Campeonato Espanhol

Campeonato Espanhol resiste à tecnologia do detector de gols

Presidente da federação diz que os clubes não entram em acordo sobre o uso do ‘olho de falcão’ Com exceção à espanhola, principais ligas europeias utilizam a tecnologia

Gol 'fantasma' da Inglaterra contra a Alemanha, na Copa do Mundo de 2010.
Gol 'fantasma' da Inglaterra contra a Alemanha, na Copa do Mundo de 2010.Alessandra Tarantino (AP)

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Cinquenta anos depois da vitória da Inglaterra na final da Copa do Mundo de 1966, com um gol inexistente mas validado pelo árbitro – um chute de Geoff Hurst que explodiu no travessão da Alemanha e picou no gramado sem nunca ultrapassar a linha branca –, o futebol de elite já não vive exposto a escândalos parecidos. O sistema de detecção automática de gols da FIFA mudou o rumo dos acontecimentos. Nem em Mundiais, nem na Eurocopa ou na Champions, nem em nenhuma das grandes ligas europeias o desfecho da competição dependerá de um rebote aleatório... salvo na Espanha. Lá prevalece um espírito antiquado.

O Campeonato Espanhol é a única grande competição que não conta com a tecnologia homologada. Javier Tebas, presidente da Liga de Futebol Profissional da Espanha (LFP), adia a introdução da ajuda das máquinas para a detecção dos gols. O atraso já supera os três anos em comparação com o Campeonato Inglês (Premier League). “O olho de falcão já foi estudado e descartado”, disse Tebas na segunda-feira, alegando motivos econômicos. Ele afirma que investir quatro milhões de euros (13,2 milhões de reais) num sistema que serviria para corrigir três ou quatro situações de “gol fantasma” por temporada seria excessivo. Essa foi a conclusão dos dirigentes quando a proposta foi feita, dois anos atrás. “Havia questões mais urgentes para tratar”, recorda um porta-voz, recordando a necessidade de sanear economicamente os clubes, cuja dívida em 2014 rondava os 450 milhões de euros (1,48 bilhão de reais) e desde então foi reduzida à metade.

Especialmente prejudicado

A posição da LFP tem lógica financeira. Mas a postura do Barcelona e a da maioria dos principais atores do futebol, também. “Há muitíssimo dinheiro em jogo”, diz um dirigente do Barça, “porque um Campeonato pode ser decidido por dois pontos ou numa jogada específica.” O clube catalão se sente especialmente prejudicado pelo adiamento tecnológico, já que, se perder esta competição por dois pontos, seus torcedores recordarão que o troféu escapuliu de suas mãos no domingo passado, quando Mandi tirou a bola do gol do Betis no minuto 78. Teria significado o 1-1, mas o juizHernández Hernández não considerou o gol.

Os times da primeira divisão consultados estão a favor da inovação técnica promovida pela FIFA. Os juízes também. A opinião de Arturo Daudén Ibáñez, ex-árbitro internacional espanhol, é taxativa: “Se não foi implantado o sistema automático de detecção de gols é por uma questão puramente econômica. Para os árbitros, isso seria um alívio total. O gol fantasma é uma ação de muita importância e dificílimo de ver. É o lance da maior relevância [para um juiz]: dar ou não o gol”, afirma. “A LFP diz que esse tipo de gol só ocorre três ou quatro vezes por ano? Bem, seria o caso de perguntar qual o valor econômico do gol do Barça que não foi validado no domingo no Benito Villamarín.”

Segundo Daudén, a tecnologia homologada pela FIFA está absolutamente provada e, com a exceção de erros isolados, funciona bem. “Nosso Campeonato deve introduzi-la se pretende competir com os melhores do mundo”, afirma.

Um porta-voz da FIFA afirmou, na segunda, que ninguém da Espanha – nem do Campeonato, nem da federação – indagou sobre as possibilidades de implantar o detector de gols. Mas o procedimento é simples. Segundo essa fonte, a FIFA se limita a homologar o detector que as empresas privadas submetem à análise de laboratórios “independentes”: Sports Labs Ltd (Escócia), Labosport UK (Inglaterra), ISA Sport (Holanda) e EMPA (Suíça). Desde 2012, essas companhias autorizaram o uso de dois modelos: Hawk Eye, da Sony, e Goal Control, de fabricação alemã. Os dois foram usados pela Premier, a Série A (Itália), a Bundesliga (Alemanha), a Ligue 1 (França), as Copas de Portugal e os torneios da UEFA e da FIFA.

“A FIFA não entra mais nesse processo”, diz o organismo com sede em Zurique. “A iniciativa corresponde ao Campeonato Espanhol. O organizador da competição é que deve fechar o contrato privado com os fornecedores homologados. A FIFA só verifica se a tecnologia empregada é correta.”

Sim à arbitragem de vídeo

Os torneios da FIFA utilizam o detector de gols desde 2013. O Campeonato Inglês assinou contrato de cinco anos com a Hawk Eye nesse mesmo ano. Na Espanha, só é necessário que clubes assinem um contrato com o provedor de tecnologia e que a federação modifique o regulamento da competição. Um mero detalhe, dada a vontade do presidente da FIFA, Gianni Infantino, de promover o apoio tecnológico à arbitragem – seja por meio do detector automático de gols ou do replay de jogadas através de um sistema de arbitragem de vídeo.

Tebas aposta no uso dessa segunda opção a partir da temporada 2018-19 porque a considera mais barata. “Trabalhamos há oito meses com o tema da arbitragem de vídeo”, disse na segunda o presidente da LFP. “Estamos nas comissões da FIFA. Estamos fazendo testes. A partir de 2018, se a FIFA obrigar, instalaremos a arbitragem de vídeo, que é uma evolução da detecção automática de gols.”

13,2 MILHÕES DE REAIS CONTRA 8,2

A LFP afirma que o gasto da implantação do detector de gols chegaria a quatro milhões de euros (13,2 milhões de reais). Javier Tebas deseja introduzir um sistema próprio, aproveitando as câmeras já instaladas nos estádios da primeira divisão. Fontes próximas ao presidente da federação argumentam que o desenvolvimento da tecnologia é de "apenas" 500.000 euros (1,65 milhão de reais), mas a FIFA cobra "quatro milhões de euros" pela homologação. Dinheiro demais, segundo Tebas.

A LFP tenta se diferenciar. Os times da Inglaterra, França, Alemanha e Itália optaram por contratar fornecedores externos com produtos já homologados. Segundo a BBC, a Premier League pagou 12 milhões de euros (39,6 milhões de reais) por cinco anos à empresa Hawk Eye. A Bundesliga desembolsa pouco mais de 2,5 milhões de euros (8,2 milhões de reais) por temporada, também à Hawk Eye.

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