Macri admite oficialmente que um em cada três argentinos é pobre

O governo restabelece estatísticas suspensas pelo kirchnerismo em abril de 2014

A Villa 31 de Buenos Aires, em uma foto de arquivo.
A Villa 31 de Buenos Aires, em uma foto de arquivo.Ricardo Ceppi

Um em cada três argentinos é pobre. E não é mais um dado oficioso, elaborado pela Igreja Católica, mas a primeira cifra oficial de pobreza do Governo de Mauricio Macri, nove meses depois de chegar ao poder. Macri venceu as eleições com a promessa de alcançar a “pobreza zero”, e agora aceita que está longe desse objetivo. “É óbvio que não dá para chegar à Pobreza Zero em quatro anos. É um objetivo que não dá para resolver em um único governo”, admitiu o presidente em uma conferência de imprensa após divulgar este dado demolidor em um país historicamente rico e que produz alimentos para 400 milhões de pessoas. Na verdade, desde que Macri chegou ao poder, de acordo com os números usados até agora pela Igreja e que o presidente aceitou, há 1,4 milhão de novos pobres. O presidente assume que esse é o principal dado pelo qual será julgado, a partir de agora, seu Governo.

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O Indec, o escritório encarregado das estatísticas oficiais, foi responsável por fornecer a primeira cifra oficial de pobreza da era macrista: de acordo com seus dados, no primeiro semestre do ano, 32% dos entrevistados eram pobres. Sobre uma população registrada de 27 milhões de pessoas (de um total nacional de 45 milhões de habitantes) em 31 conglomerados urbanos, 8,8 milhões não cruzam o limiar mínimo de renda. Deste número, 1,7 milhão são indigentes, quer dizer, não ganham o suficiente para cobrir suas necessidades alimentares. São os primeiros números oficiais de pobreza desde abril de 2014, quando o kirchnerismo suspendeu a divulgação por considerar que os resultados não eram mais politicamente aceitáveis. Macri interveio em dezembro no Indec e prometeu normalizar as estatísticas. Os primeiros dados oficiais foram muito negativos até agora.

O Governo levou a sério a dimensão da cifra oferecida pelo Indec. Após o anúncio, Macri convocou uma conferência de imprensa em Olivos, onde se encontra a residência oficial. “O que temos agora na Argentina são dados reais. O que tínhamos há alguns meses era uma ficção de números que não respeitam a realidade. Este é o verdadeiro ponto de partida da Argentina, esta é a realidade. Aceito ser avaliado pela capacidade de reduzir a pobreza, e este é o ponto de partida. O outro é desculpa”, disse Macri. O número é tão alto que qualquer queda a partir de agora será considerada um grande sucesso pelo Executivo.

O presidente admitiu que ninguém imaginava que a situação seria tão grave quando os argentinos votaram nele há um ano e apostaram nele, que ofereceu uma imagem muito positiva. “Se a maioria dos argentinos optou por uma mudança é porque sentia que as coisas não estavam indo muito bem”, explicou para admitir imediatamente: “Todos nós ficamos surpresos que o ponto de partida era muito pior, porque o nível de fraude era muito grande e a corrupção que encontramos era enorme. Isso nos levou a subir uma ladeira mais difícil do que havíamos imaginado. Mas os argentinos são determinados”, disse Macri.

O número de pobres registrado pelo Governo argentino não está muito distante daqueles apontados nos últimos anos por estudos particulares que cobriram o vazio deixado pelo Indec. O mais confiável, que serviu como referência, é aquele elaborado pelo Observatório da Dívida Social Argentina (ODSA), subordinado à Universidade Católica Argentina (UCA). Com os dados em mãos, Macri poderá agora determinar a dimensão do trabalho que terá pela frente se pretende cumprir sua promessa de pobreza zero. Principalmente porque desde janeiro ela não parou de crescer. Em dezembro, o ODSA apontou que 29% dos argentinos eram pobres. E em seu último relatório disse que 1,4 milhão de pessoas cruzaram a linha da pobreza desde o início do macrismo.

A maquiagem das estatísticas oficiais foi uma constante no Governo anterior e Macri prometeu durante a campanha eleitoral que reverteria a situação. Uma de suas primeiras medidas foi intervir no Indec. Desde então, o órgão forneceu taxas de evolução do Produto Interno Bruto (-3,4% no segundo trimestre) e da inflação (0,2% em agosto). Os dados são dificilmente comparáveis com os de períodos anteriores. Em dezembro de 2013, a UCA apontou que a taxa de pobreza era de 25% da população, mas o índice divergia drasticamente daquele apresentado pelo Governo de Cristina Fernández de Kirchner.

O último relatório do Indec kirchnerista, divulgado no fim do primeiro trimestre de 2013, constatou que 4,7% da população argentina era pobre, com 1,4% de indigentes. A partir desse momento, e frente à evidência de que qualquer número divergiria das cifras da UCA, Kirchner decidiu suspender os estudos. A desatualização estatística atingiu o auge em 2015, quando o então ministro-chefe Aníbal Fernández disse que a Argentina tinha menos pobres do que a Alemanha. “Não faltaremos mais com o respeito à inteligência da população, não voltaremos a dizer que na Argentina há menos pobreza do que na Alemanha”, disse Macri.

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