Eleições municipais 2016

“A esquerda abriu espaço e legitimou os evangélicos na política”

Para professor da USP Ricardo Mariano, Marcelo Crivella, eleito no Rio, usa discurso laico como estratégia

Pergunta. Quais os motivos que levaram à eleição de Marcelo Crivella no Rio? O voto evangélico explica isso?

Resposta. É necessário olhar o cenário de disputa local. O que ocorreu ali foi um erro crasso do PMDB, particularmente do Eduardo Paes, de lançar como candidato o Pedro Paulo, que tinha uma enorme rejeição entre o eleitorado carioca. A partir deste problema do PMDB, que ficou fora do segundo turno, restou o Crivella. Ele costuma chegar ao segundo turno, sempre teve cerca de um terço do eleitorado, e esta já foi sua quarta tentativa de chegar ao Executivo. E para disputar com ele na reta final foi um candidato da esquerda, em um momento em que a esquerda está em declínio no país. Marcelo Freixo é muito associado ao discurso contra o impeachment de Dilma Rousseff, e o PSOL é frágil como partido político. Além disso, o eleitorado do Freixo é muito limitado, tem um perfil de classe média, formação superior, etc. Mas sem bases nas periferias.

Então o que favoreceu a eleição do Crivella, antes de se pensar em seus méritos, foi a ausência de um concorrente com grande viabilidade eleitoral. Quanto ao voto evangélico, no Rio, mais de 90% dos pentecostais apoiaram o Crivella. Mas como ele tinha uma margem grande de diferença com relação ao Freixo, ele não ganhou particularmente por conta deste eleitorado apenas.

P. O Crivella tentou se distanciar da Igreja Universal, da qual é bispo licenciado. Isso ajudou?

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R. Até o segundo turno ele tinha um perfil mais de centro, moderado. Ele sempre faz uma tentativa de dissociar sua imagem da Igreja Universal. Ele deixa claro que é evangélico, mas que está licenciado e que irá governar para todos. O Crivella até tentou forçar uma aproximação com a Igreja Católica, e adotou um discurso de que respeitaria todos, não perseguiria umbandistas nem adeptos do candomblé. Esse esforço diz respeito ao fato de que ele está vinculado a uma minoria religiosa, como John Kennedy nos Estados Unidos dos anos 60, que era identificado com a minoria católica do país. A Marina Silva, idem. Para enfrentar esse obstáculo ele insistiu no caráter laico do Estado brasileiro, lançando mão de um discurso defensivo, que é parte da estratégia eleitoral do candidato evangélico.

P. Por que em São Paulo essa estratégia do PRB não deu certo com o Celso Russomanno?

R. São diferenças do cenário político local. O Crivella tem uma longa historia de disputas na cidade. Ele sempre disputou o governo do Estado e o município, além de ser senador eleito pelo Rio. Já o Russomanno estava enfrentando candidatos de grande recall na cidade, como as ex-prefeitas Marta Suplicy (PMDB) e Luiza Erundina (PSOL), além do atual prefeito Fernando Haddad (PT), e o João Doria (PSDB). O Doria contou com o apoio do governador Geraldo Alckmin, que em São Paulo é um cabo eleitoral fortíssimo. E o candidato tucano representava a centro direita, o mesmo segmento ideológico que Russomanno, logo ambos disputavam o mesmo eleitor. Só que a candidatura do Doria era muito mais encorpada, contava com mais partidos no arco de aliança, o que ajudou a desidratar Russomanno. Se não houvesse o Doria, a probabilidade de que ele fosse para o segundo turno seria enorme.

P. Esse processo do crescimento dos partidos e da bancada evangélica começou quando?

R. Os evangélicos fazem parte do cenário político há 30 anos, não começou ontem. Essa participação na esfera pública não começou agora com a eleição do Crivella. É importante deixar claro que os governos de esquerda, de Lula e Dilma, fizeram muitos acenos a esse segmento. Eles prometiam aos evangélicos o aumento das parcerias do Estado com as igrejas em troca de apoio parlamentar e votos. A ocupação evangélica de espaços na implementação de políticas públicas é recente. A esquerda abriu muito esse espaço e legitimou essa participação, principalmente na área da Saúde que trabalha com recuperação de usuários de drogas. Vale lembrar que essas parcerias já existiam com as igrejas católicas.

É importante deixar claro que os governos de esquerda, de Lula e Dilma, fizeram muitos acenos ao segmento evangélico

P. Essa ampliação de parcerias é positiva?

R. Quando essas parcerias se tornam problemáticas do ponto de vista da laicidade do Estado? É quando esses grupos religiosos pegam recursos públicos e implementam políticas fazendo proselitismo. Em muitos casos é um recurso público sendo instrumentalizado para fins religiosos. É o caso específico dessas igrejas envolvidas em tratamento de usuários de drogas. Muitas vezes ao invés de recorrer a profissionais, psicólogos, assistentes sociais, etc, eles adotam discursos religiosos, técnicas religiosas de tratamento, voltadas para atrair o paciente para sua denominação, sua igreja. Isso atenta contra a laicidade do Estado.

P. Acha que o governo de Crivella à frente da prefeitura do Rio vai privilegiar evangélicos?

R. É provável que a prefeitura conduzida pelo Crivella vá facilitar alguns pontos para as igrejas evangélicas. Seja a lei do PSIU [que exige silêncio nos estabelecimentos e igrejas após determinada hora], seja o código de edificações... As igrejas querem atropelar o código e construir mais do que podem, visando ampliar seus templos. Isso tem impactos profundos no trânsito e no espaço público da cidade. A prefeitura tende a facilitar esses tramites legais com a regularização dos terrenos e a flexibilização da legislação. Além disso, Crivella deve ampliar as parcerias com as igrejas já firmadas pelo Eduardo Paes, oferecer mais recursos para elas.

P. Em que medida as ligações entre o PRB, Igreja Universal e rede Record favorecem os candidatos da legenda?

R. É difícil separar a Igreja Universal do PRB e das empresas de mídia, é muito difícil traçar uma fronteira. O PRB foi criado pela Universal em 2005. A Rede Record foi comprada pela igreja em 1989, e reforça seus interesses. No telejornalismo da emissora, por exemplo, a Universal é sempre beneficiada. Além disso ela própria ocupa boa parte da programação, com seus bispos e pastores. E parte do setor de criação ficcional da Record também atua a reboque da mensagem da Igreja, com novelas bíblicas. Por outro lado, a Universal paga valores muito acima do mercado para comprar horários na Record, principalmente na faixa da madrugada, eles injetam muito dinheiro lá dentro. E eles apostam em candidatos-celebridade, alguns com programas na grade da emissora, como Celso Russomanno. Então são coisas que se retroalimentam.

O fato de haver um candidato evangélico ao Executivo não quer dizer que ele receberá o apoio de todas as lideranças evangélicas

P. Esse conglomerado político-midiático-religioso representado por PRB, Record e Universal é uma ameaça à democracia?

R. Eu não tenho como avaliar se é ameaça à democracia, pois seria um julgamento político. Mas o que vem acontecendo até agora é que eles tentam, com determinadas pautas e ao defender sua liberdade religiosa, se opor a projetos de lei de viés liberal. Na prática eles tentam assegurar que o Estado continue discriminando minorias sexuais, por exemplo. É uma pauta de autodefesa de seus valores, mas que implica a proposição da discriminação estatal a determinados grupos sociais. E isso atenta contra princípios claros da democracia, de direitos iguais.

P. Como é a relação das diferentes denominações evangélicas na política e na religião?

R. Em principio elas são concorrentes no campo religioso. No próprio meio evangélico a Universal é muito controversa. Mas são corporativistas. Quando têm inimigos em comum, como feministas ou LGBTs, elas se unem. A Frente Parlamentar Evangélica se une no Congresso, e por vezes se aliam com os católicos também, contra parlamentares, bandeiras e pautas que os desagradam. Os interesses materiais, institucionais, ou algumas pautas morais, como aborto, provocam uma reação em grupo dos evangélicos: quando eles têm adversários seculares, eles se unem. Mas em muitas questões não. Uma parte dessa bancada evangélica é governista, e outra parte está na oposição. Os políticos evangélicos estão pulverizados em várias legendas diferentes, e é muito comum lançarem candidaturas concorrentes. O fato de haver um candidato evangélico ao Executivo não quer dizer que ele receberá o apoio de todas as lideranças evangélicas.

P. O Silas Malafaia, da Assembleia de Deus, apoiou o Crivella, apesar de ser crítico da Universal. Como você avalia esse apoio?

R. O Silas Malafaia é um adversário do Edir Macedo, da Universal. E por isso ele se tornou aliado da Rede Globo, que disputa com a Rede Record. Quando a Globo percebeu um evangélico com grande visibilidade pública que não era da Universal, se aproximou dele e abriu espaço para a cobertura de seus eventos, como a Marcha para Jesus. E por sua vez o Malafaia virou uma metralhadora ambulante contra a Universal. Mas nesse momento na eleição do Rio ele não tinha como se aliar ao Freixo. O psolista defende tudo o que o Malafaia abomina, as pautas políticas dos dois são muito distintas, o Freixo é a favor de minorias, adoção LGBT, tudo isso. E é importante lembrar que o PSOL é um dos principais adversários da Frente Parlamentar Evangélica no Congresso.

P. O que diferencia a estratégia do PRB da estratégia de outros partidos evangélicos, como o PSC, do pastor Marco Feliciano e de Jair Bolsonaro?

R. O PRB está tentando ampliar seu leque de aliados e alianças no espectro do centro partidário, que concentra a maior parte do eleitorado. Nos últimos anos o PRB não está vinculado exclusivamente no campo evangélico, e nem se restringe apenas à Universal. O Projeto de poder do PRB é muito mais amplo do que o PSC. Ele quer a presidência e governos do Estado, é um partido que pensa grande. Por isso entendem que não podem se alinhar seja à extrema esquerda ou à extrema direita. Ele quer o centro. Já o PSC é um partido que se transformou num partido de extrema-direita com a família Bolsonaro, e em 2014 com o pastor Everaldo. Ele está à direita do PRB. E isso cobrou um preço do PSC: em 2014 a legenda elegeu menos candidatos que em 2010.