“Só as polícias não darão conta das duas facções”, diz ex-líder do Comando Vermelho

Ex-traficante, agora pastor, prevê mais mortes nas cadeias e reflexo nas ruas com fim de pacto

O hoje pastor Aldidudima Salles.
O hoje pastor Aldidudima Salles.

Pergunta. Você acha possível que o Comando Vermelho e o PCC retomem seu pacto de aliança?

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Resposta. É difícil um acordo a essa altura, a não ser que os chefões das duas facções tentem controlar isso. Mas é difícil haver um acordo depois das mortes que ocorreram nos presídios de Roraima e Rondônia. Ainda mais naquelas circunstâncias [dia de visita, considerado o mais importante para os presos].

P. O que pode ter causado o rompimento?

R. Quando aconteceu a morte do rei da fronteira, o Rafaat [Jorge Rafaat Toumani, traficante assassinado em Juan Caballero, fronteira do Brasil com Paraguai, em junho deste ano], eu comentei que aquilo não ia dar boa coisa. Ele foi morto pelo PCC e pelo CV [há versões de que foi apenas o PCC que atuou na ação e outra de que foi uma ação conjunta, com posterior batalha pelo domínio da rota deixada pelo traficante]. É experiência de ter vivido dentro de uma facção. Eu acho que romperam por luta de poder: o CV não aceita receber ordem. O PCC idem. Então deve ter havido essa separação por um querer mandar mais que o outro. E no final de contas, o dinheiro sempre fala mais alto.

P. O que deve acontecer agora?

R. Eu acredito que não vai ficar barato, que vai ter uma guerra. Se o Governo Federal não colocar o Exército na rua, não vai ter jeito. Só as policias civil e militar dos Estados não dão conta de lidar com duas facções desse porte, com esse tipo de armamento que eles têm. E muita gente vai morrer.

P. E a situação das cadeias, você acha que acontecerão mais mortes?

R. Não acho, tenho certeza de que terão mais mortes nas cadeias. Se a Justiça não abrir o olho para controlar agora, pode ser que amanhã seja tarde.

P. Você mencionou o Rafaat. Na sua época de CV as conexões internacionais já eram importantes para o tráfico?

R. Naquela época as conexões internacionais já eram fundamentais. A droga entrava pelas fronteiras, Colômbia, Paraguai. Bolívia e Peru. Buscávamos de avião monomotor, voando bem baixo para não ser pego pelo radar. Fui treinado por Pablo Escobar Gaviria em Medellín, na Colômbia. O treinamento que recebi dele foi para mexer com droga, fazer ela render, dar mais dinheiro.

P. Quando você era do CV, a facção tinha alguma relação com criminosos paulistas?

R. Na minha época não existia PCC. Tinham traficantes de São Paulo para quem a gente repassava droga.

P. O CV de hoje em dia é diferente da facção da sua época?

R. Quando nós começamos o CV, nosso estatuto, era bem diferente. Tínhamos normas que eram cumpridas. Hoje em dia não tem mais norma, não. Respeitávamos pai e mãe, não violentávamos ninguém, não assaltávamos pobres... Não concordávamos com esse tipo de coisa. Nosso foco era droga e assalto a banco. Hoje se mata por cem reais, por um par de tênis.

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