ELEIÇÕES ESTADOS UNIDOS

Trump dispensa seu segundo chefe de campanha em dois meses

Republicano aceita a renúncia de Manafort, ligado aos pró-russos da Ucrânia

O lobbista e até agora chefe de campanha de Trump Paul Manafort.MATT ROURKE

“Esta manhã, Paul Manafort ofereceu, e eu aceitei, sua renúncia da campanha”, disse Trump em um comunicado no qual não menciona os controversos vínculos com Moscou.

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Manafort é um lobista experiente que contava, em sua lista de clientes, com ditadores como Mobutu Sese Seko ou Ferdinand Marcos das Filipinas. Nos últimos anos, trabalhou para o presidente ucraniano pró-russo Viktor Yanukovich. O The New York Times revelou esta semana que seu nome aparece em um livro de contabilidade do partido pró-russo na Ucrânia como destinatário de 12,7 milhões de dólares (40,8 milhões de reais). O lobista negou ter recebido o pagamento. O Escritório Nacional Anticorrupção da Ucrânia publicou ontem à noite o registro de 22 pagamentos destinados a Manafort por trabalhos realizados para Yanukovich ou seu partido, mas sublinhou que, embora seu nome apareça nos registros, não consegue saber se o norte-americano recebeu o dinheiro, já que a assinatura confirmando o recebimento do montante “poderia ser de outra pessoa”, informa a agência AFP.

O peso do poderoso lobista começou a cair no início desta semana, quando Trump fez sua segunda grande reforma depois de uma queda nas pesquisas. Embora Trump tenha nomeado Steve Bannonc, diretor do ultraconservador Breitbart News, como chefe de campanha, afirmou em um primeiro momento que tinha a intenção de manter Manafort na equipe.

Um dos filhos de Trump, Eric, disse à Fox News que a mudança de opinião ocorria porque seu pai “não queria se distrair” com os problemas de Manafort.

A notícia da renúncia de Manafort chegou quando Trump aterrissava em Luisiana, onde as fortes chuvas causaram graves inundações, que já deixaram 13 mortos e 40.000 casas danificadas. A visita não foi bem recebida pelo governador da Luisiana, o democrata John Bel Edwards, que advertiu o candidato republicano para que não fosse ao local apenas para tirar uma foto de campanha.

“Damos as boas-vindas à Luisiana, mas não para posar na frente das câmeras. Em vez disso, esperamos que considere a possibilidade de fazer trabalho voluntário ou um donativo importante para o fundo de ajuda às vítimas das inundações”, disse Edwards.

Obama também vai visitar a Luisiana na próxima semana

Trump chegou à Luisiana em seu jato particular e acompanhado por um forte esquema de segurança com o qual se moveu rapidamente para Greenwell Springs, uma comunidade na periferia de Baton Rouge, onde se reuniu com alguns dos atingidos e, na frente das câmeras, se uniu a uma corrente de pessoas que ajudava a descarregar caixas com ajuda de um caminhão.

“Trump visita as vítimas das inundações na Luisiana, enquanto Hillary (Clinton) descansa e Obama continua de férias”, foi a manchete do Breitbart News sobre a viagem. Falando com jornalistas, o candidato republicano disse que concordava com alguns moradores que disseram, afirmou, que o presidente deveria encurtar suas férias em Martha’s Vineyard, que terminam este domingo, para visitar os afetados. Algumas horas mais tarde, a Casa Branca anunciou que Obama vai viajar para Baton Rouge na próxima terça-feira. Sem fazer referência direta às críticas, o porta-voz de Obama, Josh Earnest, afirmou que “o presidente está ansioso para conhecer em primeira mão” a situação. Mas, ao mesmo tempo, acrescentou, “está ciente do impacto que uma viagem sua tem nos esforços de emergência e quer garantir que sua presença não interfira com os esforços de recuperação”.

O que lamenta o candidato politicamente incorreto

A viagem de Trump – que não estava em sua agenda – aconteceu horas depois de ele afirmar, em uma reunião em Charlotte, na Carolina do Norte, “lamentar” algumas das coisas que disse e que podem ter causado “danos pessoais”. Suas palavras estão longe de um pedido de desculpas aberto e ele também não especificou o que lamenta. Mesmo assim, surpreenderam, em um candidato que nos últimos meses não hesitou em fazer carreira insultando e atacando imigrantes, minorias étnicas ou religiosas e até veteranos, famílias de soldados mortos em combate ou mulheres.

“Às vezes, no calor de um debate, e falando sobre muitas coisas, você não escolhe as palavras corretas ou diz algo errado. Eu fiz isso”, disse Trump na noite de quinta-feira. “E, acreditem ou não, lamento isso. Lamento especialmente se tiver causado algum dano pessoal”, disse com um meio sorriso. “Há muita coisa em jogo para perder tempo com essas questões. Mas uma coisa eu digo: posso prometer isso, sempre vou dizer a verdade”, acrescentou em meio a aplausos.

Trump leu todo seu discurso, incluindo seu pedido de desculpas incomum, em um teleprompter. Outro gesto incomum para um candidato que meses atrás atacou seus adversários pela utilização desta ajuda em seus discursos. “Sempre disse que se você se candidata para ser presidente, não deveria usar um teleprompter pois ele não permite saber se o candidato é inteligente”, disse em um discurso de pré-campanha no final do ano passado. Trump começou a fazer uso deste apoio no final de março, embora na maioria de suas aparições tenha falado sem seguir um roteiro. Usou um teleprompter em seu discurso de aceitação da indicação republicana em Cleveland em julho e em outros discursos formais, como no seu discurso sobre política externa nesta semana, quando voltou a enfurecer muçulmanos e imigrantes ao pedir um “escrutínio extremo” e até um exame ideológico para quem quer entrar nos EUA.

O primeiro anúncio de televisão do candidato Trump

A renovação da equipe de campanha de Trump, com a entrada de um grupo que se encontra entre os mais combativos contra o establishment republicano, tinha levantado dúvidas sobre a intenção do candidato de redirecionar sua campanha para caminhos mais tradicionais em uma final eleitoral. Desde então, Trump voltou a usar o teleprompter, quase pediu desculpas e até lançou, na sexta-feira, seu primeiro anúncio de televisão já como candidato oficial, algo que seu partido pedia e que o magnata de Nova York tinha ignorado até agora.

O anúncio, no entanto, não se desvia do seu estilo agressivo e anti-imigrante. Intitulado “Duas Américas: Imigração”, ele acusa sua rival, a democrata Hillary Clinton, de querer permitir um Estados Unidos “fraudulento”, no qual “refugiados sírios chegam em ondas” e é permitido que “fiquem os imigrantes ilegais condenados por crimes” contra os “Estados Unidos com segurança de Donald Trump” que “vai manter fora” de suas fronteiras os “terroristas e criminosos perigosos”.

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