‘Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band’ vive: a mítica odisseia dos Beatles volta 50 anos depois

O álbum, considerado o melhor disco da música pop, ganha uma edição comemorativa

George Harrison, Ringo Starr, John Lennon e Paul McCartney (da esq. para a dir.) em Londres, em maio de 1967.
George Harrison, Ringo Starr, John Lennon e Paul McCartney (da esq. para a dir.) em Londres, em maio de 1967.John Downing (Getty Images)

No centro do estúdio, o grupo de jornalistas é recebido por Giles Martin, filho de George Martin, o célebre produtor da banda e também aspirante ao título de quinto beatle, junto com o empresário Brian Epstein. Esta altíssima sala de tijolos brancos e piso de madeira guarda também uma atmosfera especial, como uma ressonância íntima que, sob o efeito avermelhado de sua luz interior, permitisse vislumbrar, feito uma chama ilusória, John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr tocando seus instrumentos. “Ouvindo todas aquelas sessões, trabalhando tanto tempo no grande arquivo da gravação deste disco, só duas palavras permaneceram em minha mente, as duas que os definiam: eficiência e genialidade”, conta Martin, encarregado de remixar pela primeira vez este álbum em estéreo e com áudio 5.1 surround.

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A propósito do aniversário, Martin, que antes participou da produção de The Beatles Anthology e colaborou em discos de McCartney, trabalhou também nos takes iniciais de 34 gravações inéditas que foram incluídas numa caixa de luxo, mas, depois de reconhecer que inicialmente não era partidário de alterar a gravação original em mono, destaca a importância do novo som. “As vozes soam mais centradas. O estéreo, escutando os instrumentos cada um no seu lugar, faz com que os Beatles soem mais ao vivo e eles são melhores quanto mais ao vivo”, observa.

Há 50 anos, Sgt. Pepper’s se transformou na grande odisseia do pop, um disco que mudou para sempre o panorama da música. O grupo tinha deixado de fazer turnês porque estava cansado da histeria coletiva. Motivados pela excelência conseguida em Pet Sounds pelos Beach Boys – especialmente pelo gênio de Brian Wilson – os rapazes de Liverpool se trancaram por quatro meses no estúdio da Abbey Road para fazer experimentos até conseguirem ampliar todos os limites sonoros possíveis. A ideia foi de McCartney, verdadeiro motor diante dos desvarios de Lennon com as drogas. E se livraram da pressão criando o personagem que dá título à obra. O sargento Pimenta e sua banda permitiam que eles tivessem mais liberdade criativa, sem pensar que eram os Beatles.

Depois de revisar todas as fitas originais, Martin destaca a fé neles mesmos. Ressalta que é uma qualidade que o disco transmite e relembra uma conversa que teve com seu pai, falecido em março do ano passado, quando estava envolvido no projeto de remixagem em estéreo: “Um dia perguntei a ele se acreditava que tinha sido bom na música. Fechou os olhos, pensou e disse: ‘Não, fui brilhante’. Aquilo não era arrogância. Não combinava com meu pai. Simplesmente todos foram brilhantes. Tinham essa virtude de ir atrás de algo e consegui-lo. Esse disco é o melhor exemplo de sua fé”.

Com seu ambiente carnavalesco e alegórico, Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band é um trabalho transbordante de nuances: os efeitos sonoros, como o vozerio longínquo que abrem o álbum ou os galos de Good Morning, Good Morning, e jogos de vozes, como o glorioso enfrentamento entre Lennon e McCartney na radiante Getting Better, convivem com uma instrumentação pletórica, cujo clímax chega com A Day in the Life fechando o disco com uma orquestra de 40 músicos suspendendo um mi maior até a estratosfera. É o que Martin, antes de colocar todo o álbum em estéreo, destaca como “som expansivo”, que, sob o efeito místico do estúdio onde foi concebido, sonha como se os Beatles rodeassem o ouvinte por todos os lados. “Ao final, parece que está mais perto de sua música”, sugere. Uma música que, meio século depois, continua soando humanamente imbatível.

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