Drogas

A fábrica mexicana do fentanil, a droga que matou Prince

A letal substância se espalhou por Guerrero, a narcorregião mais violenta do México

Cidade do México - 04 jul 2016 - 20:19 UTC

Matou Prince e, antes, centenas e centenas de outros norte-americanos. É o fentanil, o opiáceo sintético que pode ser até 50 vezes mais potente que a heroína. Sua fabricação ilegal, durante anos em mãos chinesas, avança no México e, como EL PAÍS pôde comprovar, já alcançou o coração de Guerrero, o epicentro da produção de ópio na América e uma das maiores plataformas de distribuição da droga para os Estados Unidos.

Fentanil mesclado com heroína em um povoado de Guerrero.
Fentanil mesclado com heroína em um povoado de Guerrero.Saúl Ruiz

Filo de Caballos é uma aldeia encravada na espinha dorsal da serra guerrerense. Tem apenas 900 habitantes e ali o telefone celular não pega. Em suas escarpadas ladeiras, fora do alcance do Exército, nada ou quase nada acontece sem que o narcotráfico saiba. O território, pobre e esquecido, é crucial para os cartéis. Não só pelo cultivo do ópio, mas também pela conexão com as rotas para os Estados Unidos. Dois fatores aos quais se somou agora um elemento revolucionário: o fentanil.

Mais informações

Uma viagem às terras altas de Guerrero mostra sua expansão. Difícil haver cultivador de ópio que não o conheça. Conscientes de que abre as portas de um explosivo mercado, falam da nova droga, comentam o assunto com ar de especialistas e, se há oportunidade, mostram-na ao lado do tradicional sumo de ópio.

Isso acontece em um pequeno restaurante. Trouxeram o fentanil envolto em um saquinho de plástico que depositaram amorosamente sobre a mesa. De uma desagradável cor bege claro, os camponeses explicam que foi misturado a cocaína. Um deles, com certa autossuficiência, chega a dizer que eles mesmos a produzem, ali na serra.

O pacotinho exala um intenso cheiro de remédio. É a hora da refeição e ao redor se concentra uma dezena de moradores. Não demonstram surpresa ao ver a endiabrada substância em um lugar público, embora haja, sim, uma certa reverência por seu valor. Ao contrário do viscoso sumo de ópio, que deixam o visitante manusear tranquilamente, com o fentanil pedem muito cuidado e não permitem que seja tirado do lugar. “Este é o mais potente que há no mundo”, garantem.

Criada originalmente como um paliativo para dor aguda em doentes de câncer, o fentanil teve seu uso recreativo aumentado, até se converter no pesadelo das autoridades dos EUA. Cerca de 700 pessoas morreram no país de overdose em um ano e seu consumo continua em alta.

As primeiras remessas procediam da China (daí que seja também conhecia como China White). Sua penetração nos Estados Unidos alertou os cartéis. Embora o preço inicial seja similar ao da heroína, uns 5.000 dólares (16.200 reais) o quilo, sua explosiva potência permite a proliferação de adulterações e multiplica em até 20 vezes os lucros em relação ao ópio.

Atraídas por essa enorme margem comercial, as organizações criminosas mexicanas começaram a importá-lo do Oriente para introduzi-lo elas mesmas no mercado dos EUA. Às vezes em estado puro e em outras mesclado com heroína. “Não é destinado ao consumo mexicano, que é de heroína, mas ao estadunidense”, explica o representante da Agência da ONU contra as Drogas e o Crime, Antonio Mazzitelli,

Uma vez controlado o canal, o passo seguinte foi desenvolver a produção. Há poucos dados a respeito. A agência antinarcóticos dos Estados Unidos (DEA) detectou certo fluxo de precursores químicos para o México e rastreou laboratórios em Nayarit e Guerrero. A maior apreensão em território mexicano se deu no ano passado em Sinaloa. A substância estava em mãos de operadores do Chapo Guzmán: 27 quilos de fentanil e 19.000 comprimidos apresentados sob a formulação da oxicodona, um analgésico opióide. Desde então, como em um gotejamento, foram aparecendo contrabandos e pequenos confiscos, o último na semana passada, em mãos dos criminosos que tinham assassinado três policiais federais em Chilapa (Guerrero).

Mas o importante, segundo dizem fontes policiais, não é tanto o produto acabado e a eterna escaramuça envolvida em sua apreensão, mas onde, como e para quem é fabricado. “O México começou a produzi-lo para enviar ao vizinho do Norte, e é muito possível que cartéis pequenos de Guerrero exportem diretamente o fentanil e o vendam a distribuidores nos Estados Unidos”, diz Mazzitelli.

A escolha das montanhas de Guerrero como plataforma de lançamento corresponde a uma abordagem estratégica. Localizado no coração de um dos Estados mais violentos do México, é um território sem lei, onde a pressão policial e militar é mínima. Nesse enclave, situado a apenas 250 quilômetros da Cidade do México, o cultivo maciço de ópio produziu infraestrutura altamente especializada na produção de heroína, que, agora, sem muita dificuldade, pode ser adaptada ao fentanil. Uma produção em massa e livre de interferências policiais. Tudo isso para viajar ao coração dos Estados Unidos.

Mais informações

O mais visto em ...

Top 50