A última chance de Dilma Rousseff

Presidenta afastada ficará, pela primeira vez, frente a frente com seus julgadores para se defender

Rousseff, em ato em Brasília na véspera do julgamento.
Rousseff, em ato em Brasília na véspera do julgamento.ANDRESSA ANHOLETE (AFP)

Quando Dilma Rousseff cruzar o salão de carpetes azuis do Senado Federal na manhã desta segunda-feira estará a minutos de encarar, de uma só vez, todos os seus 81 julgadores. Será a primeira vez nesses 271 dias de investigação no Congresso que a presidenta afastada se defenderá pessoalmente das acusações de que cometeu crime de responsabilidade fiscal. E também a última chance que ela terá para convencer alguns poucos senadores indecisos de que merece ficar no cargo. Este será o ponto alto do histórico julgamento da chefe de Estado.

Rousseff entrará no Congresso acompanhada de uma comitiva de 20 pessoas, formada pelos ex-ministros e congressistas que permaneceram ao seu lado mesmo após seu afastamento, em 12 de maio, e que participaram ativamente de sua preparação. Ela se sentará na mesa da presidência duas cadeiras à esquerda do ministro do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski, que comanda o júri. E por 30 minutos -que podem marcar seu último discurso como presidenta do Brasil -trará uma fala "emocionante", garantem  seus apoiadores, com o objetivo de reverter ao menos os seis votos que precisa para ser inocentada do crime de responsabilidade fiscal.

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José Eduardo Cardozo, seu advogado e ex-ministro da Justiça, afirma que ela privilegiará em sua fala mais aspectos políticos do que jurídicos, debatidos à exaustão nos três dias iniciais de julgamento. Seus apoiadores pretendem ainda explorar o simbolismo de tê-la, mais uma vez, questionada por pessoas que, segundo dizem eles, atentam contra a democracia, como aconteceu quando Rousseff foi presa e torturada na ditadura militar (1964-1985). "Ela é vítima novamente, como na juventude, quando enfrentou a ditadura para lutar pela reconquista da democracia no país", afirma a senadora petista Fátima Bezerra. 

No bunker que se transformou o Palácio da Alvorada nos três últimos meses, Rousseff esteve cercada de Aloizio Mercadante, Jacques Vagner, Miguel Rossetto, Ricardo Berzoini e Eleonora Menicucci, que ao lado dos senadores Kátia Abreu -uma das mais empenhadas em sua defesa no Congresso Nacional- e de Armando Monteiro formam o time de ex-ministros que a auxiliaram com os dados de suas pastas. Com a munição deles, ela apresentará a defesa de seu Governo e da decisão de remanejar o Orçamento para não prejudicar áreas importantes para a população. Os mesmos senadores que a prepararam são os que formularão as questões que ela responderá. Em uma metáfora esportiva, os parlamentares levantarão a bola para ela cortar.

No grupo que a acompanhará ao Senado estará ainda seu padrinho político, Luiz Inácio Lula da Silva, que anunciou apenas nesta semana que, finalmente, iria a Brasília para presenciar a defesa e participará de dois atos, um antes e outro depois da fala dela. Estará acompanhado ainda de Rui Falcão, presidente do diretório nacional do Partido dos Trabalhadores, que representará a legenda que a elegeu mas que, na semana passada, se descolou dela ao rejeitar oficialmente a ideia de um plebiscito para novas eleições presidenciais, caso Rousseff volte ao poder.

Para aliados, o aceno de um acordo com senadores aconteceu tarde demais. E, se em três meses, ela não conseguiu os 28 votos necessários para impedir sua perda de mandato, dificilmente conseguiria os 49 votos dos senadores para aprovar a mudança na Constituição Federal que permitiria encurtar o mandato presidencial por meio de uma consulta popular. Isso sem contar o apoio de 308 dos 513 deputados federais brasileiros.

Segundo seus apoiadores, Rousseff estará pronta para responder, caso seja preciso, aos senadores. Após a fala inicial dela, cada um deles terá até cinco minutos para, pela primeira vez, questionar uma presidenta da República que, durante todo seu mandato, evitou o quanto pode falar com os parlamentares. Essa falta de tato com colegas políticos, aliás, é apontada como uma das razões para sua iminente queda.

Os senadores de acusação, entretanto, afirmam que vão preferir se manter em silêncio. A estratégia deles é encurtar o tempo do julgamento e não dar munição aos petistas que propagam a tese de que o Governo está sofrendo um golpe parlamentar. “Ela já falou muito na campanha [eleitoral de 2014], já falou muito enquanto governou e nada mudou. Ela será julgada pelo crime de responsabilidade, não pelo seu discurso”, afirmou o senador Álvaro Dias, do PV, logo no começo do julgamento. A falta de perguntas de seus opositores será um gesto, talvez simbólico, para dizer que os argumentos já não importam mais. Eles já tomaram a decisão.

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