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O impacto dos refugiados nas escolas da Alemanha

Após receber 250.000 refugiados, sistema educacional alemão enfrenta o desafio de socializar alunos Envolvidos lidam com grandes diferenças culturais e frequentes traumas de guerra

Refugiados num centro de formação profissional em Berlim.
Refugiados num centro de formação profissional em Berlim. getty

São 11h45, e no colégio Allee, em Hamburgo, no norte da Alemanha, o recreio está prestes a acabar. Em meio aos alunos que fervem pelos corredores, 13 pré-adolescentes voltam para a classe da senhora Vogel. Somam entre si sete nacionalidades, e mais que o dobro disso em número de idiomas. A tarefa hoje consiste em reescrever uma redação procurando fórmulas mais compatíveis com a rigorosa estrutura do alemão. Nargues, uma menina de 13 anos, há apenas dois meses nesta escola, vinda do Afeganistão, se oferece para ler o seu exercício. “Muito bem. Você foi ótima”, parabeniza a professora. A tímida menina parece se esconder sob seu lenço islâmico.

Há um ano, esta classe não existia. Este colégio num bairro de classe média havia décadas já estava habitado à diversidade de fluxos migratórios, mas nada que se parecesse com a situação atual. Diante da emergência provocada pela chegada maciça de refugiados, os responsáveis pela escola se ofereceram no ano passado para criar uma classe de acolhida. “Todos estávamos muito comovidos. Os alunos também queriam participar. Mas a euforia inicial desapareceu”, explica o diretor, Ulf Nebe. Talvez a comoção dos primeiros dias tenha dado lugar a uma atitude mais pragmática: com vontade de ir em frente, mas ao mesmo tempo consciente das imensas dificuldades.

“Vemos casos que antes não podíamos nem imaginar”, diz uma professora

Uma menina de 14 anos não consegue parar de chorar o dia todo porque sente saudade da família. Chegou sozinha do Afeganistão, fazendo grande parte da viagem a pé. Outra foi atropelada por militantes do Taliban. Jovens traumatizados por experiências que muitas vezes não revelam. “Vemos casos que antes não podíamos nem imaginar”, diz Susana Pérez Caballero, uma professora espanhola que não consegue conter a emoção ao contar os avanços que observa. Como o da menina que acaba de lhe dar um desenho onde se lê: “Eu gosto de brincar, cantar, pintar e escrever. Aqui estou bem”.

O PROBLEMA DOS MENORES SEM FAMÍLIA

Cerca de 60.000 menores refugiados sem família vivem na Alemanha. Um deles, integrado numa família de acolhida e à espera de virar aprendiz numa padaria, subiu na segunda-feira passada num trem com um machado e uma faca, disposto a retalhar todos os “infiéis” que encontrasse. Niels Espenhorst, diretor de uma associação de ajuda a esses menores desacompanhados, conta que, quando mencionou esse caso a algumas crianças, elas ficaram horrorizadas. “Eles vieram para a Alemanha precisamente para fugir desse terror. E agora têm tanto medo dos atentados como de serem tomados por terroristas aqui”, dizia ele nesta semana em Berlim.

Das 14.500 solicitações de asilo apresentadas no ano passado, a maioria procedia do Afeganistão e da Síria. Como detectar sinais de radicalização nesses jovens? Espenhorst não tem respostas concretas. Afirma que os tutores devem estar em contato com eles e vigiar o que fazem nas redes sociais. Mas admite que muitas vezes esse profissionais têm mais de 50 menores sob sua supervisão – um limite que teoricamente não deveria ser ultrapassado – e que é difícil fazer um acompanhamento individual.

O choque afetou todo o país. Não existem dados concretos, mas se estima que o sistema educacional alemão tenha incorporado no último ano cerca de 250.000 alunos. Cada Estado da federação pode se organizar da maneira que preferir, mas o primeiro objetivo é o mesmo para todos: que as crianças e adolescentes aprendam o idioma alemão o quanto antes. Hamburgo optou por estabelecer um período de integração com duração de um ano, no qual são oferecidas aulas exclusivas para os recém-chegados, de forma a atender suas necessidades específicas. Outros Länder preferem misturar assim que possível os refugiados com os alunos locais.

“Acredito que o nosso sistema funcione bem. É positivo que, a princípio, estejam mais protegidos. Desenvolvem um sentimento de solidariedade entre eles, já que todos estão passando pela mesma situação e sabem como se sentem”, diz Pérez Caballero. Durante as aulas, não aprendem apenas alemão, mas também coisas como pedir um cartão da biblioteca e o passe de transporte. São coisas básicas que muitos nunca fizeram. No entanto, Andreas Schleicher, especialista educacional da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento na Europa (OCDE), não está muito convencido das boas intenções desse curso. “Se os alunos aprendem desde cedo matérias como matemática e história, também podem assimilar o alemão muito mais rápido”, afirmou durante uma conferência há alguns meses.

O desafio é grande. As autoridades da área da educação calcularam, há alguns meses, que precisariam de 20.000 novos professores. Os sindicatos elevaram o número a 24.000. Apenas em Hamburgo, 600 profissionais já foram contratados. “O problema não era tanto o dinheiro, e sim a estrutura. De repente, nos vimos obrigados a buscar espaços de improviso para dar aulas. No ápice da crise, nos ligavam de abrigos de refugiados para dizer que tinham usado as salas de aula para colocar mais camas. Então tínhamos que encontrar uma solução urgente”, diz Peter Albrecht, assessor do ministro de Educação do Estado de Hamburgo.

Aposentados de volta à escola

Diante da magnitude da situação, alguns dos professores que já estavam aposentados abandonaram seu tranquilo período de descanso. Klaus-Peter Göke-Hillmann é um deles. Prestes a completar 70 anos de idade, vai à escola de bicicleta e exibe uma vitalidade invejável. Nunca havia passado por sua cabeça voltar à vida docente. Ganha uma boa pensão e tem muitos planos paralelos ao colégio. Mas, em 2015, ao ver nos telejornais as enormes levas de refugiados que chegavam à Alemanha, achou que deveria ajudar.

As autoridades calculam que são necessários 20.000 novos professores

“Foi mais difícil do que eu pensava”, reconheceu o professor logo no começo da conversa. Estava feliz. O curso já está terminando, e os alunos editaram um catálogo no qual se apresentavam. “Na Síria existem escolas que usam livros muito bons. Mas, apesar de ser proibido, os professores aplicam castigos físicos aos alunos. Batem na mão com palmatória, por exemplo”, escreveu Ahmad, um dos estudantes, no trabalho que apresentou.

Göke-Hillmann gostou bastante do desafio de começar do zero. Ele é professor de matemática de um centro de acolhida a refugiados recém-chegados e teve que improvisar o material escolar, tanto para os que já eram bons alunos em seus países quanto para os que não sabiam nem escrever os números. As diferenças culturais também geraram mais atritos. Como no caso da família de uma menina síria que não permitia que ela fizesse aulas de natação, ou do menino que se negava a dar a mão para uma professora por ser mulher. “Eu o acompanhei até uma janela e disse: ‘Olhe, isto é a Alemanha. Aqui não importa se você é homem e ela e é mulher. O importante é que você é o aluno e ela é a sua professora’”, contou Göke-Hillmann.

O dia de aulas já terminou no instituto Allee. Os alunos carregam suas mochilas de volta para casa. Nargues, a afegã que tinha lido sua redação em classe, caminha com seus colegas. De um lado vão os alunos convencionais, de outro, os novatos. Agora não se misturam. Talvez possam estar juntos no próximo ano, quando o curso de integração terminar. Então, Nargues poderá estar rodeada de amigos alemães.

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