Rafael Nadal: Vive depressa, morre devagar

O tenista nunca tinha arrasado assim em um torneio do Grand Slam. Acabou com Wawrinka e fez a quadra ferver sob uma série de golpes

Nadal, depois da vitória em Roland Garros.
Nadal, depois da vitória em Roland Garros.CHRISTIAN HARTMANN (REUTERS)

O tênis é um esporte de espasmos. É tão sujeito a desequilíbrios internos que qualquer desajuste em uma tacada provoca a derrota em uma partida, a queda em desgraça na classificação ou, diretamente, a aposentadoria forçada e uma vida de penitência. Às vezes, alguém atira a raquete ao chão, quebra-a e ao recuperá-la acaba por recuperar sua própria vida. Também é algo que pode entediar. Isso não é algo que se contuma confessar, mas paradoxalmente, nesse esporte de sobressaltos há uma rotina tão formidável, uma mecânica tão exigente, que às vezes as pessoas se desinteressam pela raquete ou, como ocorria com André Agassi, a associa a um inferno e a uma vida de privações: acerta na bola como se acertasse o próprio pai. Além disso, compartilha com os demais esportes, individuais ou coletivos, uma característica que pode passar inadvertidamente, mas que convém recordar: quase sempre se perde.

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Por que então acompanhar esse esporte? A pergunta e a resposta surgiram na quadra central de Roland Garros. Pelo mesmo tenista de sempre, o canibal do saibro que não só venceu o torneio em Paris, nem só o fez pela décima vez, como também, aos 31 anos, manteve um recorde extraordinário: duas derrotas em toda a sua vida na terra prometida. Por isso, no tênis, nem quase sempre se perde. Não Nadal e não na terra batida. No ataque, com golpes como o que fez Wawrinka cair de joelhos no 4-2 do segundo set, uma explosão que tirou da infância, quando se executa tudo o que se sonha, ou na defesa, corroendo seus adversários até transformá-los em uma montanha de pó.

É humano porque assim confirmam suas lesões, os meses de angústias e queda no ranking. O que o distingue de outros humanos não é o fato de ter voltado a partir de um lugar do qual é impossível voltar, mas que tenha feito isso de uma maneira muito melhor que antes. Que tenha rompido de uma maneira tão escandalosa a normalidade de uma carreira que o levou ao ápice aos 19 anos e o colocou no mesmo lugar 12 anos depois, quando já tinham começado a encomendar as coroas de flores mais ostentosas, e se repetia a cantinela de “o melhor atleta espanhol da história” como se tivessem se passado 20 anos de sua aposentadoria. O tênis não era isso antes dele e Roger Federer.

Se a reinvenção de Nadal tinha algum problema, já foi solucionado. Quando você cai depois de ganhar tudo, só vale a pena voltar a subir por causa da vista do alto. Mas, na França, o espanhol mostrou que está pronto para tudo, menos para ficar admirando a paisagem: a paisagem é ele. Nunca tinha arrasado assim em um torneio do Grand Slam. Acabou com Wawrinka, fez a quadra ferver sob uma série de golpes que soavam como pregos no caixão daqueles que queriam enterrá-lo, e sua sombra voltou a ser erguida no horizonte de Paris com a mesma familiaridade que a Torre Eiffel, o mesmo ferro, os mesmos anos.