92 minutos entre a vida e a morte em alto mar

EL PAIS acompanha dois resgates de 230 migrantes em frente ao litoral do Líbia em um navio do MSF

Resgate de 119 subsaarianos nesta quarta-feira perto da Líbia em um barco da Médicos Sem Fronteiras.CLAUDIO ÁLVAREZ (reuters_live)

Por sorte, nesta manhã o Mediterrâneo está particularmente tranquilo, e, embora haja apenas água e céu em torno do Dignity, de repente se vê da proa, ao horizonte, uma linha cinzenta. Em poucos segundos, perfilam-se várias cabeças e corpos de pé e, no minuto seguinte, a visão dos olhos tristes e do desânimo de 11 subsaarianos. Reina o silêncio. “Estamos aqui para ajudá-los”, grita em francês — o megafone é agressivo demais — Salah, que, junto com David e Ángel, se aproxima em um bote para estabelecer o primeiro contato com as 60 mulheres, 45 homens e seis crianças cujas vidas ele irá literalmente salvar. É um momento delicado, pois os migrantes poderiam se lançar à água impensadamente tamanho o seu desespero que vivem há meses, somado ao fato de que muitos nem sequer sabem nadar.

“Se nós ficarmos calmos, eles também ficarão”, sugere Daniel. São 8h16, e a concentração dos resgatadores se mistura com o silêncio daqueles que deixaram a terra firme durante a noite. A tensão é difícil de conter, já que tudo, inclusive um naufrágio, ainda pode acontecer. Pouco a pouco, o bote vai passando os coletes salva-vidas cuja cor, laranja, contrasta com a cor escura dos africanos, uma imagem já costumeira em jornais da TV e nos jornais nesta época do ano.

Entorpecidos, descalços, sujos, ensopados de água, pois passaram mais de 12 horas navegando com água e lixo dentro do seu bote, eles são transferidos para a embarcação que os levará até o Dignity em grupos de 15; ali, poderão comer, dormir e ser socorridos pelas médicas a bordo. Passaram-se apenas 20 minutos e o resgate avança à toda. Arturo e Daniel erguem os migrantes — em sua maioria da Nigéria —, que confiam em seus salvadores, sejam estes quem for, às vezes até de olhos fechados. “Não têm força para subir, termos de puxá-los”, explica Arturo, que está amarrado, por sua vez, com um cinturão ao barco para não cair no mar. Imediatamente, Maria José, a médica da missão, os examina com um sorriso. “Tudo bem”, “Olá”, diz ela, comunicando-se com eles pelos olhos, com uma piscadela fraternal. “Welcome on board” (Bem-vindo a bordo), diz Alfredo, cumprimentando um por um, devolvendo-lhes, assim, um mínimo de dignidade. Agora, estão todos salvos. Astrid, a parteira que realizou um parto a bordo em 2015, segura no peito um bebê de quatro meses enquanto a mãe resiste no bote e espera que a peguem com o seu filho, que logo sorri para a parteira. Carla, a única cozinheira do barco, com apenas 23 anos, acaricia amavelmente com um detector de metais o corpo de cada pessoa que entra, pois em nenhuma missão da ONG se permite o porte de facas ou revólveres. Lucas registra os dados dessas pessoas que hoje nasceram de novo; sexo, nacionalidade, idade... Rapidamente, Alfonso, Gabi e Ernest pegam os coletes para usar com a segunda turma. Os demais caem imediatamente, entregues.

Um bote com 119 subsaarianos antes de ser resgatado nesta quarta-feira pela Médicos Sem Fronteiras em águas internacionais na frente do litoral da Líbia.
Um bote com 119 subsaarianos antes de ser resgatado nesta quarta-feira pela Médicos Sem Fronteiras em águas internacionais na frente do litoral da Líbia.C. A.

A equipe médica, depois de examinar todo mundo, coloca pulseiras coloridas em seus braços. “A branca é para os que estão bem; a preta, para os menores desacompanhados; a verde para os que podem estar com sarna; e a vermelha para os que precisarão de acompanhamento quando chegarem em terra”, explica Hayley, a coordenadora da missão. O resgate prossegue, e até mesmo os membros mais experientes da equipe brincam afirmando que se trata do “menor” que fizeram até hoje. Mas o dia está apenas começando, e o capitão, Francesc, acaba de avistar ao longe um outro bote. “Desta vez há pessoas aos montes, transbordando pelas laterais. São muitos mais”, alerta.

Mais informações

O Bourbon Argos, um navio fretado pela MSF Bélgica, está resgatando, quase ao mesmo tempo, centenas de pessoas que avançavam em três embarcações. O bom tempo estimula a saída de migrantes que, depois de pagar de 500 a 1.200 euros (entre cerca de 2.000 reais e 4.800 reais) aos traficantes e esperar meses confinados em prédios nas praias líbias — daí a sarna —, saem à deriva com uma bússola e a única instrução de seguir sempre para o norte. No ano passado, cerca de 150.000 pessoas cruzaram o mar até as costas italianas; neste ano, até o momento, já são 48.000, segundo a Organização Internacional para as Migrações (OIM). Outras 850.000 pessoas atravessaram rumo à Grécia em 2015. Diante desse nível de chegadas, a União Europeia desenvolve políticas de contenção que incluem um acordo com a Turquia para enviar de volta a seus territórios os migrantes e refugiados que chegaram ao litoral grego, bem como um plano de investimento em países pobres, apresentado ontem pela Comissão Europeia, que visa a diminuir as causas do fluxo emigratório. O esquema contempla, ainda, um mecanismo de punição aos Estados que não colaborarem para frear o fluxo de migrantes.

Enquanto a equipe de ação humanitária distribui alimento — uma espécie de biscoito arenoso energético de meio quilo —, água, meias, toalha e lenços para as mulheres, Lizzi, a enfermeira canadense, atende as mulheres e as crianças dentro do barco. Quatro estão grávidas, e algumas estão febris. Mas a amabilidade desanuvia de alguma forma a sua exaustão, e muitas delas conseguem até mesmo arranjar força para exibir um sorriso a seus salvadores: “Thank you, thank you” (obrigado, obrigado), esboça, com os lábios, uma delas, apontando, com as mãos, para o seu próprio coração. Não consegui dizer nada. “Estou fugindo do Boko Haram [grupo ligado ao Estado Islâmico na Nigéria], da fome e da pobreza”, diz Comfort, uma jovem de 19 anos com trancinhas grudadas na cabeça nas quais toca o tempo todo. “Quero ir para a Europa. Para qualquer país”, sorri, ao lado de uma outra jovem que acaba de conhecer. Agora são amigas. As que estão em situação mais delicada dormem em beliches, mas o chão se transformou no leito de quase todas as demais. “Meus olhos ficam girando”, diz, assustada, uma mulher bastante jovem. Ela ignora a sensação de enjoo decorrente de estar dentro de um barco. “É normal”, diz Lizzi procurando acalmá-la. “Já vai passar”.

REDACCIÓN: BELÉN DOMÍNGUEZ / VÍDEO: CLAUDIO ÁLVAREZ (reuters_live)

Do lado de fora, apesar de o termômetro marcar apenas 26 graus, o sol é forte, e os 45 homens subsaarianos se refugiam sob o toldo do convés. Uma hora mais tarde, depois do segundo resgate, eles serão 162. Observam-se uns aos outros, dormem, esfregam as mãos dando graças a Deus, rezam para Alá, vão ao banheiro, vomitam por causa do enjoo, a sede, a fome, o medo... Chama a atenção, no entanto, que ninguém, com exceção dos bebês, está chorando. “Senti muitas vibrações. As pessoas estão felizes por nos ver”, conta Jean Philippe, o novo coordenador da missão, em sua primeira experiência em alto mar.

Em 92 minutos, o Dignity havia devolvido a vida a 230 pessoas que, mais uma vez, lançaram-se à sorte por caminhos os mais absurdos para escapar da guerra, das perseguições e da miséria. Todas elas, depois de se recuperar um pouco, foram transferidas para o Bourbon Argos — que trazia 362 pessoas a bordo — para seguir viagem por pelo menos mais um dia rumo à Itália, onde serão desembarcadas 592 pessoas. Dessa forma, o Dignity continuará a poder percorrer a região a fim de salvar as vidas daqueles que esta noite, com o negócio das máfias em pleno vigor, embarcarem no litoral da Líbia. A mesma coisa será feita pelo navio Aquarius, que tem a presença dos MSF e do SOS Mediterranée e que transferiu para uma embarcação irlandesa mais 235 migrantes, 58 dos quais eram menores desacompanhados.

“Rescued 8/06/2016” (Resgatado 8/06/2016), escreve um dos oficiais, com um spray preto, na lateral dos botes. O Dignity deixa à deriva o segundo bote. O primeiro, enquanto isso, arde ao longe com as chamas provocadas pelas embarcações militares que patrulham — e às vezes resgatam pessoas também — o canal da Sicília. Mesmo assim, “ainda deve haver centenas deles espalhados pelo mar”, suspira Salah.

Mais informações

Arquivado Em

Recomendaciones EL PAÍS
Recomendaciones EL PAÍS
Logo elpais

Você não pode ler mais textos gratuitos este mês.

Assine para continuar lendo

Aproveite o acesso ilimitado com a sua assinatura

ASSINAR

Já sou assinante

Se quiser acompanhar todas as notícias sem limite, assine o EL PAÍS por 30 dias por 1 US$
Assine agora
Siga-nos em: