Teliana Pereira: da pobreza do sertão à elite do tênis

A tenista de 28 anos chegou ao topo do ranking brasileiro do tênis, atividade que começou a praticar por acaso

Teliana Pereira: da pobreza do sertão à elite do tênis

Em Águas Belas, um município de pouco mais de 40.000 habitantes no semiárido nordestino, só um quarto dos jovens de mais de 18 anos completaram o ensino fundamental, metade das casas têm renda mensal per capita de menos de 140 reais (abaixo da linha da pobreza da ONU) e três de cada dez pessoas vivem em habitações sem banheiro e água encanada. Mas uma de suas crias, de destino improvável, acabou se tornando uma das melhores brasileiras em um esporte geralmente praticado por jovens com bastante dinheiro.

Fadada à pobreza pelo círculo da desigualdade brasileira, a tenista Teliana Pereira, de 28 anos, que entrará em quadra neste final de semana para defender o Brasil nas Olimpíadas do Rio, é dona de uma história de vida moldada pelo acaso. Aos sete anos, deixou Águas Belas  acompanhada da família -além dos pais, mais cinco irmãos; uma sexta irmã morreu ainda bebê, de desidratação. Partiam para o Paraná, em uma viagem de três dias dentro de um ônibus. O pai, José, queria deixar para trás a vida de cortador de cana-de-açúcar e, um ano antes, havia mudado para a capital paranaense, onde começou a fazer bicos como pedreiro. Agora, voltava para buscar a família, pois tinha conseguido um trabalho para construir uma academia de tênis.

Teliana Pereira: da pobreza do sertão à elite do tênis

A decisão mudou a vida da família. José acabou agradando o dono da quadra, o francês Didier Rayon, que ofereceu a ele um emprego como faz-tudo. Arrumava, limpava, atendia no bar. Teliana, que até então nunca havia estudado, começou a frequentar a escola pelas manhãs e, de tarde, ficava na academia com os irmãos, ajudando o pai e brincando. Se numa das turmas de alunos faltasse uma criança para montar o time, um deles entrava em quadra para completar o número. E foi assim que Rayon percebeu que a menina levava jeito. "Ele dizia que ela tinha um olhar diferente, tinha facilidade e seguia tudo que ele pedia", conta o marido dela, Alexandre Zorning.

Aos dez anos, Teliana participou do primeiro torneio de sua vida, uma competição municipal de Curitiba. Ainda não conhecia bem as regras do jogo e contava com uma pessoa, que ficava atrás dela na quadra, para informá-la sobre os pontos que fazia. Foi assim que descobriu que havia sido a campeã. Com a vitória, o francês decidiu treiná-la para valer. Para poder participar das competições fora de Curitiba, ela precisava da ajuda financeira dos pais das outras crianças que treinavam na academia, alguns empresários importantes da cidade. Aos 12, conseguiu os dois primeiros patrocínios, de um café e de uma loja de roupas infantis, para a qual fazia propaganda na TV. No ano seguinte, pode aproveitar as férias escolares para competir na França, ao lado do treinador. "O tênis de verdade estava lá", dizia ele. Ela voltou com poucas vitórias, mas muita certeza de que queria fazer isso pra sempre. Passou a treinar todos os dias.

Teliana Pereira, quando começou a jogar.
Teliana Pereira, quando começou a jogar.

Aos 14, Teliana já era a número um do ranking brasileiro na categoria de menores de 18 anos. Passou a jogar torneios dentro e fora do Brasil, incluindo o Roland Garros juvenil, e se destacava como uma grande promessa do esporte brasileiro.Três anos depois, começou a pontuar nos torneios profissionais e, um ano depois, em 2007, ganhou o bronze, aos 19 anos, nos Jogos Pan-americanos do Rio na modalidade de duplas. Tornou-se a melhor jogadora do Brasil dois anos depois.

Estava em sua melhor fase em 2009, quando duas lesões no joelho a afastaram da quadra. Passou por duas cirurgias e ficou um ano e meio parada. Quando voltou, não tinha mais posição no ranking profissional e viu os patrocínios desaparecerem. Teve que fazer rifas e contar, novamente, com a ajuda de empresários da academia para poder competir. Demorou um ano para voltar a ser a melhor do Brasil. Em 2013, entrou para o top 100 mundial. Em 2015, foi responsável pela quebra de um jejum de 27 anos do esporte no país: venceu a cazaque Yaroslava Shvedova por 2 sets a 0 e ganhou o torneio Internacional de Bogotá, na Colômbia, seu primeiro título da Women’s Tennis Association ( WTA ), associação que organiza as competições femininas do esporte e o ranking das atletas. Era também a primeira vez que uma  brasileira obtinha o título após 27 anos, quando a gaúcha Niege Dias venceu em Barcelona. Chegou à posição 43 do ranking mundial.

Neste mesmo ano, Teliana chegou pela primeira vez à segunda rodada de Roland Garros, um dos principais torneios do mundo. Mas foi apenas um ano mais tarde, em maio deste ano, que se viu à frente de um de seus maiores desafios: enfrentar na competição francesa a melhor do mundo, Serena Williams. Perdeu por por 2 sets a 0, em um jogo que durou mais de uma hora.

A tenista não chega ao Rio em seu melhor momento. Na semana passada, caiu para 90 no ranking mundial. Nesta semana, perdeu um torneio em Florianópolis e caiu para a posição 130. Acredita que não tem muitas chances de subir ao pódio em suas primeiras Olimpíadas, mas sabe que dar a volta por cima é sua especialidade.

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