Estratégica no passado, Venezuela é agora “elefante na sala” do Mercosul

Para analistas, comércio bilateral em crise não deve ser afetado por distanciamento do Brasil

Presidente da Venezuela, Nicolas Maduro, durante comemoração do dia da independência.
Presidente da Venezuela, Nicolas Maduro, durante comemoração do dia da independência.Ariana Cubillos

A proposta do ministro das Relações Exteriores interino José Serra, apresentada nesta terça em Montevidéu, é que o comando da Venezuela seja ao menos postergado até agosto. Serra evitou citar a situação política e preferiu se concentrar no argumento de que o país de Maduro ainda não cumpriu com exigências antigas do bloco, como a adesão ao acordo tarifário. A resposta foi quase imediata. Poucos minutos depois, a ministra de Relações Exteriores da Venezuela, Delcy Rodríguez, classificou como "insolentes e amorais" as declarações em seu Twitter. "Serra se soma à conjura da direita internacional contra a Venezuela e viola princípios básicos que regem as relações internacionais", em alusão ao impeachment de Dilma Rousseff, considerado golpe pela gestão Maduro.

Longe da escalada verbal, o argumento de Serra a respeito das regras tarifárias é frágil, já que o Mercosul tem tolerado brechas nas regras de vários sócios e a própria Venezuela já presidiu o bloco, em 2013. Seja como for, os analistas se dividem quanto à conveniência da manobra.“Desde que ingressou no Mercosul, em 2012, a Venezuela não se enquadrou nas exigências. As violações são toleradas. Então tudo é possível do ponto regimental”, explica Stuenkel. O professor da FGV considera a saída do ministro do Itamaraty, intermediária em relação à oposição radical do Paraguai e em busca de negociação com os demais sócios, adequada porque o Brasil não poderia se colocar como protagonista num movimento anti-Venezuela enquanto enfrenta seus próprios problemas internos. “O processo do impeachment no Brasil é bastante delicado do ponto de vista democráticoe ainda não se concluiu”, destaca. Para Stuenkel, a Venezuela teria se tornado “ainda mais vulnerável e imprevisível” ao negar ajuda humanitária de outros países frente ao desabastecimento de produtos básicos para a população, que vão desde alimentos até artigos de higiene pessoal. Também ao reprimir violentamente protestos da oposição. “A relação bilateral com a Venezuela deixou de gerar benefícios mútuos. Neste momento, essa parceria só causa problemas para o Brasil e instabilidades para o bloco”, defende.

Na visão do analista de Vagner Parente, consultor sênior da Barral M Jorge, no entanto, o Brasil não deveria tentar impedir que a Venezuela presida o Mercosul, principalmente porque não há critério legal para isso. “Claro que o Mercosul enfrenta muitos problemas há anos, mas nada justifica rompimento institucional do bloco”, diz Parente.

Segundo o analista político Marcelo Suano, fundador do Centro de Estratégia, Inteligência e Relações Internacionais (Ceiri), a permanência da Venezuela no grupo tem enfraquecido o “já moribundo” bloco. “Não apenas pelo descumprimento dos quesitos mínimos para ingressar no Mercosul, que minou a credibilidade do grupo, mas também porque a economia venezuelana está quebrada e em nada acrescenta do ponto de vista de consumo e de produção para os demais membros”, afirma. Segundo ele, caso Maduro se mantenha no poder, as relações comerciais na região serão enfraquecidas cada vez mais.

Papel econômico e diplomático do Brasil

Em 2006, quando começaram os preparativos para que a Venezuela ingressasse no Mercosul, o cenário era completamente diferente. Por muitos anos, o país foi um parceiro estratégico para o Brasil, enquanto o principal comprador de produtos de alto valor agregado do país na região. De fato, o maior consumidor de insumos brasileiros está na Ásia, a China. Mas o interesse chinês se restringe a produtos agrícolas e minerais, as chamadas commodities, cujos preços são altamente voláteis no mercado internacional e inferiores ao de produtos industrializados. “A Venezuela eleva a qualidade das exportações brasileiras”, explica Stuenkel, da FGV. Quase metade da lista exportações do Brasil para a Venezuela é composta de máquinas e equipamentos e de produtos industrializados do segmento alimentício e químico.

Desde 2012, contudo, com o agravamento da crise econômica na Venezuela, o fluxo de comércio com o Brasil caiu mais de 40%, passando de 6 bilhões de dólares para 3,7 bilhões, segundo dados de 2015 compilados pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior - um declínio que não aconteceu só com o Brasil.

A perda de atratividade da Venezuela enquanto parceiro comercial se estende também para o segmento empresarial. “A dívida do Governo Maduro com as empresas brasileiras passa de 5 bilhões de dólares atualmente e não há a menor garantia de pagamento”, estima Suano, do Ceiri. Para Vagner Parente, da Barral M Jorge, a atuação diplomática tem que levar em conta não apenas o curto prazo. “O rompimento com a Venezuela não seria estratégico nem para o setor privado, nem para o Governo brasileiro. No longo prazo, a Venezuela é um mercado importante para o Brasil. Quando a crise acabar, o país vai precisar de tudo e nós precisamos estar preparados para vender”, analisa.

No longo prazo, Stuenkel, da FGV, concorda que as relações com a Venezuela devam ser preservadas, para que nenhum país assuma o papel do Brasil nas relações comerciais, mas acredita que o momento enfrentando por Maduro representa uma “janela de oportunidade” para um posicionamento mais rígido com o país. “As relações com Maduro sempre foram conturbadas, mesmo com a Dilma Rousseff. Mas a Venezuela já não tem mais condições políticas e econômicas para retaliar o Brasil”, destaca.

No plano diplomático, a crise gêmea - no Brasil e no bloco - já deixa suas marcas e pode marcar uma retração estratégica do Itamaraty na região, de acordo com Maria Regina Lima, professora e pesquisadora do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da UERJ. "O que me parece muito preocupante é que Nicolás Maduro prefere hoje tratar da crise venezuelana com um enviado norte-americano, Thomas Shannon, apesar de ele representar um Governo ideologicamente oposto (do que com lideranças da região). Os Estados Unidos certamente vão ocupar o espaço deixado pelo Brasil”, adverte a professora. Para ela, o discurso pró-negócios da gestão Temer, “esquecendo o Mercosul político e social”, significa “jogar por terra tudo o que foi feito em prol do protagonismo brasileiro na região” e também dos esforços para “deixar aos sul-americanos a solução de seus problemas”.

Com informações de Camila Moraes