Índia

A Índia fica sem dinheiro

Governo retira de circulação notas de 500 e 1.000 rúpias para lutar contra o mercado negro e provoca crise de liquidez

Fila para trocar notas num banco em Agra.

“Não são aceitas notas de 500 nem de 1.000 rúpias (26 a 52 reais, aproximadamente). Cartões de crédito são bem-vindos”, diz a mensagem que pode ser lida nas portas dos restaurantes e lojas da Índia. A decisão do Governo de Narendra Modi de proibir essas cédulas e retirá-las de circulação desde 10 de novembro, para lutar contra a corrupção e o mercado negro, especialmente no setor de transporte de mercadorias, desencadeou uma falta de dinheiro vivo num país de 1,252 bilhão de pessoas onde, segundo dados oficiais, apenas 150 milhões possuem uma conta bancária para depositar o dinheiro que foi inutilizado na rua.

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“A corrupção e o mercado negro são males enraizados em nosso país. São obstáculos ao nosso sucesso.” Com essas palavras, o primeiro-ministro justificou a primeira desmonetização em 38 anos em discurso pela TV na quarta-feira passada, um dia antes de aposentar as cédulas. Embora a finalidade da norma tenha sido acolhida com entusiasmo, as vozes críticas começaram a aflorar após os primeiros dias da entrada em vigor. Arvind Kejriwal, máxima autoridade do estado de Délhi, atacou a medida no domingo, ressaltando as dificuldades que os cidadãos enfrentam para conseguir dinheiro. Kejriwal pediu a interrupção do programa, que desatou uma grave crise de liquidez, segundo do jornal Times of India. “Ainda há tempo para reverter essa decisão (...). O Governo não tem absolutamente nenhum plano”, agregou o líder político em entrevista coletiva, quando exigiu que o primeiro-ministro peça desculpas às pessoas, que estão entrando em “estado de pânico”.

Kanam Rajendran, líder do Partido Comunista da Índia (CPI, na sigla em inglês), também se pronunciou contra a medida. “Modi disse nos últimos anos que traria de volta o dinheiro não declarado que está escondido no exterior. Mas não pôde cumprir a promessa e levou a cabo essa desmonetização numa tentativa de ocultar seu fracasso”, acusou.

Uma das dezenas de notícias que o jornal indiano dedicou à situação diz que o Gabinete do primeiro-ministro se preparou durante seis meses para este momento, “imprimindo notas suficientes de 100 e 50 rúpias” para substituir as antigas de 500 e 1.000. Mas o certo é que, três dias depois de retirá-las de circulação – transcorridas as 72 horas de cortesia em que hospitais, postos de gasolina, crematórios e cemitérios podiam aceitar essas cédulas –, as casas de câmbio, os bancos, os caixas eletrônicos e os hotéis ficaram sem dinheiro vivo. E as pessoas que tinham essas cédulas em casa se viram, da noite para o dia, sem poder comprar nada com elas.

Um homem compareceu à sua agência bancária na cidade de Agra para trocar um cheque de 10.000 rúpias por notas de 100. Não queria que lhe dessem de 2.000 porque as lojas não teriam troco. Teve sorte, afirma, porque pessoas de seu escritório tinham notas de pequeno valor e puderam lhe dar. “Mas estavam em péssimo estado. As novas ainda não chegaram”, diz.

Longas filas

Nas ruas da cidade, centenas de homens e mulheres fazem fila em frente aos bancos, a maioria com a porta trancada, para poder depositar as notas inúteis em suas contas. Têm até 30 de novembro para fazer isso. Se desejarem conseguir dinheiro vivo em troca das notas, só poderão sacar até 4.500 rúpias (2.500 nos caixas eletrônicos, com um limite semanal de 24.000), tal como especifica a norma difundida pelo Governo. Mas os caixas já estão vazios e as novas notas de 500 e 2.000 (as de 1.000 desapareceram definitivamente), inclusive com reforços das de 100, ainda estão por chegar. E a maioria dessas máquinas não funciona. Está fora de serviço.

Os turistas também foram afetados. No Crystal Sarovar Premier Hotel, em Agra, um dos destinos mais visitados do país por abrigar o Taj Mahal, os recepcionistas explicam o problema aos clientes. “Terão que pagar tudo com cartão”, diz um funcionário do hotel a um grupo de viajantes preocupados. E lhes oferece outra possibilidade arriscada: trocar seus euros e dólares pelas velhas notas e tentar pagar com elas a entrada ao monumento, que custa 1.000 rúpias (cerca de 50 reais), para que lhes devolvam a nova moeda. Outros estabelecimentos tentam inclusive enganar seus hóspedes dando-lhes notas ilegais e inúteis, sem avisar que não valem nada.

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