. Na segunda-feira, depois da consulta popular realizada pela Mesa de Unidade Democrática (MUD), de oposição, o Governo de Washington instou as autoridades venezuelanas a considerarem o resultado do plebiscito simbólico e advertiu que está pronto para iniciar “rápidas e fortes ações” de ordem econômica se Caracas não cancelar a eleição da Constituinte.

Segundo informação divulgada pelas agências internacionais, pareciam iminentes na terça-feira as sanções do Governo Trump contra a Venezuela. No menu de opções pareciam estar o congelamento de bens de líderes do chavismo – foram mencionados como integrantes da ainda desconhecida lista negra o ministro da Defesa, general Vladimir Padrino, e o primeiro vice-presidente do partido de Governo, Diosdado Cabello –, o confisco dos negócios da petroleira venezuelana PDVSA nos Estados Unidos e até um embargo aberto às compras de petróleo desse país.

Um embargo contra o petróleo venezuelano seria a gota d’água no arsenal de sanções. Embora as importações petroleiras da Venezuela representem cerca de 5% do consumo dos Estados Unidos, metade das exportações do país sul-americano vão para o mercado norte-americano, que paga em espécie. Boa parte do que resta da minguante produção está comprometida no pagamento da dívida com aliados estrangeiros como a China, ou se destina a alimentar acordos de cooperação de grande importância política para Caracas neste momento, como a aliança do Petrocaribe. A Venezuela capta praticamente a totalidade de seus ganhos em divisas mediante a venda de petróleo.

Enxurrada de ameaças

Maduro, que declarou o Conselho Nacional de Defesa “em sessão permanente”, aproveitou a oportunidade para fustigar outros colegas do hemisfério que, em suas palavras, fazem parte de uma conspiração internacional contra a revolução bolivariana.

Referindo-se ao presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, que depois de se reunir com seu homólogo cubano, Raúl Castro, havia sugerido pelo Twitter “desmontar a Constituinte para obter uma saída rápida, pacífica e negociada na Venezuela”, o mandatário venezuelano usou a palavra “traidor”. Maduro também o criticou por falar “como se governasse na Venezuela, quando nem sequer governa a Colômbia”.

Dedicou duras palavras também à chefe da Política Externa da União Europeia, Federica Mogherini, que mencionou a possibilidade de sanções contra Caracas. Maduro qualificou como “triste” a posição da UE, cujas relações internacionais, opinou, ficaram “subordinadas a Washington”. Também reprovou a ingerência do primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy, em assuntos internos da Venezuela e lançou esta advertência: “Cuidado, Rajoy, se Bolívar chegar à Catalunha”.

Apesar de seu discurso manter um perfil eminentemente internacional, a primeira medida decidida no Conselho de Defesa e anunciada por Maduro é de ordem interna: a ativação do que chamou “um plano de justiça emergencial para garantir a paz”. Conforme antecipou, a Justiça militar terá um papel primordial nessa operação, orientada a facilitar “a busca e captura dos grupos que atentarem contra a estabilidade do país”.

Numerosos grupos de direitos humanos e o próprio secretário geral da Organização de Estados Americanos (OEA), Luis Almagro, denunciaram a prática das autoridades venezuelanas de levar dissidentes civis e manifestantes à Justiça militar, que se tornou especialmente recorrente desde o início da onda de protestos em todo o país em 1º de abril.

Mais informações

Arquivado Em

Recomendaciones EL PAÍS
Recomendaciones EL PAÍS
Logo elpais

Você não pode ler mais textos gratuitos este mês.

Assine para continuar lendo

Aproveite o acesso ilimitado com a sua assinatura

ASSINAR

Já sou assinante

Se quiser acompanhar todas as notícias sem limite, assine o EL PAÍS por 30 dias por 1 US$
Assine agora
Siga-nos em: