Análise
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Sem passar a limpo

Nasce no Brasil um novo Governo que não tem a legitimidade das urnas

Dilma Rousseff, em ato em Brasília no último dia 24.
Dilma Rousseff, em ato em Brasília no último dia 24.Cadu Gomes / EFE

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Durante dois anos, desde que conseguiu a reeleição com 54,5 milhões de votos, Rousseff se transformou, aos olhos da opinião pública, na causa de todos os males que assolam o Brasil. Não importa qual crise nacional seja considerada, a presidenta é responsabilizada por praticamente todas, desde a corrupção de ministros e partidos políticos até a galopante crise econômica e a epidemia do zika vírus.

As concentrações de detratores da presidenta, com seu lema “tchau, querida”, tornaram-se elemento fixo em São Paulo, sendo suas barracas tão presentes quanto os arranha-céus e as antenas da avenida Paulista. E conseguiram. Depois de tantos protestos, panelaços e sessões-maratona no Congresso, finalmente Rousseff está à beira de deixar a Presidência, algo que ela parece ter admitido, apesar de tudo. Já se comenta em Brasília que ela avalia fazer uma viagem particular à Europa quando sua deposição se tornar definitiva.

O que acontecer no primeiro dia da presidência definitiva de Michel Temer já não poderá ficar no plano dos desejos. Seu partido está encurralado pelos mesmos escândalos de corrupção que o Partido dos Trabalhadores, de Rousseff. Três ministros de seu gabinete –criado em maio– pediram demissão quando se viram citados no caso de corrupção da Petrobras. O próprio Temer foi mencionado na investigação. Uma nova era no Brasil? Perguntem isso à metade dos legisladores em exercício, que têm causas pendentes na Justiça.

Não, na nova presidência definitiva de Temer não terá desaparecido por mágica a corrupção; nem a falta de demanda internacional de matérias-primas; nem a enorme dívida pública e privada de empresas e famílias. Vou além, atrevendo-me a prever que também não terão se esfumado os eleitores tradicionais do PT em seus feudos do Nordeste, ou os 40 milhões de pessoas que o partido tirou da pobreza extrema em seus 13 anos no poder. É provável que todos esses eleitores, num país em que o voto é obrigatório, tenham algo a dizer daqui a dois anos, quanto Temer precisará se submeter não ao julgamento dos protestos nas ruas, e sim ao da verdadeira legitimidade, que nesse caso somente as urnas dão.

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