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“A esquerda abriu espaço e legitimou os evangélicos na política”

Para professor da USP Ricardo Mariano, Marcelo Crivella, eleito no Rio, usa discurso laico como estratégia

Marcelo Crivella.
Marcelo Crivella. AFP

Um bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus vai assumir, em 2017, o comando da segunda maior cidade do Brasil, o Rio de Janeiro. Veterano de disputas para o Governo estadual e para o comando da capital fluminense, Marcelo Crivella (PRB) seguiu nestas eleições um script já conhecido de políticos evangélicos. Segundo Ricardo Mariano, professor de sociologia da Universidade de São Paulo e autor do livro Neo Pentecostais (Edições Loyola), essa estratégia consiste em se distanciar o máximo possível da Universal e adotar um discurso mais palatável para o eleitor. Para o professor, uma das consequências da vitória de Crivella será o aprofundamento das parcerias entre o Estado e as igrejas evangélicas, principalmente na área da Saúde. "Em muitos casos é um recurso público sendo instrumentalizado para fins religiosos", afirma.

Pergunta. Quais os motivos que levaram à eleição de Marcelo Crivella no Rio? O voto evangélico explica isso?

O professor Ricardo Mariano.
O professor Ricardo Mariano.

Resposta. É necessário olhar o cenário de disputa local. O que ocorreu ali foi um erro crasso do PMDB, particularmente do Eduardo Paes, de lançar como candidato o Pedro Paulo, que tinha uma enorme rejeição entre o eleitorado carioca. A partir deste problema do PMDB, que ficou fora do segundo turno, restou o Crivella. Ele costuma chegar ao segundo turno, sempre teve cerca de um terço do eleitorado, e esta já foi sua quarta tentativa de chegar ao Executivo. E para disputar com ele na reta final foi um candidato da esquerda, em um momento em que a esquerda está em declínio no país. Marcelo Freixo é muito associado ao discurso contra o impeachment de Dilma Rousseff, e o PSOL é frágil como partido político. Além disso, o eleitorado do Freixo é muito limitado, tem um perfil de classe média, formação superior, etc. Mas sem bases nas periferias.

Então o que favoreceu a eleição do Crivella, antes de se pensar em seus méritos, foi a ausência de um concorrente com grande viabilidade eleitoral. Quanto ao voto evangélico, no Rio, mais de 90% dos pentecostais apoiaram o Crivella. Mas como ele tinha uma margem grande de diferença com relação ao Freixo, ele não ganhou particularmente por conta deste eleitorado apenas.

P. O Crivella tentou se distanciar da Igreja Universal, da qual é bispo licenciado. Isso ajudou?

R. Até o segundo turno ele tinha um perfil mais de centro, moderado. Ele sempre faz uma tentativa de dissociar sua imagem da Igreja Universal. Ele deixa claro que é evangélico, mas que está licenciado e que irá governar para todos. O Crivella até tentou forçar uma aproximação com a Igreja Católica, e adotou um discurso de que respeitaria todos, não perseguiria umbandistas nem adeptos do candomblé. Esse esforço diz respeito ao fato de que ele está vinculado a uma minoria religiosa, como John Kennedy nos Estados Unidos dos anos 60, que era identificado com a minoria católica do país. A Marina Silva, idem. Para enfrentar esse obstáculo ele insistiu no caráter laico do Estado brasileiro, lançando mão de um discurso defensivo, que é parte da estratégia eleitoral do candidato evangélico.

P. Por que em São Paulo essa estratégia do PRB não deu certo com o Celso Russomanno?

R. São diferenças do cenário político local. O Crivella tem uma longa historia de disputas na cidade. Ele sempre disputou o governo do Estado e o município, além de ser senador eleito pelo Rio. Já o Russomanno estava enfrentando candidatos de grande recall na cidade, como as ex-prefeitas Marta Suplicy (PMDB) e Luiza Erundina (PSOL), além do atual prefeito Fernando Haddad (PT), e o João Doria (PSDB). O Doria contou com o apoio do governador Geraldo Alckmin, que em São Paulo é um cabo eleitoral fortíssimo. E o candidato tucano representava a centro direita, o mesmo segmento ideológico que Russomanno, logo ambos disputavam o mesmo eleitor. Só que a candidatura do Doria era muito mais encorpada, contava com mais partidos no arco de aliança, o que ajudou a desidratar Russomanno. Se não houvesse o Doria, a probabilidade de que ele fosse para o segundo turno seria enorme.

P. Esse processo do crescimento dos partidos e da bancada evangélica começou quando?

R. Os evangélicos fazem parte do cenário político há 30 anos, não começou ontem. Essa participação na esfera pública não começou agora com a eleição do Crivella. É importante deixar claro que os governos de esquerda, de Lula e Dilma, fizeram muitos acenos a esse segmento. Eles prometiam aos evangélicos o aumento das parcerias do Estado com as igrejas em troca de apoio parlamentar e votos. A ocupação evangélica de espaços na implementação de políticas públicas é recente. A esquerda abriu muito esse espaço e legitimou essa participação, principalmente na área da Saúde que trabalha com recuperação de usuários de drogas. Vale lembrar que essas parcerias já existiam com as igrejas católicas.

É importante deixar claro que os governos de esquerda, de Lula e Dilma, fizeram muitos acenos ao segmento evangélico

P. Essa ampliação de parcerias é positiva?

R. Quando essas parcerias se tornam problemáticas do ponto de vista da laicidade do Estado? É quando esses grupos religiosos pegam recursos públicos e implementam políticas fazendo proselitismo. Em muitos casos é um recurso público sendo instrumentalizado para fins religiosos. É o caso específico dessas igrejas envolvidas em tratamento de usuários de drogas. Muitas vezes ao invés de recorrer a profissionais, psicólogos, assistentes sociais, etc, eles adotam discursos religiosos, técnicas religiosas de tratamento, voltadas para atrair o paciente para sua denominação, sua igreja. Isso atenta contra a laicidade do Estado.

P. Acha que o governo de Crivella à frente da prefeitura do Rio vai privilegiar evangélicos?

R. É provável que a prefeitura conduzida pelo Crivella vá facilitar alguns pontos para as igrejas evangélicas. Seja a lei do PSIU [que exige silêncio nos estabelecimentos e igrejas após determinada hora], seja o código de edificações... As igrejas querem atropelar o código e construir mais do que podem, visando ampliar seus templos. Isso tem impactos profundos no trânsito e no espaço público da cidade. A prefeitura tende a facilitar esses tramites legais com a regularização dos terrenos e a flexibilização da legislação. Além disso, Crivella deve ampliar as parcerias com as igrejas já firmadas pelo Eduardo Paes, oferecer mais recursos para elas.

P. Em que medida as ligações entre o PRB, Igreja Universal e rede Record favorecem os candidatos da legenda?

R. É difícil separar a Igreja Universal do PRB e das empresas de mídia, é muito difícil traçar uma fronteira. O PRB foi criado pela Universal em 2005. A Rede Record foi comprada pela igreja em 1989, e reforça seus interesses. No telejornalismo da emissora, por exemplo, a Universal é sempre beneficiada. Além disso ela própria ocupa boa parte da programação, com seus bispos e pastores. E parte do setor de criação ficcional da Record também atua a reboque da mensagem da Igreja, com novelas bíblicas. Por outro lado, a Universal paga valores muito acima do mercado para comprar horários na Record, principalmente na faixa da madrugada, eles injetam muito dinheiro lá dentro. E eles apostam em candidatos-celebridade, alguns com programas na grade da emissora, como Celso Russomanno. Então são coisas que se retroalimentam.

O fato de haver um candidato evangélico ao Executivo não quer dizer que ele receberá o apoio de todas as lideranças evangélicas

P. Esse conglomerado político-midiático-religioso representado por PRB, Record e Universal é uma ameaça à democracia?

R. Eu não tenho como avaliar se é ameaça à democracia, pois seria um julgamento político. Mas o que vem acontecendo até agora é que eles tentam, com determinadas pautas e ao defender sua liberdade religiosa, se opor a projetos de lei de viés liberal. Na prática eles tentam assegurar que o Estado continue discriminando minorias sexuais, por exemplo. É uma pauta de autodefesa de seus valores, mas que implica a proposição da discriminação estatal a determinados grupos sociais. E isso atenta contra princípios claros da democracia, de direitos iguais.

P. Como é a relação das diferentes denominações evangélicas na política e na religião?

R. Em principio elas são concorrentes no campo religioso. No próprio meio evangélico a Universal é muito controversa. Mas são corporativistas. Quando têm inimigos em comum, como feministas ou LGBTs, elas se unem. A Frente Parlamentar Evangélica se une no Congresso, e por vezes se aliam com os católicos também, contra parlamentares, bandeiras e pautas que os desagradam. Os interesses materiais, institucionais, ou algumas pautas morais, como aborto, provocam uma reação em grupo dos evangélicos: quando eles têm adversários seculares, eles se unem. Mas em muitas questões não. Uma parte dessa bancada evangélica é governista, e outra parte está na oposição. Os políticos evangélicos estão pulverizados em várias legendas diferentes, e é muito comum lançarem candidaturas concorrentes. O fato de haver um candidato evangélico ao Executivo não quer dizer que ele receberá o apoio de todas as lideranças evangélicas.

P. O Silas Malafaia, da Assembleia de Deus, apoiou o Crivella, apesar de ser crítico da Universal. Como você avalia esse apoio?

R. O Silas Malafaia é um adversário do Edir Macedo, da Universal. E por isso ele se tornou aliado da Rede Globo, que disputa com a Rede Record. Quando a Globo percebeu um evangélico com grande visibilidade pública que não era da Universal, se aproximou dele e abriu espaço para a cobertura de seus eventos, como a Marcha para Jesus. E por sua vez o Malafaia virou uma metralhadora ambulante contra a Universal. Mas nesse momento na eleição do Rio ele não tinha como se aliar ao Freixo. O psolista defende tudo o que o Malafaia abomina, as pautas políticas dos dois são muito distintas, o Freixo é a favor de minorias, adoção LGBT, tudo isso. E é importante lembrar que o PSOL é um dos principais adversários da Frente Parlamentar Evangélica no Congresso.

P. O que diferencia a estratégia do PRB da estratégia de outros partidos evangélicos, como o PSC, do pastor Marco Feliciano e de Jair Bolsonaro?

R. O PRB está tentando ampliar seu leque de aliados e alianças no espectro do centro partidário, que concentra a maior parte do eleitorado. Nos últimos anos o PRB não está vinculado exclusivamente no campo evangélico, e nem se restringe apenas à Universal. O Projeto de poder do PRB é muito mais amplo do que o PSC. Ele quer a presidência e governos do Estado, é um partido que pensa grande. Por isso entendem que não podem se alinhar seja à extrema esquerda ou à extrema direita. Ele quer o centro. Já o PSC é um partido que se transformou num partido de extrema-direita com a família Bolsonaro, e em 2014 com o pastor Everaldo. Ele está à direita do PRB. E isso cobrou um preço do PSC: em 2014 a legenda elegeu menos candidatos que em 2010.

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