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COLUNA

Aos que não entenderam, vou desenhar

Após o comovente discurso da estudante Ana Julia Ribeiro, alguns dados ajudam a provocar uma reflexão paralela sobre a qualidade do ensino

Ana Júlia Ribeiro discurso
Ana Júlia (4º da esq. para a dir.), com os colegas no colégio onde estuda.

Após o magnífico artigo de Eliane Brum sobre a ocupação das escolas, pouco ou nada há a acrescentar – minha lúcida colega do EL PAÍS possui, sem dúvida, o mais articulado texto da imprensa brasileira. Arrisco, no entanto, oferecer alguns dados estatísticos, não para complementá-lo, que é desnecessário, mas para provocar uma reflexão paralela. Uma das “acusações” que se faz ao movimento dos estudantes é que trata-se de uma ação política – ora, convenhamos, trata-se mesmo de uma ação política! É uma reação à proposta do presidente não eleito, Michel Temer, de desmonte do já péssimo sistema educacional público brasileiro – ele, que vem desmantelando, uma a uma, todas as pouquíssimas, mas essenciais conquistas sociais ocorridas nos 14 anos de governo petista.

O convite feito por Ana Julia Ribeiro, em comovente discurso na Assembleia Legislativa do Paraná, para que os deputados visitassem as escolas para conhecer de perto a realidade enfrentada cotidianamente por alunos e professores, deveria ser aceito por todos nós. Levantamento realizado por pesquisadores da Universidade de Brasília, em conjunto com a Universidade Federal de Santa Catarina, indica que apenas 4,4% dos estabelecimentos públicos brasileiros contam com infraestrutura adequada para o ensino, ou seja, biblioteca, laboratórios de informática e de ciências e quadra esportiva. Quase metade, 44%, disponibilizam para os alunos apenas água encanada, esgoto sanitário, energia elétrica e cozinha.

Outra pesquisa, essa da Fundação Victor Civita, mostra que 24% das escolas encontram-se depredadas – portas e janelas quebradas, brinquedos e carteiras mal conservadas, paredes e muros pichados. A responsável pelo levantamento, Angela Dannemann, alerta, entretanto, que, como esse número engloba escolas públicas e privadas, o total de estabelecimentos mantidos pelo poder público em péssimo estado de conservação é muito superior. Ainda assim, a sondagem aponta que apenas 10% das escolas têm iluminação adequada, 19% enfrentam problemas de ventilação, 36% necessitam de reformas nas salas de aula, 9% não possuem rede de esgoto e 7% sequer contam com banheiro.

Além da falta de infraestrutura adequada, os alunos convivem com professores mal remunerados e com formação profissional inapropriada. Apesar de aprovado no início do ano o piso salarial de 2.135,64 reais para docentes de nível médio em escolas públicas por 40 horas semanais de trabalho, apenas metade dos estados cumpre a lei, segundo a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação. A média salarial é de R$ 1.800,00 – equivalente a dois salários-mínimos. Por outro lado, 40% dos professores dos anos finais do ensino fundamental (6º ao 9º ano) e do ensino médio não têm qualificação ideal para dar aulas, conforme o Ministério da Educação. As situações mais críticas são nas disciplinas de Física (64,7%), Geografia (62%) e História e Ciências (60%).

Não bastasse tudo isso, os alunos são obrigados a se relacionar com o dia a dia de violência dentro e fora dos muros da escola. Segundo estudo da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais, Ministério da Educação e Organização dos Estados Interamericanos, quatro entre dez estudantes, entre o 6° ano do ensino fundamental e o último do ensino médio, afirmam já ter sofrido violência física ou verbal dentro da escola, sendo que em 65% dos casos o agressor foi um colega e em 15% um professor. Já 84% afirmam ter testemunhado casos de agressão, ameaça ou roubo no entorno, 9% tiveram conhecimento de assassinatos nas vizinhanças e 22% já viram armas, como pistola e facas, no ambiente escolar.

O resultado é que o sistema educacional brasileiro – não só o público, mas também o privado – figura entre os piores do mundo, conforme o Pisa, programa de avaliação patrocinado pela Organização para a Cooperação do Desenvolvimento Econômico (OCDE). Com gastos de 27.000 dólares por ano por aluno entre 6 e 15 anos – pouco mais da metade do que a OCDE considera ideal, 50.000 dólares - nossa taxa de repetência é altíssima: mais de um terço dos alunos com 15 anos (36%) já foram reprovados pelo menos uma vez. Segundo estudo do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), apenas metade dos jovens ente 15 e 17 anos estão matriculados no ensino médio e a taxa de evasão nessa faixa etária é de 16%.

E ainda há aqueles, Ana Julia, que acham que a ocupação das escolas é coisa de drogados e vagabundos... Que país, o nosso, Ana Julia... Que país...

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