Medalhista de prata no Rio: “Ainda não chegou a hora da minha eutanásia”

Atleta paralímpica Marieke Vervoort tem assinados os papéis para sua morte "Mas ainda desfruto a cada instante", diz a belga de 37 anos

Marieke Vervoort celebra seu segundo lugar nos 400 metros. Legendas em espanhol. MAURO PIMENTEL (AP) / VÍDEO: REUTERS-QUALITY (reuters_live)
El País|Agencias
Rio de Janeiro / Madri - 12 sep 2016 - 20:49 UTC

Marieke Vervoort, a atleta belga de 37 anos que já assinou a documentação autorizando sua eutanásia, ganhou no fim de semana a medalha de prata na prova de 400 metros de ciclismo de pista em cadeira de rodas, nos Jogos Paralímpicos do Rio 2016. Tendo atingido a meta que havia fixado para si mesma ao longo dos últimos anos de duro e dolorido treinamento, Vervoort acredita que ainda não chegou o momento de sua morte legal. “Ainda não chegou a hora. Já assinei a documentação autorizando a eutanásia para quando eu achar que não dá mais para mim”.

Depois de conquistar a medalha, a atleta falou com a imprensa, que a questionou sobre a sua já anunciada eutanásia. “Já assinei a documentação [da eutanásia], mas ainda desfruto cada momento. Quando chegar a hora, quando os dias ruins foram em maior número do que os bons, para esse dia, já tenho a documentação para a eutanásia. Mas a hora ainda não chegou”. A eutanásia é reconhecida legalmente na Bélgica, e a atleta tem a autorização em suas mãos desde 2008.

Vervoort, que já havia ganhou outras duas medalhas olímpicas, tem a metade inferior do corpo paralisada, uma visão limitada a 20% e dores que a impedem de dormir durante longas noites. A doença degenerativa incurável de que ela sofre dificulta cada vez mais a sua recuperação; e há noites, após uma corrida, em que mal consegue adormecer. Seu sofrimento teve início aos 14 anos de idade. “É uma luta permanente. Enxergo mal, apenas uns 20%, e sofro ataques epiléticos. O que virá mais?”.

Vervoort confirmou para os jornalistas que esta será a sua última participação nos Jogos Paralímpicos. “Depois desta edição, quando eu sair daqui, irei desfrutar cada pequeno instante. Vou me voltar mais para a minha família e aos amigos, a quem não pude dedicar muito tempo, pois, sendo um esporte de competição, eu tinha de treinar todos os dias”.

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A medalhista não conseguiu esconder dos jornalistas a sua satisfação por ter conquistado o segundo lugar. “É claro que eu sinto ‘Puxa, ganhei uma medalha de prata’, mas este metal tem uma outra face, a do sofrimento e de uma despedida do esporte. Porque eu amo o esporte, o esporte é a minha vida”.

Vervoort se tornou um símbolo para os defensores da eutanásia. Ela acredita que a sua decisão faz outras pessoas se sentirem melhor. “Se eu não tivesse a documentação da eutanásia, creio que já teria me suicidado, porque é muito difícil viver com tanta dor e tanto sofrimento e sob essa incerteza”.

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